Câncer com Ascendente em Virgem: “É a histór…
A cineasta e produtora Clélia Bessa tinha apenas 45 anos quando foi diagnosticada com câncer de mama, em 2008. Na época, ela já enfrentava várias questões pessoais, como os desafios de criar uma filha adolescente e o fim de um longo relacionamento. E ela decidiu que o câncer não seria o protagonista dessa história.
“Não devemos esquecer de viver a vida, e não apenas o câncer”, escreve em seu livro Estou Com Câncer, E Daí? (Editora Cobogó – clique aqui para comprar). A obra é uma adaptação dos textos que publicou em seu blog, enquanto enfrentava o tratamento contra a doença.
A iniciativa foi um sucesso e mobilizou várias mulheres a cuidarem umas das outras.
Quase vinte anos após essa primeira ação, Bessa leva aos cinemas um filme inspirado não apenas na sua história, mas na das 73 mil mulheres que são diagnosticadas com câncer de mama todos os anos.
Câncer com Ascendente em Virgem estreia nesta quinta-feira (27), protagonizado por Suzana Pires e com um elenco que conta com nomes como Marieta Severo, Fabiana Karla, Carla Cristina Cardoso, Maria Gal e Nathália Costa.
Veja, a seguir, uma cena inédita do filme:
E confira uma entrevista com a idealizadora e produtora da obra.
VEJA SAÚDE: Como a escrita te ajudou a lidar com o diagnóstico do câncer de mama?
Clélia Bessa: O blog partiu de uma necessidade de falar. É uma característica minha, de preferir compartilhar as minhas ansiedades com amigos.
Eu tinha essa vontade de falar sobre o assunto e não encontrava pares para dividir essa experiência, que é muito particular.
Na verdade, é um tabu entre as mulheres — pela iminência da morte, pelo peso da palavra câncer e por afetar a feminilidade.
Além disso, sentia muita dificuldade de encontrar alguma leitura que me agradasse e abordasse esse tema. Até que eu encontrei o livro Câncer — E agora?, de Kriss Carr, em que ela trata o tema com humor. E o humor abre muitas portas para a percepção.
É um gênero muito poderoso e eu acho que mais pessoas precisam desse tipo de conteúdo.

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Como esse trabalho impactou a sua vida e das suas leitoras?
A doença te dá uma nova perspectiva, um novo olhar sobre a vida. Com a divulgação do filme, reencontrei várias leitoras, e eu sei que um diagnóstico como esse não impacta só a mulher que o recebe, mas toda a família. Ainda mais no Brasil, em que a mulher é o esteio da família, principalmente nas classes menos favorecidas.
E, por conta dessa responsabilidade, muitas mulheres deixam que fazer os exames de rastreamento: por falta de tempo, por falta de dinheiro, por não ter com quem deixar os filhos e ter que cuidar dos próprios pais.
Por isso, na época, criei a campanha “Adote uma possível portadora de câncer de mama”, para incentivar as pessoas a olharem para aquelas mulheres que estão próximas e as incentivarem a se cuidar, perguntar se já fizeram os exames de rotina e como podem ajudá-las a se organizarem para isso.
Na sua obra, você fala sobre temas poucos abordados em consultório: sexualidade, menopausa, autoestima. Quais dicas em relação a esses temas você gostaria de dar às mulheres que estão enfrentando o câncer de mama?
Hoje em dia a gente sabe que o paciente oncológico precisa de cuidado integral. De acompanhamento psicológico, alimentar, até mesmo jurídico. Sem contar que ninguém fala sobre como o tratamento contra o câncer afeta a vida sexual.
Por exemplo, a quimioterapia que eu fiz estreitava o meu canal vaginal. Então, eu senti muita dor nas primeiras relações sexuais depois do tratamento. Isso ninguém avisa. Só fui descobrir depois que a mulher pode usar dilatadores vaginais, além de cremes e lubrificantes, para ir se readaptando.
Eu tive câncer de mama com 45 anos e queria abraçar a minha sexualidade, preservar minha libido, minha aparência.
E o tratamento também acelerou muito a minha menopausa, mas eu não podia fazer reposição, porque o meu tumor respondia aos hormônios. Então tem todos esses detalhes sobre o quais as mulheres precisam estar bem informadas. É preciso que esses assuntos venham à tona para que as mulheres que passam por isso sejam orientadas e bem cuidadas.
O que a Preta [Gil] está fazendo, de escancarar as fragilidades que ela está tendo durante o tratamento, é de utilidade pública. Ela deveria ganhar o Prêmio Nobel!
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E de onde surgiu a ideia de adaptar sua experiência e sua produção sobre o assunto para um filme?
Os filmes tem vida própria, né? Quando eu comecei a escrever o blog, já percebi ali que tinha um retorno. Na época, formatei uma série pra TV, mas não deu em nada. E esse negócio ficou dormindo.
Aí, quando eu mexi no blog para transformar em livro, eu tive a certeza absoluta de que eu tinha uma baita história. Porque não era apenas a minha história, é a história de milhares de mulheres. E o cinema precisa falar para muita gente, precisa ter aderência.
Então chamei a Rosane [Svartman] para dirigir; Suzana Pires, Martha Mendonça, Pedro Reinato no roteiro; e a Susana assumiu a protagonista também, Clara, uma professora de matemática que vê a vida virar do avesso por conta da doença.

Vocês fizeram essa adaptação de algo autobiográfico para ficção. Mas o que permaneceu da Clélia na Clara?
Ah, muita coisa! O medo, principalmente, de morrer e a relação muito próxima com a filha adolescente.
Todas as falas da Clara passaram por mim, absolutamente todas. Mas a Clara é uma personagem com a qual todo mundo pode se identificar. Entre as pacientes, os protocolos que elas recebem podem variar um pouquinho aqui ou ali, mas todas passam por percalços semelhantes.
É importante dizer também que o filme usa o o câncer de mama como pano de fundo, sabe? Porque, na verdade, ele está falando também de sororidade, relação familiar, trabalho, corpo, vida. A importância de se permitir ser ajudada e pedir ajuda.
Espero que consigamos tirar o câncer de mama do armário!
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