Daniel Becker: “Devemos colocar os meninos para brincar de cozinha e boneca desde cedo”

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Na edição de abril de VEJA SAÚDE, trazemos uma conversa exclusiva com o pediatra Daniel Becker, que está lançando o livro Os 1000 Dias do Bebê (Planeta – Clique para comprar), escrito em parceria com a jornalista Rita Lisauskas.

Na primeira parte da entrevista, ele fala sobre gestação e a importância da primeira infância. A seguir, confira a continuação do bate-papo, onde ele discute a evolução do papel do pai e dilemas atuais das famílias, como o uso de telas e a hipermedicalização da infância.

O pediatra Daniel Becker é uma referência na luta pelos direitos das criança (Ilustrações: Cajila Barbosa/Veja Saúde)

VEJA SAÚDE: O papel do pai mudou nos últimos anos? Como ele pode participar mais da primeira infância?

Daniel Becker: Ele é fundamental. Primeiro, eu diria que o aspecto mais importante é o apoio à mãe, que é absolutamente prioritário no início da vida. Cuidar da mãe é cuidar do bebê.

Ela fica sobrecarregada, exausta, no meio de uma tempestade hormonal, vivendo seus lutos, se deparando com um cenário que pode ser bem diferente do bebê perfeito que ela imaginava em suas fantasias. Há muita solidão, privação de sono… Ter um companheiro presente faz diferença, mas é preciso educar os pais.

A ampliação da licença-paternidade, projeto de lei aprovado no Brasil que aumenta de cinco para 20 dias fora do trabalho, ajudaria nisso?

Ficamos felizes com a conquista. Ainda é pouco, mas melhor do que o que tínhamos. Pelo menos durante esses 20 dias a mulher terá algum apoio, se é que o pai vai dar.

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Porque, em uma sociedade cada vez mais misógina e machista, nem é garantia que o homem cumprirá esse papel mínimo. Essa mulher vai precisar muito de descanso, de revezamento de tarefas, terá necessidades a serem atendidas. Quanto mais pudermos cuidar dela, melhor.

E em relação ao bebê? Como o pai deve participar do cuidado e quais os benefícios de uma maior interação com a criança?

Ele também tem um papel, mas é muito mais para ele próprio do que para o bebê. As funções do pai podem ser preenchidas pelos avós, mas ele ter a oportunidade de cuidar do filho, trocar fralda, olhar nos olhos, fazê-lo parar de chorar com um aconchego, isso vai desenvolver um vínculo que é vital para que se possa estabelecer uma boa paternidade.

A conexão é muito potente no sentido de fazer com que ele seja um pai melhor, mais amoroso, e pode quebrar muitas das couraças da masculinidade tóxica.

Pode explicar melhor essa relação?

Acho que a paternidade tem um grande potencial de trazer uma redução desse machismo tão tóxico que estamos vivendo hoje em dia. Porque um homem que cuida começa a ver que o cuidado é mais importante que a violência. Começa a querer que a filha que ele embala nos braços seja bem tratada. É um caminho bacana e muito potente para a sociedade.

Estamos vivendo um aumento da violência contra a mulher. Como criar meninos que respeitarão as mulheres e serão bons pais?

Eles precisam ser cuidados e aprender a cuidar. Devemos colocar os meninos desde cedo para brincar com bonecas, brincar de fazer comida, ensinar a fazer as tarefas domésticas, cuidar das suas coisas, dos animais… A partir desse cuidado, eles também aprendem o que é o amor.

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O pai pode ajudar nesse sentido?

Sim, ele pode mostrar tudo isso dando o exemplo, e não só cuidando do filho, mas da casa, das outras pessoas, inclusive daquelas que prestam serviços a essa família no dia a dia, seja em casa, seja na rua.

Isso é muito impactante para esse garoto ver que é possível criar um mundo melhor. Os pais podem praticar a empatia na rotina, ensinar a importância de ser antirracista, anti-homofóbico, e não associar a masculinidade à porradaria, à violência.

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Você acha que as escolas estão atentas a essas questões sobre a masculinidade hoje?

Não. A educação sexual nas escolas ainda é muito baseada em mostrar o que é um pênis, uma vagina, como se faz um bebê, como não pegar uma IST.

O que realmente tem impacto positivo é gerar discussão sobre as questões de gênero, ensinar consentimento, respeito ao corpo, as origens do machismo. E, aí sim, trabalhar a sexualidade propriamente dita de uma forma mais profunda e menos mecânica, digamos assim.

A ciência tem mostrado os efeitos negativos do uso de telas, mas elas também são um recurso para pais sobrecarregados. Como resolver esse dilema?

Olha, nessa faixa etária do livro, realmente a gente tem que ser mais rigoroso. Não pode mesmo. Não estou falando que a mãe não pode ver TV ou o pai o futebol, mas não dá para colocar um bebê na frente de uma tela por qualquer motivo para distraí-lo. Isso é inconcebível.

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Em vez de telas, use um cercadinho e dê objetos aleatórios para ele explorar. As crianças nascem com a habilidade de brincar em seu DNA, elas vão se entreter por um tempo. E elas também precisam de experiência de frustração, inclusive de tédio.

Para os mais velhos, ofereça livros, chame um amigo para brincar. Se estiver desesperado, e esses recursos não funcionarem, o que é compreensível, aí é melhor usar a televisão, e não o tablet ou o celular, que são muito mais danosos.

Hoje vemos mais casos de TDAH e outros transtornos mentais em crianças. Acha que há uma medicalização da infância?

Tenho certeza, e isso é muito bem documentado. Hoje você tem uma infância cheia de problemas. São crianças que têm pouca conexão com os pais, que ficam o tempo todo no celular. São confinadas entre quatro paredes na escola e em casa, e têm pouco contato com a natureza.

Ainda comem mal, muitos alimentos ultraprocessados, e brincam cada vez menos para ficar mais tempo nas redes sociais e no celular.

As telas contribuem para essa sobrecarga mental?

Um menino que passa oito horas por dia numa tela está sendo destruído, sua inteligência e capacidade de prestar atenção vão se liquefazendo e a saúde mental se deteriora.

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Aí você pega esse conjunto de coisas, e mais a nossa desigualdade social, mais esse cenário de mães sobrecarregadas, e se constrói uma infância brasileira problemática.

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Olha o que estamos oferecendo às nossas crianças. É claro que elas vão ter sintomas, problemas de aprendizagem, vão ficar revoltadas, rebeldes, desobedientes, agitadas, e por aí vai.

E aí a família vai ao neurologista, que faz um checklist, encaminha para outros profissionais que realizam alguns testes, e dá ruim. Essa criança tem problemas mentais ou ela está manifestando os efeitos de uma infância opressiva? Isso está virando uma bola de neve no Brasil.

Bola de neve?

A situação toda vai gerando sintomas, e aí começa a se tomar um suplemento para dormir, outro para comer, um remédio psiquiátrico aqui, um estimulante ali.

Eu não estou negando a existência do TDAH, do autismo, da dislexia, do transtorno opositor-desafiador, qualquer um desses transtornos. Mas muitos desses diagnósticos são falsos: falamos de crianças que, se você corrigisse um pouquinho o estilo de vida, responderiam bem e não teriam sequer necessidade de medicação.

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O problema não é das crianças, mas da sociedade.

Os pais que lerem isso certamente vão se perguntar: “Ok, mas como faço para evitar esses danos se moro em um apartamento, trabalho e tenho uma vida tão corrida?” O que diria a eles?

A gente tem que não se culpar em primeiro lugar, mas precisa ter o discernimento de que alguns comportamentos são nocivos, como ficar olhando o celular em vez do filho.

É tão importante a gente usufruir do que eles trazem de alegria, de amor, aquele sorrisinho, aquela mãozinha que faz carinho e te puxa para brincar. Não há resposta pronta para essa pergunta, mas eu diria para oferecer o melhor que você puder no tempo que você tiver.

Também são necessárias mudanças sociais e políticas públicas, porque hoje a sociedade é profundamente injusta. É um absurdo, por exemplo, uma mãe só poder passar um dia por semana com o filho porque trabalha em escala 6 por 1. Precisamos repensar e fortalecer as
redes de apoio para as famílias.

Confira a primeira parte da entrevista clicando aqui.

Os 1000 Dias do Bebê

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Artigo Original CLIQUE AQUI


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