Corpo no limite: o que as lesões de Rodrygo, Estêvão, Depay e Militão revelam sobre o futebol moderno
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O futebol de alto rendimento vive um momento preocupante. A poucos dias de uma Copa do Mundo, quatro jogadores de destaque – Rodrygo, Memphis Depay, Estêvão e Éder Militão – sofreram lesões importantes que os afastam dos gramados e levantam uma discussão inevitável: o corpo do atleta está no limite?
Cada um desses casos representa um tipo diferente de lesão ortopédica, mas todos têm algo em comum: são consequência direta das exigências físicas intensas, mudanças bruscas de direção, aceleração máxima e sobrecarga muscular contínua.
Rodrygo: ruptura do ligamento cruzado anterior e lesão de menisco
No caso de Rodrygo, houve ruptura do ligamento cruzado anterior associada a lesão de menisco – uma das combinações mais temidas no joelho. Esse tipo de lesão geralmente ocorre em movimentos de rotação com o pé fixo no chão, muito comuns no futebol.
O ligamento cruzado anterior é fundamental para a estabilidade do joelho, e o menisco funciona como um amortecedor da articulação. Quando ambos são comprometidos, a cirurgia é praticamente inevitável, e o retorno ao esporte costuma levar de seis a nove meses.
Memphis Depay: lesão muscular grau 2 no quadríceps
Já Memphis Depay sofreu uma lesão muscular grau 2 na parte anterior da coxa, mais especificamente no quadríceps. Trata-se de uma lesão parcial, com ruptura de algumas fibras musculares. É comum em arrancadas e chutes de alta intensidade.
Apesar de menos grave, exige cuidado: o tempo médio de recuperação varia de três a seis semanas, mas o risco de recidiva é alto se o retorno for precoce.
Estêvão: ruptura grau 4 na musculatura posterior da coxa
O caso de Estêvão é mais preocupante. A ruptura de grau 4 da musculatura posterior da coxa representa uma lesão grave, muitas vezes associada a comprometimento do tendão. Esse tipo de lesão ocorre em sprints explosivos – exatamente no momento em que o músculo é mais exigido em alongamento máximo.
Em muitos casos, pode haver indicação cirúrgica, com tempo de recuperação entre quatro e seis meses.
Éder Militão: ruptura do tendão proximal do bíceps femoral
Por fim, Éder Militão sofreu uma ruptura do tendão proximal do bíceps femoral, um dos principais músculos da parte posterior da coxa. Trata-se de uma lesão complexa, especialmente quando envolve o tendão, pois compromete força, estabilidade e potência muscular.
O tratamento frequentemente inclui cirurgia, e o retorno ao esporte pode levar vários meses, além de exigir recondicionamento intenso.
O que explica tantas lesões?
O aumento da intensidade dos jogos, o calendário apertado e a exigência física cada vez maior fazem com que os atletas atuem constantemente no limite. Além disso, fatores como fadiga acumulada, recuperação inadequada e até aspectos biomecânicos individuais contribuem para esse cenário.
Lesões ligamentares, como a de Rodrygo, estão mais relacionadas a movimentos de torção e instabilidade articular. Já as musculares, como as de Depay, Estêvão e Militão, têm forte relação com sobrecarga, fadiga e explosão muscular.
Diagnóstico e tratamento: precisão é essencial
Hoje, o diagnóstico dessas lesões é feito com exames de imagem, especialmente a ressonância magnética, que permite avaliar com precisão o grau da lesão e orientar o tratamento.
O tratamento varia conforme a gravidade:
- Lesões leves e moderadas: fisioterapia e fortalecimento progressivo;
- Lesões graves: frequentemente cirúrgicas, seguidas de reabilitação prolongada.
O retorno ao esporte não depende apenas da cicatrização, mas da recuperação completa da força, mobilidade e confiança do atleta.
Um alerta para o futuro
Esses casos não são isolados. Eles refletem uma tendência crescente no futebol moderno. A prevenção passa por controle de carga, preparação física individualizada e atenção aos sinais do corpo.
O desafio da medicina esportiva hoje não é apenas tratar lesões, mas antecipá-las. Porque, no futebol atual, jogar bem já não é suficiente – é preciso, antes de tudo, conseguir jogar.
*Pedro Debieux Vargas Silva é ortopedista, doutor pela Universidade Federal de São Paulo, com pós-doutorado na Universidade de Connecticut e membro da Brazil Health
(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)