VSR: novidades contra o vírus que se tornou…
Ele tem ganhado cada vez mais destaque nos boletins médicos e epidemiológicos. Embora não seja um completo desconhecido, principalmente entre os pais de crianças pequenas, o vírus sincicial respiratório (VSR) nunca teve o mesmo holofote de comparsas como a covid e a gripe. Os ventos mudaram, tanto a favor como contra o patógeno.
Apesar de ser visto há tempos como uma ameaça aos menores de 2 anos devido à bronquiolite — 75% dos casos dessa inflamação dos bronquíolos e 40% das pneumonias infantis são disparados pelo VSR —, agora se observa um aumento de seus ataques a outras faixas da população, sobretudo os idosos.
Dados da Fiocruz de 2024 colocam o vírus como o principal causador da síndrome respiratória aguda grave (SRAG) — expressão que reúne os quadros severos de infecções pulmonares. Ele lidera o ranking com 33,8% dos episódios, à frente da covid-19, com 19,6%, que ficou no topo em 2023 e ainda representa a maior causa de mortes. Mas o que explica a ascensão do VSR?
Clique aqui para entrar em nosso canal no WhatsApp
Transmissão do VSR
“São vários fatores possíveis. Um deles é que começamos a detectá-lo um pouco melhor”, afirma a infectologista Nancy Bellei, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O ponto é que, ainda hoje, em quase metade das infecções respiratórias sérias — que devem ser notificadas obrigatoriamente —, não se conhece quem é o agente responsável.
Ao menos, na esteira da pandemia, houve progressos, como o maior acesso a testes laboratoriais para flagrar o VSR e companhia. Outra hipótese para o boom tem a ver com o represamento das doenças virais decorrente dos anos mais duros da covid, quando o isolamento social e as máscaras faziam parte da nossa rotina.
Ora, como é transmitido por gotículas respiratórias, resistente em superfícies contaminadas e capaz de reinfectar a mesma pessoa alguns anos depois, o VSR se alastrou com o retorno à “normalidade”. No mais, o envelhecimento populacional tem um papel no enredo.
+ Leia também: Vírus sincicial respiratório (VSR): o patógeno que tira o sono dos pais

Grupos de risco
“O vírus sincicial respiratório é muito perigoso para os idosos”, ressalta a médica Maisa Kairalla, da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG). Só que, até pouco tempo, parcela considerável dos profissionais não sabia desse impacto na turma 60+.
Assim, poucos exames eram solicitados diante de sintomas e complicações nas vias aéreas. “Isso tem mudado, e agora vemos o tamanho do problema”, nota a geriatra.
Problema potencialmente fatal. Entre 2020 e 2022, o risco de uma pessoa acima dos 60 anos morrer ao desenvolver sintomas graves da infecção por VSR superou o índice de 20%. Ou seja, uma em cada cinco vítimas perdia a vida.
“É um número elevado, mas que passava despercebido porque, nos idosos, não há sintomas facilmente distinguíveis”, avalia a infectologista Eliana Bicudo, da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI).
A situação é diferente entre o público infantil, uma vez que a bronquiolite gera um chiado típico no peito, além de febre, coriza, irritação e indisposição, levantando a suspeita dos pediatras logo de cara.
Nos mais velhos, por outro lado, as manifestações se confundem com as demais infecções respiratórias, como a gripe. Quando o quadro evolui, o sujeito perde parte da capacidade respiratória, apresenta confusão mental e ainda pode sofrer com a descompensação de condições crônicas que já carregava antes do contato com o vírus.
Asma, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e problemas cardíacos não raro aproveitam a brecha para fazerem seus estragos.
+ Leia também: Gripe, resfriado, bronquiolite e Covid: os vírus estão no ar
“Ocorre que, quando o idoso morre por infarto após uma infecção, a conta não vai para o vírus”, esclarece Bicudo, que atua em Brasília. Em outras palavras, o rastro de destruições do VSR deve ser maior do que os números indicam.
A bem da verdade, o vírus não tem uma predileção por essa ou aquela faixa etária. Ele invade com frequência o corpo de adultos mais jovens, caso de pais e professores de crianças menores. A questão é que, por normalmente terem um sistema imune mais imaturo ou frágil, tanto os pequenos como os idosos penam com as complicações do ataque.
Outro grupo mais suscetível às ameaças é o dos imunocomprometidos, caso de pacientes transplantados ou em tratamento contra o câncer. “Quanto mais saudável a pessoa estiver, melhor a sua resposta imunológica frente a diferentes infecções”, resume Kairalla. “Por isso insistimos na adoção de uma dieta balanceada e na inclusão de exercícios na rotina inclusive das pessoas mais velhas.”
Outra característica do VSR é a sazonalidade. “A incidência começa a aumentar na Região Norte no início do ano e vai descendo pelo país com o passar dos meses”, conta a infectologista Rosana Richtmann, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo.
No Sul, a temporada arrefece só no fim de agosto. Daí por que cada estado deve realizar seus preparativos em períodos diferentes. A boa notícia é que, nos últimos anos, o arsenal médico para prevenir o agravamento da doença se expandiu significativamente.

+ Leia também: Bronquiolite: 8 sintomas da infecção perigosa para crianças pequenas
Prevenção e terapias
Não existe um tratamento específico contra o VSR. “Nós buscamos lidar com as manifestações conforme elas aparecem”, comenta Bellei, que também integra a SBI. Entretanto, a ciência progrediu consideravelmente em relação aos métodos preventivos.
O primeiro avanço digno de nota foi o anticorpo monoclonal palivizumabe, aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 1999. Hoje, ele está disponível no SUS para bebês extremamente prematuros ou para pequenos de até 2 anos com doença pulmonar crônica ou uma cardiopatia congênita grave — o público mais vulnerável às complicações da bronquiolite.
Em vez de estimular o sistema imune a produzir anticorpos, como faz uma vacina, o palivizumabe é, ele mesmo, um anticorpo desenhado para bloquear os movimentos do vírus. São até cinco doses por mês, dadas de preferência em épocas de maior circulação do patógeno.
Depois de um tempo, o medicamento deixa de agir e, assim se espera, o organismo da criança já saberá contra-atacar sozinho o vírus.
Em 2023, outro produto na mesma linha chegou ao Brasil: o nirsevimabe. Este com a vantagem de vir em dose única. Em um estudo publicado no periódico The New England Journal of Medicine, ele reduziu o risco de bronquiolite, pneumonia e afins em 74,5% nos bebês.
+ Leia também: O outono chegou e a rinite também: 4 jeitos de evitar alergias
Em fevereiro, o Ministério da Saúde anunciou que irá incorporar o fármaco na rede pública para prematuros ou menores de 2 anos com comorbidades. Segundo o governo, 300 mil crianças a mais terão acesso aos anticorpos monoclonais com o novo protocolo.
Lá fora, países como Chile e Espanha resolveram aplicar gratuitamente o nirsevimabe em todos os bebês. “As autoridades chilenas conseguiram que mais de 90% dos recém-nascidos efetivamente recebessem o anticorpo monoclonal. Isso foi fundamental para o sucesso da política pública”, relata Richtmann.
Na nação sul-americana, as hospitalizações infantis por VSR caíram cerca de 90% e nenhuma morte foi registrada. A vizinha Argentina, por sua vez, adotou outra estratégia: aplicar uma vacina (não um anticorpo monoclonal) nas gestantes. O projeto saiu do papel em 2024 e alcançou pouco mais de 60% do público-alvo. Resultado: redução de 70% na internação de bebês com menos de 6 meses em UTIs.
É complexo fazer comparações entre os métodos adotados, mas vale a pena tocar em dois pontos. O primeiro: o Brasil também vai incorporar uma vacina para as grávidas, o que evitaria 28 mil internações de crianças por ano. O segundo: sim, existe imunizante contra o vírus sincicial respiratório. Na verdade, dois.

+ Leia também: Coberturas vacinais no Brasil: onde estamos e onde é possível chegar?
Vacinas contra o VSR
As vacinas contra o VSR são uma inovação recente. A primeira da história, criada pela farmacêutica GSK, foi aprovada no fim de 2023 no Brasil especificamente para pessoas acima de 60 anos. “Ela possui um adjuvante que potencializa a resposta imunológica”, conta a infectologista Lessandra Michelin, líder médica de vacinas do laboratório.
Essa turbinada é bem-vinda justamente àquelas populações cujas defesas do corpo já não respondem tão bem aos imunizantes. Tecnologia semelhante foi empregada, por exemplo, na vacina do herpes-zóster, outro tormento para o público mais velho. Além dessa substância, o imunizante carrega proteínas do tipo A do vírus sincicial respiratório.
“Mas estudos indicam que ele é eficaz também contra o tipo B, até porque os dois são geneticamente parecidos”, afirma Michelin, que também é professora da Universidade de Caxias do Sul (RS).
Já a segunda vacina disponível aterrissou por aqui em 2024. Produzida pela farmacêutica Pfizer, ela carrega pedaços dos tipos A e B — sem um adjuvante — e ganhou aval para ser aplicada em gestantes, idosos e adultos mais jovens, desde que esses últimos tenham comorbidades que elevem a chance de infecção grave por VSR.

+ Leia também: Radar da saúde: Brasil volta a registrar aumento na cobertura vacinal
“Ela estimula o corpo da mãe a produzir anticorpos, que então passam para o filho pela placenta, e o protegem por cerca de seis meses”, destrincha Richtmann. A fórmula será incorporada ao SUS para todas as gestantes, com potencial de beneficiar 2 milhões de nascidos vivos, pelas contas do Ministério da Saúde.
Ah, mas por que não vacinar diretamente os bebês? Tentativas nesse sentido não foram tão positivas quanto os métodos validados e agora disponíveis no mercado.
Ambas as vacinas contra o VSR passaram pelas fases de pesquisa clínica que comprovam sua segurança e eficácia na prevenção de complicações, podendo ser adquiridas hoje na rede privada. “Mas gostaríamos que a vacinação também estivesse disponível no SUS para os idosos”, comenta Kairalla.

Geração imunizada
Prevê-se que solicitações nesse sentido sejam feitas ao governo em breve. Em caso de uma resposta positiva, restaria saber se a estratégia estaria disponível para todos acima de 60 anos ou grupos específicos, como pessoas com mais de 70 e doenças crônicas.
No caso do produto da GSK, com um tempo um pouco maior de estrada, os especialistas observam que uma única dose mantém alta taxa de proteção por duas temporadas, e com indicativos de que isso pode se estender para ao menos três.
Estudos devem seguir acompanhando o efeito no longo prazo para verificar se picadas adicionais serão necessárias com o passar dos anos. “Já temos dados de que ela protege contra mais de 80% das hospitalizações”, destaca Michelin.
+ Leia também: Quais vacinas os idosos devem tomar? Guia atualiza recomendações
Aliás, o objetivo inicial do imunizante não é inibir a transmissão viral. “Claro que as vacinas podem ter um papel na redução da circulação do VSR, porém isso só descobriremos mais para a frente. Seu objetivo, assim como o de muitas outras infecções respiratórias, é conter casos graves”, elucida Bellei. E isso é valioso porque o VSR é, digamos, veloz.
Muitas vezes, ele se instala nas células e se multiplica a ponto de se tornar transmissível antes de o sistema imune conseguir removê-lo. “O que essas novas tecnologias fazem é deixar o organismo pronto para que o VSR não chegue a provocar estragos, principalmente os mais críticos”, resume a professora da Unifesp.
Até pode ser otimista demais imaginar, no momento, um mundo sem o vírus sincicial respiratório — como os imunizantes conseguiram fazer com a varíola.
Contudo, como a pandemia de covid mostrou, a introdução de uma vacina em larga escala, quando combinada a medidas clássicas de higiene (lavar as mãos, cobrir o nariz e a boca ao espirrar…), tem um potencial sem precedentes de transformar o VSR em uma sigla muito menos penosa nos boletins epidemiológicos.
Sorte a das novas e velhas gerações, que poderão respirar mais em paz.

Diagnóstico
Testes para o VSR se tornaram mais acessíveis
Em crianças, é possível detectar a presença do VSR pela conjuntura de sintomas, em especial o chiado no peito — algo que não é tão simples de notar entre adultos jovens e idosos.
Contudo, testes rápidos confirmam a presença de proteínas do vírus por meio de uma coleta no nariz. Há também exames moleculares, como o RT-PCR, que podem ser empregados em clínicas e hospitais.
Atualmente, existem plataformas que avaliam a presença de diferentes patógenos, como influenza, Sars-CoV-2 e o próprio VSR com uma única amostra, o que facilita a identificação do agente por trás do problema.
Tratamento
A ideia é abrandar sintomas e conter evolução do quadro
Infelizmente, não existe um remédio antiviral específico. Os médicos, então, fazem de tudo para confortar a pessoa e deixar o corpo apto a superar a agressão. Isso envolve medicamentos para aplacar sintomas, hidratação abundante, repouso…
Dependendo da gravidade, o paciente é internado para receber suporte de oxigênio, ventilação mecânica e outras medidas para barrar complicações.
Os casos críticos são acompanhados de perto — às vezes em UTI — e exigem olhar atento mesmo após o VSR deixar o corpo, uma vez que há risco de doenças previamente existentes saírem do controle.

Compartilhe essa matéria via: