Looksmaxxing: os riscos ocultos da busca pelo corpo perfeito
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A preocupação com a aparência não é nova. O que mudou nas últimas décadas foi a intensidade com que somos expostos a determinados padrões de beleza.
Artistas, publicidade, academias e o universo fitness sempre exerceram alguma influência sobre a imagem corporal. Com as redes sociais, porém, essa exposição passou a acompanhar as pessoas praticamente o dia inteiro.
É nesse ambiente que ganhou força o chamado looksmaxxing, expressão em inglês usada para definir a tentativa de maximizar a própria aparência.
O fenômeno se difundiu principalmente em comunidades masculinas na internet e pode incluir desde cuidados convencionais com pele, cabelo, alimentação e exercícios até intervenções mais agressivas para modificar o rosto e o corpo.
Um artigo publicado em 2026 pela revista Pediatrics, da Academia Americana de Pediatria, chama a atenção para a chegada desse fenômeno aos consultórios. Termos relacionados ao formato da mandíbula, simetria facial, musculatura e procedimentos para modificar a aparência já fazem parte do vocabulário de muitos adolescentes.
Quando melhorar a aparência nunca parece suficiente
Entre os homens, determinados padrões aparecem repetidamente: corpo muito musculoso, baixo percentual de gordura, mandíbula marcada, cabelos fartos e valorização de características sexuais.
O ambiente digital permite comparar cada detalhe do corpo com o de influenciadores e outras pessoas, muitas vezes sem que se saiba o que existe por trás daquela imagem.
O problema não está em querer cuidar da aparência, mas quando isso se transforma em uma busca permanente por um padrão difícil ou impossível de alcançar. A pessoa emagrece, mas quer reduzir ainda mais a gordura. Ganha massa muscular, mas continua se considerando pequena. Treina, mas entende que precisa treinar mais.
Essa pressão pode favorecer dietas extremas, treinamento excessivo e, em alguns casos, o uso de substâncias para acelerar o ganho de massa muscular. É nesse ponto que o fenômeno também passa a interessar à cardiologia.
O coração pode pagar a conta
Um dos maiores sinais de alerta aparece quando a busca pelo corpo desejado leva ao uso de esteroides anabolizantes sem indicação médica. Hoje existem evidências consistentes de que essas substâncias podem trazer consequências cardiovasculares importantes.
Um estudo publicado em 2025 na revista científica Circulation acompanhou 1.189 homens identificados pelo uso de esteroides anabolizantes e comparou seus resultados com os de mais de 59 mil homens da população geral.
Após aproximadamente 11 anos de acompanhamento, os usuários apresentaram risco três vezes maior de infarto, 2,3 vezes maior de arritmias e 3,6 vezes maior de insuficiência cardíaca. Para cardiomiopatia, doença que compromete o músculo cardíaco, o risco foi quase nove vezes maior.
É fundamental deixar claro que esses dados não significam que a musculação seja prejudicial ao coração. Pelo contrário, atividade física regular e treinamento de força realizados adequadamente fazem parte de um estilo de vida saudável.
A preocupação está no uso de substâncias e estratégias potencialmente perigosas para acelerar resultados ou ultrapassar os limites naturais do organismo.
Um corpo musculoso não significa necessariamente um coração saudável
Os esteroides anabolizantes estão associados a alterações da pressão arterial e do colesterol, aterosclerose e mudanças estruturais no coração.
Uma das preocupações é a hipertrofia do ventrículo esquerdo, quando ocorre espessamento do músculo cardíaco, que pode vir acompanhado de comprometimento de sua função.
Pesquisa publicada em 2026 no JACC: Advances encontrou hipertrofia ventricular esquerda em cerca de um terço dos usuários de longo prazo de esteroides anabolizantes avaliados. Entre aqueles que apresentavam a alteração, também foram observados sinais mais importantes de comprometimento da função cardíaca.
É uma distinção importante: um corpo externamente musculoso não é necessariamente sinônimo de um organismo mais saudável.
Atenção ao que os jovens consomem nas redes
Outro aspecto preocupante é a facilidade com que informações sobre dietas, suplementos, hormônios e outras substâncias circulam nas redes sociais. Muitas recomendações aparecem acompanhadas de fotografias de resultados impressionantes, mas sem qualquer discussão sobre riscos, efeitos adversos ou acompanhamento médico.
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Por isso, especialmente entre adolescentes, os pais precisam conhecer melhor o conteúdo que os filhos consomem e quem são as pessoas que eles seguem.
Mudanças radicais na alimentação, preocupação excessiva com determinadas partes do corpo, treinamento desproporcional ou interesse repentino por hormônios e substâncias para ganho muscular merecem atenção.
A medicina não deve condenar a preocupação com a aparência. Cuidar do corpo, praticar atividade física e querer sentir-se bem com a própria imagem podem fazer parte de uma vida saudável. A questão é reconhecer quando essa busca passa a ser conduzida por padrões irreais ou práticas capazes de colocar a saúde em risco.
No consultório cardiológico, perguntar sobre o uso de hormônios, anabolizantes e outras substâncias também precisa fazer parte dessa conversa.
O corpo que aparece no espelho ou na tela do celular mostra apenas uma parte da história. O coração não aparece na fotografia. E nenhuma transformação estética deveria valer o preço de colocá-lo em risco.
*Carlos Alberto Pastore é cardiologista e livre-docente pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Brazil Health
(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)