Vive esquecendo as coisas? É Alzheimer ou só falta de atenção?

Uma das queixas mais comuns no consultório de neurologia é a de esquecimentos. Enquanto, em algumas situações, isso pode significar o início de um processo neurodegenerativo, nem sempre é o caso. Pesquisas apontam que até 30–40% dos adultos sem alterações, quando perguntados ativamente, relatam esquecimentos ou se consideram com pouca memória.

Para entender por que isso acontece, é necessário compreender como o cérebro cria e recupera memórias. Esse processo envolve quatro etapas: decodificação, consolidação, armazenamento e recuperação.

Tudo se inicia com a decodificação das informações sensoriais, como imagens, textos e informações auditivas. Esses estímulos são interpretados e contextualizados com informações previamente aprendidas.

Em seguida, são encaminhados a uma rede neural denominada circuito de Papez, que envolve, entre outras estruturas, o hipocampo, onde, após diversas passagens, provocam adaptações nas sinapses que tornam a informação mais consolidada e resistente.

Ao longo do tempo, essas memórias começam a se integrar com outras áreas do cérebro e se tornam extremamente sólidas. É a diferença entre lembrar do seu próprio aniversário ou do local onde guardamos os óculos. Quanto mais vezes a informação passar pelo circuito e quanto maior for o seu significado emocional, maior a chance de ela se tornar uma memória forte e consolidada.

+Leia também: Não é preciso esperar a demência chegar: é fundamental falar em prevenção

O que mais atrapalha a memória no dia a dia

Diversos fatores podem influenciar negativamente esse processo: privação de sono, transtornos de humor, ansiedade, sobrecarga cognitiva ou o uso de medicamentos ou substâncias interrompem a capacidade de formação adequada dessas memórias, assim como doenças que afetam o funcionamento desses neurônios, como demências e encefalites.

Continua após a publicidade

Esquecer a data de uma consulta no dentista ou o nome de um conhecido distante em uma semana atarefada, enquanto o cérebro se preocupa com boletos a pagar, ligações de clientes e filho chorando, pode não significar necessariamente um Alzheimer começando, mas, simplesmente, que seu cérebro não foi capaz de dedicar a energia necessária para lembrar daquela informação.

Por outro lado, uma pessoa que repete diversas vezes o que acabou de dizer, esquece frequentemente compromissos importantes e se perde em lugares familiares pode indicar um problema mais grave.

Quando investigar e como é a avaliação

A avaliação adequada envolve sempre uma anamnese detalhada com o paciente e seus familiares próximos, buscando diferenciar esquecimentos isolados de padrões frequentes que impactam as atividades diárias da pessoa.

Além disso, é fundamental avaliar padrões de sono e de rotina, sintomas de ansiedade e depressão, uso de medicamentos e outras substâncias.

Continua após a publicidade

Alguns testes de funções cognitivas, como memória, atenção e linguagem, podem ser úteis para avaliar se essas funções se apresentam preservadas, quando comparadas com pessoas da mesma idade e escolaridade, ou se há sinais de alguma deficiência.

Por fim, em alguns casos, quando a dúvida permanece, pode ser necessário prosseguir a investigação com exames de imagem, laboratoriais, biomarcadores ou uma avaliação neuropsicológica detalhada.

Nem todo esquecimento é Alzheimer, mas não ignore

É importante lembrar que mesmo esquecimentos não relacionados à doença de Alzheimer podem ter tratamento e não devem ser negligenciados.

Uma pessoa jovem que tem dificuldades para se organizar, perde compromissos com frequência e tem prejuízos no trabalho pode não ter uma demência, mas uma avaliação detalhada com o neurologista pode indicar sinais de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade ou depressão, que podem se beneficiar de um tratamento multidisciplinar.

Continua após a publicidade

Por fim, é importante notar que, apesar de algum grau de perda cognitiva ser normal ao longo da idade, esquecimentos severos, que impactam as atividades diárias, são sintomas patológicos (senilidade) e sempre devem ser investigados e jamais atribuídos ao envelhecimento normal (senescência).

Na dúvida, procurar um neurologista é a forma mais segura de garantir a melhor saúde para o seu cérebro.

Iago Navas Perissinotti é médico neurologista 

(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

brazil-health

Artigo Original CLIQUE AQUI

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *