Adeus, papanicolau? Fiz em mim mesma um teste de HPV em casa – e esse é o meu relato

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Há alguns meses, fui procurada por um laboratório de medicina genômica para participar de um projeto que nos chamou a atenção: uma experiência com jornalistas que tinha o intuito de apresentar o teste de papilomavírus humano (HPV) por autocoleta.

Essa é uma nova tecnologia que permite que a própria paciente realize, sem sair de casa, o procedimento inicial para detecção da presença do vírus que é o principal causador do câncer de colo do útero no mundo.

A autocoleta é uma das formas possíveis de fazer o chamado teste de biologia molecular DNA-HPV, um novo método, baseado em genética, que deve substituir o famoso papanicolau (ou “preventivo”) como primeiro exame de rastreio do vírus ao longo dos próximos anos.

Para ter ideia, ele é, hoje, a recomendação de primeira escolha da Organização Mundial da Saúde (OMS) e já foi implementado no Sistema Único de Saúde (SUS) de 12 estados brasileiros.

A nova estratégia é preferível porque é mais moderna e sensível. Enquanto o exame tradicional acerta entre 50% e 60% dos casos — um resultado que depende muito da habilidade de quem coleta —, o DNA-HPV chega a 98% de precisão.

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Para melhorar, o teste pode ser feito em consultórios, laboratórios e, até… no seu próprio banheiro, quarto ou onde preferir.

“Essa forma de rastreio veio para que possamos atender a uma margem maior de mulheres”, comenta Maria dos Anjos Neves, ginecologista dos laboratórios da DASA Genômica, que fez o convite à VEJA SAÚDE.

Entre elas, estão as que moram em lugares distantes de clínicas ou laboratórios, em estado de vulnerabilidade social ou que têm vaginismo, condição que causa dores na região vaginal, bem como o público trans, que pode evitar a realização dos testes em clínicas por medo de julgamentos.

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Para saber mais sobre essa técnica, a seguir, confira como o teste é feito, as etapas e considerações da reportagem a respeito do autoteste.

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Primeiros passos

Tudo começou alguns dias antes do exame em si. Primeiro, marcamos a data em que o teste seria feito, quando uma técnica de enfermagem visitaria a minha casa para me entregar o material e aguardar a minha realização da coleta.

O kit é formado por uma pequena haste plástica, como um swab, em formato cilíndrico, que possui cerdas nas pontas, e um tubo com meio conservante para a amostra, onde a haste deve ser armazenada ao fim do processo.

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Na ocasião, também fui informada de que havia um processo de preparação antes de fazê-la. Recebi, ainda, um documento com as instruções.

Antes do exame, é necessário seguir algumas regras. Por exemplo, durante três dias antes do teste não é permitido:

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  • Ter relações sexuais;
  • Fazer uso de cremes, óvulos, gel ou pomada vaginal;
  • Realizar exame ginecológico (toque vaginal e exame especular) ou ultrassonografia transvaginal.

O teste também não deve ser feito durante a menstruação ou até sete dias depois de uma histeroscopia (exame que investiga o interior do útero).

Chegada a data marcada, fui visitada pela técnica Thaís Nascimento, que me trouxe documentos, o material e muita simpatia. Ela também prestou orientações sobre como fazer o autoexame.

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Confesso que minha reação imediata, com o kit na mão, foi de medo. Toda mulher conhece o ritual pouco glamouroso (mas necessário) do consultório ginecológico — a maca fria, os joelhos para o alto, a espátula… que já despertam alguns receios quanto ao conforto de um teste assim.

Mas foi, definitivamente, muito mais simples e rápido do que eu poderia imaginar.

Como é feito, na prática?

Para a realização do exame, deve-se estar com o kit, higienizar as mãos e se deslocar para um local reservado, onde se sinta confortável, como um banheiro. Você estará sozinha.

De pé, a haste deve ser inserida no canal vaginal, indo até marcação que define o limite de profundidade. Uma vez introduzido, o dispositivo deve ser girado cinco vezes. E pronto! Ao todo, o processo dura alguns segundos.

Mas, vale dizer que, por aqui, não foram só flores, pois senti dificuldade em manusear a haste do modo indicado. Ainda assim, meio desajeitado, deu tudo certo; não foi nada que comprometesse o exame, segundo me explicou Thaís.

É claro, também, que não é tão confortável a sensação promovida pelas cerdas plásticas rodopiantes, já que, apesar de flexíveis, elas não são muito macias. Ainda assim, é simples e, de novo, muitíssimo rápido.

Manual de instruções da Coari para realização do autoteste.
Manual de instruções da Coari para realização do autoteste. (Coari/Divulgação)

O último passo é só desrosquear a tampa do fundo do tubo de armazenamento e guardar nela a haste. Depois, basta entregar a unidade à técnica coletadora.

Manual de instruções da Coari para realização do autoteste.
Manual de instruções da Coari para realização do autoteste. (Coari/Divulgação)

Após sete dias úteis, o resultado está pronto. É possível checar online, mas o documento também chega em casa.

Por aqui, o teste deu negativo para a presença do vírus, mas abriu a reflexão sobre a importância de uma descoberta precoce, já que o HPV é extremamente comum, incluindo os seus tipos mais agressivos.

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O que acontece se der positivo?

O teste de DNA-HPV funciona como uma triagem inicial. Se der positivo, é preciso investigar melhor para saber se o vírus realmente causou alterações no colo do útero. É que só a presença do HPV não é sinônimo de que ele já tenha causado problemas.

É por isso que exames como o papanicolau e a colposcopia não deixarão de existir, pois ajudam a avaliar se há lesões e qual a gravidade delas.

Ao todo, existem mais de 200 tipos de HPV catalogados. E eles são classificados em duas categorias principais, de acordo com o potencial de causar doenças: baixo risco, aqueles que podem causar verrugas genitais e lesões benignas nas mucosas, e alto risco, que podem levar ao câncer.

O teste de DNA é capaz de detectar se uma pessoa teve contato com 14 genótipos do vírus, incluindo os tipos 16 e 18, responsáveis por cerca de 70% dos casos de tumores no colo do útero.

Uma vez detectada a presença do vírus, os resultados devem ser avaliados por um médico, que irá definir as próximas etapas de tratamento e exames adicionais a serem realizados.

“A autocoleta identifica o HPV de alto risco. Então, a genotipagem não significa doença, mas um indicativo de contato com o vírus. Por isso, é uma ferramenta importante para que filtremos qual mulher devemos acompanhar mais de perto, visando prevenir que ela desenvolva o câncer”, explica Maria dos Anjos.

Segundo a médica, casos em que são encontrados os vírus do tipo 16 e 18 devem ser encaminhados diretamente para uma colposcopia, exame ginecológico detalhado que avalia o colo do útero, a vagina e a vulva.

Outros tipos de HPV podem passar por teste citológicos feitos por meio de papanicolau para averiguar se não há alguma alteração celular.

O HPV não tem cura, mas existe controle e acompanhamento para que não evolua para doenças graves. “Por isso, o diagnóstico não significa que a vida não vai continuar ou que a sexualidade não poderá ser vivida, mas, sim, é um norte para acompanhar o quadro”, destaca Maria.

Qual a diferença entre DNA HPV e papanicolau?

Os dois exames ajudam a prevenir o câncer, mas funcionam de formas diferentes, ainda que, no que diz respeito à coleta, também sejam parecidos, pois ambos envolvem a secreção do colo do útero. Ainda assim, o teste de DNA tende a ser mais rápido e menos desconfortável.

O médico Rogerio Tadeu Felizi, ginecologista e chefe do Centro Especializado em Endometriose do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, explica que o papanicolau procura alterações nas células do colo que possam indicar o início de uma lesão causada pelo HPV.

Ou seja, ele observa se o vírus já provocou alguma mudança no organismo.

Nele, a paciente se deita na maca enquanto o profissional de saúde introduz um instrumento chamado espéculo na vagina para visualizar o colo do útero e faz uma pequena raspagem da região com uma espátula. As células retiradas são colocadas em uma lâmina ou em um frasco e enviadas ao laboratório.

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Já o teste de DNA-HPV busca detectar a presença do material genético do vírus, mesmo antes de surgirem alterações celulares. Para isso, usa uma técnica chamada PCR, capaz de identificar pequenas quantidades do material genético do HPV com alta precisão.

Mesmo em pessoas assintomáticas, ele permite descobrir que o vírus está circulando pelo organismo.

“Diferentemente do papanicolau, que identifica alterações celulares já estabelecidas no colo uterino, o teste de DNA HPV identifica precocemente a presença do vírus, permitindo reconhecer mulheres com maior risco antes mesmo do surgimento de lesões precursoras”, resume Felizi.

Avanço na prevenção

Maria lembra que o HPV não é sinônimo de câncer, afinal, ele é apenas um precursor da doença, mas não um destino final. Isso significa que o diagnóstico precoce permite identificar infecções e alterações antes que elas evoluam para quadros mais graves, aumentando consideravelmente as chances de prevenção e tratamento. 

“O papiloma vírus humano é um vírus extremamente comum, não é um bicho assustador; ele só tem que ser melhor interpretado”, destaca a médica.

Por isso, os novos testes representam um avanço na prevenção das doenças. “A autocoleta, por exemplo, amplia o acesso ao rastreio. Por isso, é uma estratégia que reduz desigualdades e salva vidas”, diz Maria. 

Ainda assim, a vacina contra o HPV é a forma mais eficaz de prevenir infecções. Ela é segura, altamente eficaz e recomendada principalmente antes do início da vida sexual.

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Na rede pública, o imunizante oferecido é o quadrivalente (que protege contra os tipos 6, 11, 16 e 18), com doses distribuídas para meninos e meninas de 9 a 14 anos, além de alguns grupos específicos, como imunossuprimidos e vítimas de violência sexual com até 45 anos.

Na rede privada, existe, também, a vacina nonavalente, que amplia a proteção e é ofertada para pessoas com até 45 anos (embora a vacina funcione melhor antes do contato com o vírus).

Apesar de sua importância na prevenção de diferentes tipos de câncer, as taxas de vacinação contra o HPV vêm caindo nos últimos anos. Especialistas apontam que parte dessa resistência ainda está ligada à desinformação e ao preconceito em torno do vírus, já que ele é sexualmente transmissível.

No entanto, a vacinação funciona como uma forma de proteção coletiva e individual, sobretudo quando aplicada antes do início da vida sexual, período em que a resposta imunológica costuma ser mais eficaz.

Por isso, contra esse cenário de estigma e desinformação, Maria reforça a importância da imunização: “Vacinar é um ato de amor”, afirma a ginecologista da DASA Genômica.

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