62% dos jovens se sentem pouco atraentes e 58% duvidam da própria inteligência, diz estudo

Ler Resumo

A maioria dos jovens brasileiros enfrentam crises de autoimagem que vão de brigas com o espelho a conflitos com a própria capacidade intelectual. É o que mostra o Panorama da Saúde Mental 2026, levantamento nacional feito pelo Instituto Cactus e pela AtlasIntel, publicado nesta quinta-feira, 15.

De acordo com o estudo, 62,4% dos entrevistados entre 16 e 24 anos — ou seja, seis em cada dez — relataram ter se sentido feios ou pouco atraentes nas duas semanas anteriores ao levantamento. Além disso, 58,2% declararam sentir-se pouco inteligentes.

O problema, contudo, não se restringe aos mais novos. Na população geral, quase metade dos entrevistados, 49,2%, afirmou sentir-se mal com a própria aparência, enquanto 36,3% relataram ter duvidado da própria capacidade intelectual no mesmo período.

O levantamento, que reuniu dados de mais de 4 mil entrevistados de todo o país, também identificou uma associação entre essas experiências e uma pior saúde mental.

O Índice Contínuo de Avaliação da Saúde Mental (ICASM) — régua criada pelo Instituto Cactus para medir, de zero a mil, o nível de bem-estar psicológico — foi de 549,2 pontos entre aqueles que se sentiram pouco atraentes.

O número é bem abaixo dos 789,4 registrados entre os que não relataram essa sensação.

Continua após a publicidade

O baque é ainda maior quando a dúvida recai sobre a capacidade intelectual: quem se julgou pouco inteligente obteve uma média de apenas 503,1 pontos no ICASM, ante 766,9 daqueles que não relataram esse sentimento.

Mariana Rae, especialista em saúde mental do Instituto Cactus e mestre em Saúde Pública, explica, ainda, que o ICASM é um índice numérico que permite comparar os indicadores de saúde mental entre diferentes grupos da população e identificar fatores associados a resultados melhores ou piores.

Leia também:  Filha de Regina Casé, Benedita estreia no cinema em filme sobre surdez

Apesar disso, a ferramenta não estabelece faixas fixas para classificar a saúde mental como boa, ruim ou preocupante. “[Em vez disso], a gente consegue perceber grupos que têm maior comprometimento em relação à saúde mental ou hábitos que estão associados a uma saúde mental pior”, diz Rae.

Além desses números, o Panorama da Saúde Mental também observou diversos outros indicadores sobre a mente dos brasileiros, como sensação de solidão, uso de inteligência artificial e plataformas de apostas, além de preocupação com as finanças.

Continua após a publicidade

Altos níveis de solidão

A solidão é um importante problema para a saúde mental dos brasileiros. Para o estudo, 36,5% relataram ter se sentido sozinhos ao menos uma vez nas duas semanas anteriores à pesquisa.

Entre quem vivenciou esse sentimento três vezes ou mais, o ICASM foi de 383 pontos — contra confortáveis 782 pontos de quem não se sentiu só.

É um tombo de 51%, a maior diferença identificada entre todos os hábitos e comportamentos avaliados no levantamento.

Mas nem todo mundo é afetado da mesma forma. Entre os solteiros, 51,7% relataram ter se sentido sós nas últimas semanas, enquanto a taxa caiu para 26,6% entre os casados.

O dado também é diferente para quem já convive com algum diagnóstico de transtorno mental: 52,5% encararam a solidão no período, contra 32,5% de quem não tem diagnóstico.

Continua após a publicidade

Quem esteve com os amigos nas duas semanas anteriores à pesquisa garantiu um ICASM de 736,9 pontos — um salto em relação aos 539 pontos registrados por quem ficou sem o encontro.

Além disso, o uso intenso de redes sociais aparece de mãos dadas com a sensação de isolamento: 46,8% das pessoas que passam três horas ou mais por dia rolando a tela relataram solidão — um contraste com os 26,1% registrados entre quem usa o feed com moderação.

Rae ressalta que, apesar dos achados, não é possível atribuir aos dados uma relação de causalidade com o mal-estar. “Não podemos dizer, com base nesses dados, que estar sozinho piora o bem-estar psicológico, afinal, uma saúde mental pior também leva a mais solidão”, alerta.

Leia também:  Dispneia: o que pode estar por trás da falta...

Ainda assim, os números apontam para estratégias que podem ser trabalhadas para melhorar a qualidade de vida. “Vimos, com esses dados, a importância de trabalhar a criação de vínculos e conexões como um fator protetor para a saúde mental”, avalia a especialista.

Preocupação financeira é a queixa mais frequente

Embora a solidão seja o comportamento mais associado aos baixos níveis no ICASM, a preocupação com os boletos está no topo do pódio das inquietações dos brasileiros.

Continua após a publicidade

Na pesquisa, 78,1% dos participantes disseram sentir apreensão por causa de dinheiro ao menos uma vez nas duas semanas anteriores ao levantamento.

Quem passou o período sem esquentar a cabeça com as finanças garantiu 825,3 pontos no indicador de saúde mental do Instituto Cactus. Entre quem vive constantemente preocupado, o índice caiu para 557,6 pontos.

O estudo também avaliou dados relacionados à restrição alimentar. 17,2% dos entrevistados afirmaram ter deixado de se alimentar por falta de dinheiro ao menos uma vez no período.

Para esse grupo, o bem-estar psicológico desceu para 502,5 pontos, em um forte contraste com os 706,1 pontos registrados por quem não enfrentou a privação alimentar.

“Mais uma vez, vemos que as questões sociais que nos atravessam também podem afetar nossa saúde mental“, comenta Rae.

Continua após a publicidade

Assédio e preconceito

A nova edição do Panorama da Saúde Mental trouxe dados inéditos. Pela primeira vez, o material questionou os respondentes sobre assédio, preconceito, apostas e uso de IA.

O medo da violência urbana atinge 62,5% da população, mas essa insegurança, isolada, não impactou o bem-estar psicológico.

Já o assédio (verbal, moral ou sexual) e o preconceito — embora menos frequentes — levaram o indicador de saúde mental dos participantes para 457,9 pontos e 486,2 pontos, respectivamente.

A febre das bets também entrou na conta. Cerca de 9,2% dos brasileiros apostaram nas últimas duas semanas, registrando um ICASM médio de 586,7 pontos.

E o maior perigo é a bola de neve: entre os apostadores frequentes (três vezes ou mais), 77,6% relataram viver em constante preocupação com a própria situação financeira.

Uso de IA e saúde mental

Segundo a pesquisa, 86,4% dos brasileiros de 16 a 24 anos já usaram alguma IA para qualquer finalidade.

Além disso, o levantamento mostra que 9,1% da população usou chatbots como terapeutas. Ao todo, 15% já recorreram à IA em momentos de crise emocional e 8,8% já a utilizaram especificamente para se sentirem menos sozinhos ou terem alguma interação.

Leia também:  Lipedema: entenda o papel da atividade físic...

O uso de IA em busca de companhia foi visto em 32,1% dos respondentes no grupo dos que vivenciaram a solidão três vezes ou mais em duas semanas.

A adesão à “terapia por chatbot” segue a mesma rampa, subindo de 4,8% entre quem não se sente só para 25,3% conforme a solidão se intensifica.

Disponibilidade 24 horas, custo zero (ou reduzido) e o medo de encarar julgamentos foram os principais motivos apontados para preferir o algoritmo ao divã com terapeuta humano.

A geração Z é a cara dessa mudança. Segundo o panorama, 81,3% dos jovens de 16 a 24 anos usam geradores de conversa (como ChatGPT e Gemini) e 71,4% utilizam ferramentas de IA com frequência.

Esse avanço rápido, contudo, divide gerações: enquanto só 25,6% dos jovens dizem se preocupar com o futuro da IA, a apreensão atinge 62,3% das pessoas com 60 anos ou mais.

Um raio-x da mente brasileira

O Panorama da Saúde Mental também estabelece uma série histórica para acompanhar a evolução do bem-estar psicológico dos brasileiros ao longo dos anos.

Em 2026, o índice geral chegou a 671,1 pontos, contra 635,3 na primeira edição da pesquisa, realizada em 2023. Isso representa um aumento de 35,8 pontos em três anos. Do ano passado para cá, não houve uma diferença significativa.

Pessoas com 60 anos ou mais tiveram os melhores índices de saúde mental, enquanto os resultados mais baixos apareceram entre adultos de 25 a 44 anos.

Com os dados em mãos, segundo Rae, a principal mensagem do Panorama é alertar para a importância de olhar para o contexto em que o indivíduo está inserido. “Precisamos observar a saúde mental não só do ponto de vista do diagnóstico”, diz.

Para ela, compreender como o cotidiano e o ambiente afetam o bem-estar psicológico é fundamental para ampliar o debate e pensar em estratégias de prevenção e promoção da saúde mental, sem esperar que o sofrimento se transforme em doença para buscar cuidado.

“Dessa forma, podemos dar conta desse aumento de problemas psicológicos que tem acontecido e oferecer amparo às pessoas”, diz.

Artigo Original CLIQUE AQUI


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *