Pequena Lô: Não precisamos ser exemplos de superação para merecer respeito

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As pessoas às vezes pensam que o sofrimento relacionado à deficiência nasce da deficiência em si, mas não. Muitas vezes, ele é produzido e pode ser agravado pela falta de acessibilidade que encontramos durante diversas situações ou lugares.

Quando digo sobre a falta de acessibilidade é quando o lugar ou até mesmo pessoas limitam nossa autonomia ou a nossa participação social. Eu costumo sempre dizer uma frase que pode explicar melhor essa ideia: “às vezes o ambiente pode ser muito acessível e as pessoas não, e às vezes as pessoas são acessíveis e o ambiente não”.

Além disso, podemos citar também o próprio capacitismo, que é o lugar de inferior que nos colocam, querendo nos transformar em exemplos de superação, e isso faz com que nos tornemos excluídos tanto no mercado de trabalho ou até mesmo no lazer.

A invisibilidade da sexualidade também pode ser outro exemplo citado, pois costumam nos colocar em uma caixinha onde nós, pessoas com deficiência, não podemos amar ou ser amados, sermos desejáveis ou desejarmos o outro.

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Escrever sobre deficiência a partir da minha experiência pessoal e da psicologia exige que eu ocupe dois lugares que, na verdade, nunca estiveram separados. Sou uma mulher com deficiência física e também psicóloga.

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Falar de deficiência e saúde mental ainda provoca incômodos, dúvidas e vários questionamentos. Um deles é imaginar que a deficiência produz, necessariamente, sofrimento psicológico.

Outro é achar que qualquer dificuldade emocional atinja diretamente o corpo ou cause uma limitação funcional. Essa leitura acaba inferiorizando a pessoa à deficiência e ignora o contexto no qual ela vive.

Muitas vezes, não é o corpo que impede a participação social, mas sim o transporte e o ambiente de trabalho que não têm acessibilidade adequada ou até mesmo o próprio profissional que enxerga incapacidade antes mesmo de conhecer a pessoa, e acaba querendo ditar onde nós pessoas com deficiência devemos ser encaixados pela visão dele, e não onde elas realmente são capazes de estar.

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Esse processo tem nome: capacitismo. Ele aparece quando pessoas com deficiência são consideradas menos capazes, menos autônomas ou menos aptas a tomar decisões sobre a própria vida.

Mas também surge de maneiras aparentemente positivas, como quando uma pessoa é transformada em exemplo de coragem apenas por estudar, trabalhar, amar, viajar ou existir em público. Entre a pena e a exaltação, a superação frequentemente faz desaparecer a possibilidade de sermos percebidas como pessoas inteiras, complexas e comuns.

Viver a deficiência pode envolver experiências específicas de luto, adaptação e reconstrução da identidade. E esses processos merecem escuta e cuidado, não só da pessoa com deficiência, mas também de quem convive, principalmente os pais. No entanto, reconhecer esse sofrimento não significa entender a deficiência como tragédia.

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Significa admitir que mudanças, perdas e situações de “barreiras” que vão aparecer durante a vida podem mobilizar emoções legítimas. Tristeza, raiva, medo e exaustão não devem ser imediatamente tratados como sintomas de doença. Uma pessoa que precisa justificar repetidamente suas necessidades pode se sentir cansada.

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Quando se enfrenta olhares invasivos ou é infantilizada pode sentir raiva. Quem encontra barreiras e dificuldade no simples fato de querer ir pode desenvolver medo de sair, vergonha ou sensação de não pertencimento. Individualizar essas reações, sem considerar o contexto ao redor, pode transformar uma questão social em um problema exclusivamente psicológico.

O que a psicoterapia deve (e não deve) fazer

É muito importante compreender que o cuidado psicológico precisa olhar tanto para o mundo interno quanto para as condições concretas da vida. A psicoterapia não deve servir para ensinar alguém a tolerar passivamente o capacitismo.

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Ela deve ser vista como um espaço para nomear violências, elaborar experiências, fortalecer a autonomia e construir estratégias e caminhos de enfrentamento sem responsabilizar a pessoa pelas barreiras que a sociedade mantém.

Como psicóloga, considero essencial que o atendimento reconheça a pessoa para além do diagnóstico e da deficiência. Nem todo assunto levado à terapia estará relacionado ao corpo.

Pessoas com deficiência também têm suas vidas pessoais, também passam por conflitos familiares, desafios profissionais, relacionamentos amorosos, dúvidas, desejos, sexualidade, maternidade, envelhecimento e projetos de futuro. Quando o profissional atribui tudo à deficiência, acaba desvalorizando a escuta e reforça o mesmo mecanismo que deveria combater.

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Também é importante falar sobre o acesso aos serviços de saúde mental. Um consultório em um prédio sem elevador, uma recepção que se dirige ao acompanhante em vez de falar diretamente com a pessoa, como se ela não fosse capaz de ter um diálogo, ou um profissional que desconhece as particularidades da deficiência são formas de exclusão.

Acessibilidade não é gentileza ou um favor que deve ser feito. É uma condição básica para que o cuidado e a inclusão realmente existam. Reconhecer a autonomia da pessoa é mais ético do que decidir por ela. Ouvir sua experiência é mais importante do que tentar encaixá-la em uma narrativa de sofrimento ou superação.

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Inclusão começa por quem não tem deficiência

Minha experiência pessoal não representa todas as mulheres ou todas as pessoas com deficiência. Somos diversas, e nossas vivências são atravessadas por gênero, raça, classe social, território, orientação sexual, rede de apoio e tipo de deficiência. Mas ainda assim acredito que há algo que pode nos aproximar: a necessidade de sermos escutadas sem que nossa humanidade seja reduzida a um corpo considerado fora do padrão.

Cuidar da saúde mental de pessoas com deficiência exige mais do que estimular autoestima e resiliência. Exige lutar contra o capacitismo, garantir acesso, respeitar escolhas e criar condições reais de participação.

A responsabilidade pela inclusão não pode permanecer apenas sobre os ombros de quem encontra a barreira, a inclusão não deve ser feita apenas pelas pessoas com deficiência, mas, sim, começar justamente por quem não tem deficiência, para que possamos nos sentir pertencentes da sociedade em que também fazemos parte.

Não precisamos ser exemplos de superação para merecer respeito. Não precisamos demonstrar força o tempo todo para que nossa vida seja reconhecida como valiosa ou sermos vistas como super-heróis. Precisamos ter o direito de existir, de pedir ajuda sem sermos diminuídas e de construir uma vida que não seja definida apenas pela deficiência.

Saúde mental também é poder pertencer ao mundo sem precisar provar, diariamente, o próprio valor.

*Pequena Lo é psicóloga , atriz e criadora de conteúdo

Pequena Lô com seu livro, “Na dúvida, escolha ser feliz” (Divulgação/Divulgação)

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