“Um dia vamos prevenir a cascata de eventos que leva ao Alzheimer”, diz Nobel de Medicina

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Para encerrar o último semestre de 2025 com chave de ouro, estudantes de universidades públicas paulistas e a imprensa tiveram o privilégio de assistir a uma aula magna do neurocientista norueguês Edvard Moser, laureado com o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 2014.

A convite da farmacêutica AstraZeneca, o pesquisador veio ao Brasil rechear a programação de uma iniciativa que visa inspirar jovens a perseguirem carreiras científicas.

Pela primeira vez no país, Moser dividiu com alunos e especialistas as principais descobertas que o elevaram a um dos maiores nomes da neurociência. Há uma década, o norueguês foi agraciado ao lado de sua ex-esposa, May-Britt Moser, e seu mentor John O’Keefe por ter descoberto células que compõem um verdadeiro GPS no nosso cérebro.

Elas não só nos orientam no espaço no dia a dia como, no futuro, podem ajudar a traçar um caminho para deter o Alzheimer. A VEJA SAÚDE, Moser expõe essas perspectivas e defende que os cientistas se aproximem mais da sociedade.

VEJA SAÚDE: Matemática, tecnologia, psicologia… O senhor tem um currículo multifacetado. O que o atraiu até a neurociência? 

Edvard Moser: Bom, essa é uma história longa, mas eu comecei a estudar psicologia na Universidade de Oslo depois de ter feito dois anos de matemática, estatística e computação. E quanto mais eu aprendia sobre a mente humana, mais eu me interessava pela origem dos nossos comportamentos.

Como eles surgiam? O que nos faz pensar, sentir, lembrar? Foi então que eu percebi que a maior parte dos estudos de psicologia da época, nos anos 1980, não mencionava realmente o cérebro.

Nessa área, os especialistas tentavam explicar os nossos comportamentos por outros caminhos, sem envolvê-lo. Então, passei a procurar estudos que ligassem a atividade das células cerebrais ao comportamento.

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Era tudo muito fascinante, e, com a ajuda de alguns professores, fui encaminhado a um pesquisador que investigava o cérebro — mais especificamente, uma estrutura cerebral chamada hipocampo, que é uma importante central da nossa memória.

O nome dele era Per Andersen, que orientou meu Ph.D. em neurociências, também na Universidade de Oslo.

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Edvard Moser esteve no Brasil em novembro para palestrar para universitário sobre suas descobertas a respeito do “GPS cerebral”. Acima, ele estava se apresentando na Universidade de São Paulo (USP) (Divulgação/Divulgação)

Isso abriu as portas para que o senhor estudasse o nosso “GPS interno” no cérebro? 

A relação entre a memória e a localização foi uma das maiores descobertas da área na época. Essa mesma estrutura cerebral também se mostrou importante para o senso de espaço, já que nela existem neurônios que codificam o nosso posicionamento, as tais “células de lugar”.

Elas foram descobertas na década de 1970 por John O’Keefe, com quem compartilhamos [Edvard e May-Britt Moser] o Prêmio Nobel em 2014.

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Nos anos 1990, visitamos o laboratório dele em Londres, onde aprendemos muitas técnicas sobre como estudar as delicadas regiões do cérebro. Depois de muito aprendizado, voltamos à Noruega para entender os mecanismos envolvidos nas células de lugar — e pesquisamos isso desde então.

Em 2005, vocês publicaram na revista Nature um artigo anunciando um novo componente nesse sistema de geolocalização: as células de grade. Como chegaram a essa descoberta, laureada com o Nobel uma década mais tarde? 

Os estudos foram feitos em ratos, cuja atividade cerebral foi registrada por fios elétricos muito, muito finos — como fios de cabelo. Essa foi a técnica usada por O’Keefe nos anos 1970, ao descobrir as células de lugar. Ele colocou fios no hipocampo dos animais e observou que certas células codificavam a localização deles.

Quando começamos nosso trabalho, no início dos anos 2000, usamos a mesma tecnologia, mas fomos para uma área vizinha, porque queríamos entender como o hipocampo e as células de lugar trabalhavam com o resto do cérebro.

Então, o córtex entorrinal, logo ao lado, foi uma escolha natural. Começamos a fazer registros esperando encontrar algo relacionado ao posicionamento do animal, já que as duas estruturas são tão conectadas.

E acertamos! Achamos células que também codificavam o local, só que formavam grupos dispostos de maneira muito regular — em grades triangulares ou hexagonais. Nós as chamamos de células de grade.

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Cada célula dessas se ativa em determinado local, quase como um sistema de coordenadas que você pode usar para descobrir onde está. É o nosso GPS cerebral.

Em suas palestras, notamos que houve uma virada de chave nos estudos: no começo, vocês observavam célula por célula, mas, recentemente, passaram a avaliá-las em grupo. O que muda quando observamos o conjunto? 

Na época da descoberta das células de grade, era possível registrar essencialmente apenas uma célula, ou talvez poucas ao mesmo tempo, porque era isso que os fios antigos permitiam: registrar a atividade elétrica que ocorria na sua ponta. E só.

Mas, então, surgiram as sondas de silício, que, na prática, são chips de computador muito, muito pequenos, da largura de um fio de cabelo. Elas têm milhares de pontos de registro, e isso significa que é possível investigar a atividade de milhares de células ao mesmo tempo, em vez de apenas uma ou duas.

É uma grande mudança que tornou possível analisar a estrutura da rede, como elas trabalham juntas em grandes grades. É como se deixássemos de estudar uma pessoa para estudar uma sociedade inteira: certos comportamentos só podem ser entendidos ao olharmos para grupos, não para indivíduos isolados. E isso se tornou possível nos experimentos com ratos e camundongos que fizemos.

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Edvard Moser: “Cada célula dessas no cérebro se ativa em determinado local, quase como um sistema de coordenadas que você pode usar para descobrir onde está. É o nosso GPS cerebral” (De Brinks no Rolê/Veja Saúde)
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Uma das descobertas mais curiosas sobre esse GPS é que ele funciona até mesmo quando estamos dormindo. Por que é importante que ele não desligue? 

O sistema simplesmente funciona o tempo todo, mesmo que com algumas flutuações enquanto não fazemos nada — e isso é muito útil. Quando precisamos dele para navegação, para nos orientar quando estamos em movimento, o vinculamos ao mundo externo, conectando os sinais neuronais ao que está ao nosso redor.

Então, nos sentamos em uma sala e percebemos onde está a porta, a janela, a estante. Isso acontece a cada vez que adentramos um novo espaço: o mapa vai se adaptando ao ambiente. Ele vai sendo calibrado no nosso cérebro. E isso também acontece durante o sono.

Não sabemos o porquê, mas ainda percorremos trajetórias nesse mapa até mesmo quando estamos sonhando. Não é simples estudar isso em animais, mas supomos que esse processo ajude a consolidar as memórias dos espaços pelos quais passamos ao longo do dia. Daí a importância de uma boa noite de sono para esse sistema.

As noções de espaço e tempo caminham de mãos dadas na nossa cabeça — assim como no resto do Universo?

Sim, isso está absolutamente correto. O espaço não é apenas espaço. Tudo o que experimentamos está no eixo do tempo. As células de grade oscilam com o avanço do relógio — a atividade sobe e desce, como ondas. E, em cada onda, que dura apenas cerca de 125 milissegundos, há sinais que continuamente varrem o ambiente e exploram o que está ao redor. Isso ocorre com uma estrutura temporal muito detalhada.

Quer dizer, todo sinal espacial prevê também um sinal temporal. E existem outras estruturas — como o córtex entorrinal lateral, vizinho do córtex entorrinal medial, onde ficam as células de grade — em que a atividade das células varia lentamente à medida que o tempo passa. É quase como uma assinatura da passagem do tempo.

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Mas essa área não tem sinais espaciais, porque seria caótico se tudo mudasse o tempo todo. Então, temos sinais de espaço e sinais de tempo, e eles convergem quando chegam ao hipocampo, onde as memórias são formadas. Faz sentido, porque memórias contêm tanto elementos de espaço quanto de tempo. 

Essas áreas estão ligadas de alguma forma com problemas de memória, como o Alzheimer?

Sim, o Alzheimer está relacionado tanto às células de grade quanto às mudanças nas atividades que correspondem ao tempo. Isso porque o primeiro processo de neurodegeneração visto no Alzheimer, isto é, os primeiros danos às células cerebrais, ocorre no córtex entorrinal lateral — e depois se espalha para o hipocampo.

E o córtex entorrinal é importante para o espaço e o tempo, o que se reflete no fato de que o Alzheimer está associado a problemas para se orientar e para resgatar fragmentos do passado.  A memória, lá no hipocampo, é afetada porque depende de dados sobre espaço e tempo para aflorar.

Então, o Alzheimer se inicia na mesma área cerebral que realiza essas funções, o que explica por que esses são alguns dos primeiros sintomas da doença.

+ Leia também: Dificuldade para se localizar pode ser sinal precoce de Alzheimer

De que forma as células que nos orientam no espaço são afetadas pela demência?

Elas podem não ser as primeiras prejudicadas, porque as primeiras estão no córtex entorrinal lateral, na parte que lida com o tempo. Mas algumas dessas células de grade são realmente grandes, têm alta demanda metabólica e também são as primeiras a acumular beta-amiloide [principal proteína ligada ao Alzheimer] — o que pode participar do início dos processos patológicos.

Há muita coisa que não sabemos, mas há algo especial nessas células do córtex entorrinal. E, quando o processo começa, ele se espalha para as células vizinhas, incluindo as de grade.

Outras doenças podem estar relacionadas a essa região?

Eu diria que o Alzheimer é, definitivamente, a principal. Há outras condições neurológicas e psiquiátricas que podem ter o córtex entorrinal afetado também e que estão sendo estudadas, como a esquizofrenia, a epilepsia, o AVC… Mas essa relação parece ser mais aleatória entre elas.

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Edvard Moser: “O pensamento crítico é extremamente importante. E isso precisa ser aprendido desde cedo, na escola — tem que fazer parte da educação” (De Brinks no Rolê/Veja Saúde)

No futuro, a pesquisa sobre o “GPS do cérebro” poderá contribuir para a prevenção ou até para o tratamento do Alzheimer?

Acho que o trabalho com células de grade e de lugar é fundamental no sentido de que ele nos permite observar o funcionamento normal do cérebro e, em específico, desse importante córtex que fica ao lado do hipocampo.

Entender como essa estrutura cerebral funciona normalmente é necessário para reconhecer o que há de errado em doenças como o Alzheimer.

E, se você sabe identificar quando algo se torna disfuncional, eventualmente pode intervir no problema. Tenho esperança de que um dia vamos prevenir a cascata de eventos que leva ao Alzheimer.

+ Leia também: Alzheimer: descobertas da ciência para salvar as engrenagens do cérebro

O comitê da Fundação Nobel ressaltou essa contribuição na entrega da láurea. O que mudou na sua carreira após o prêmio?

A agenda ficou muito mais ocupada. O número de convites para dar palestras e participar de conferências é enorme. São dois, três, quatro por dia; além de pedidos de entrevistas e de opiniões sobre diversos assuntos. É uma amplificação enorme do trabalho — o que é muito bom. Ele fica conhecido facilmente, as pessoas acompanham, e isso faz diferença. Fica mais fácil trabalhar com isso.

O senhor compartilhou o Nobel com seu mentor John O’Keefe e com sua ex-esposa, May-Britt Moser. Como ambos contribuíram para a sua carreira e os estudos na área? 

O’Keefe descobriu as células de lugar, e isso foi o conhecimento básico disponível desde os anos 1970, sendo o ponto de partida para nosso trabalho. Passamos três meses no laboratório dele para receber treinamento, o que moldou muitas das nossas técnicas para, então, nos estabelecermos nas nossas posições universitárias na Noruega.

Desde 1996, tenho dirigido o laboratório junto com May-Britt Moser, e continuamos fazendo isso de maneira muito eficaz. Compartilhamos estudantes, orientamos colaborativamente e levamos a pesquisa adiante de maneira conjunta. Interagimos ocasionalmente com O’Keefe, que é da University College London [no Reino Unido].

Nos últimos anos, temos visto muitos ataques à ciência, vindos inclusive de líderes políticos, como Donald Trump, que está desmantelando organizações e recursos para a saúde. Mesmo sendo um ganhador do Prêmio Nobel de Medicina, o senhor tem enfrentado desafios para fazer pesquisa atualmente? Como lida com esse momento? 

Não é fácil. Acho que precisamos nos manifestar sempre, explicar o valor da ciência e reforçar repetidamente a diferença entre o conhecimento que é bem estabelecido e o que não é — entre boa ciência e má ciência.

Há muitas afirmações hoje dizendo que “cientificamente se mostrou isso ou aquilo”. Essas alegações não são questionadas. Mas acho que ajudaria se conseguíssemos explicar ao público geral o suficiente para que conseguissem distinguir fatos de desinformação.

O problema hoje é que não há moderação: qualquer um pode postar qualquer coisa nas redes sociais, e, pior, os algoritmos reforçam o que você já acredita — então, você recebe mais e mais do mesmo conteúdo. O pensamento crítico é extremamente importante.

E isso precisa ser aprendido desde cedo, na escola — tem de fazer parte da educação. A educação é extremamente importante, mas ainda há um longo caminho a percorrer. 

Poderia dar um recado para jovens cientistas e médicos que estão começando a carreira nesse cenário turbulento, mas, ainda assim, muito promissor?

Precisamos de cientistas mais do que nunca — e precisamos de cientistas que possam falar publicamente, não apenas fazer ciência, mas também explicá-la ao público. Isso é muito, muito importante. E eu encorajo os jovens estudantes a fazer carreira na ciência, porque é isso que muda o mundo.

Na pesquisa, você nunca sabe qual será o resultado, mas há descobertas inesperadas o tempo todo — que, às vezes, levam a novos tratamentos para doenças ou a invenções que mudam completamente a vida de todos. É realmente divertido e muito estimulante.

E também é importante conectar tudo isso à sociedade e explicar como o processo científico funciona, para que todos possam distinguir por si mesmos informações baseadas em fatos de coisas simplesmente inventadas.

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