A desigualdade no acesso aos sensores de glicose no Brasil

Ler Resumo

Vemos hoje muitas discussões sobre inteligência artificial, o avanço dos algoritmos, a detecção precoce de muitas doenças, o uso de teleconsulta, aplicativos que fornecem a quantidade de carboidrato de determinado prato e outros mostram quantos passos a pessoa andou naquele dia…

São muitos os avanços, mas que na prática não estão disponíveis para a população global.

Quando falamos em saúde pública no Brasil, muitos municípios e estados ainda não conseguem integrar um prontuário eletrônico, para que os profissionais de saúde possam visualizar todo o histórico do paciente com relação ao seu quadro de saúde e tomar melhores decisões.

Além desta dificuldade de infraestrutura das Unidades de Saúde, há outros problemas que poderiam ser resolvidos mais facilmente e que gestores municipais e estaduais já perceberam, mas o Governo Federal insistir em não reconhecer: o uso de sensores de glicemia para pessoas com diabetes reverte em mais economia para o SUS.

Leia também:  4 dicas para aumentar o consumo diário de fibras e ter mais saúde

O Vozes do Advocacy realizou uma pesquisa com 1.411 pessoas de todas as regiões do país com o diagnóstico de diabetes.

Continua após a publicidade

Os autores Ademar Pinezi Junior e Dr. Rodrigo Siqueira, junto com a autora deste artigo, constatam que a desigualdade econômica apareceu como uma das principais barreiras do uso da monitorização contínua de glicose.

Na amostra, 40,8% utilizam a tecnologia; 26,2% já utilizaram, mas precisaram interromper; e 33% nunca tiveram acesso à monitorização contínua de glicose (chamado também de sensor).

Entre aqueles que precisaram abandonaram o uso, 64,6% apontaram o alto custo como principal motivo. 78,6% dos usuários da tecnologia afirmam pagar do próprio bolso ou recorrer à judicialização para conseguir acesso aos sensores.

Continua após a publicidade

A diferença de acesso entre as faixas de renda foi expressiva, 72,4% dos usuários possuem renda superior a 10 salários mínimos, e apenas 21,5% que usam a tecnologia afirmam ter renda de até 1 salário mínimo. Como conclusão, pessoa com mais renda têm aproximadamente 3,4 vezes mais acesso ao sensor de glicose no país.

Menos internações e complicações entre os usuários

Outros dados interessantes mostram economia para o SUS. 17,7% das pessoas, que nunca utilizaram o sensor, foram internadas por complicações relacionadas ao diabetes no último ano. Entre os usuários atuais somente 11,5% precisaram ser internadas.

A pesquisa também identificou que há uma associação entre o uso atual do sensor e menor ocorrência de complicações do diabetes.

Continua após a publicidade

Entre as pessoas que nunca utilizaram a tecnologia, 43,7% relataram complicações microvasculares, como retinopatia e doença renal; 20,2% complicações macrovasculares, como cardiovasculares ou amputações; 47,5% declararam possuir alguma outra complicação crônica relacionada ao diabetes.

Leia também:  Fumar vape faz menos mal? Entenda o efeito dos “pods” no organismo

Já entre os usuários, apenas 21,1% relataram complicações microvasculares, 5,7% macrovasculares e 23,4% outra complicação crônica associada ao diabetes.

O impacto para o SUS e o que vem pela frente

O Brasil gasta bilhões de reais todos os anos tratando complicações do diabetes, se fosse investido recurso nesta tecnologia junto com educação em diabetes para os brasileiros com a condição, o impacto econômico para o SUS seria muito menor.

Continua após a publicidade

O Prefeito de São Paulo percebeu esta questão e lançou um projeto piloto de monitoramento contínuo de glicose em São Paulo recentemente para crianças com diabetes tipo 1 com até 12 anos. Esperamos que após o período de experiência, o programa possa ser ampliado para os adultos também.

Em breve, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologia do SUS, ligada ao Ministério da Saúde, fará a discussão final para analisar de incorpora esta tecnologia para os brasileiros com diabetes tipo 1, depois de analisar a manifestação de 26 mil brasileiros a respeito deste assunto.

Esperamos que os membros da Comissão possam ter o discernimento ao entender que o investimento hoje na tecnologia vai reverter em diminuição do impacto financeiro do SUS, com redução de internação, hospitalização e complicações do diabetes.

Continua após a publicidade

*Vanessa Pirolo é jornalista, Presidente do Vozes do Advocacy, Federação de Associações e Institutos de Diabetes e Obesidade

Artigo Original CLIQUE AQUI


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *