O que está por trás da sua saúde: líder da OMS revela fator invisível
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Se engana que pensa que ter saúde é uma questão de ter acesso a hospitais e médicos. De acordo com diversas pesquisas e especialistas, a maior parte do nosso bem-estar é determinada por fatores que, aparentemente, nada tem a ver com o assunto.
“Até 75% da saúde é determinada por coisas não relacionadas ao sistema de saúde e que não estão no nosso controle”, comenta Monika Kosinska, líder técnica global sobre Determinantes da Equidade em Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Kosinska pesquisa e formula políticas públicas sobre a relação entre a economia e a saúde pública. Ou, traduzindo, como as empresas podem afetar (para o bem e para o mal) a população.
Os chamados determinantes sociais da saúde – como o lugar onde você mora ou sua situação financeira – até já são mais conhecidos, mas os comerciais ainda estão longe do debate popular.
Kosinska falou sobre o assunto durante a 8ª Global Alcohol Policy Conference (GAPC) – Conferência Global sobre Políticas Públicas para o Álcool, em tradução livre. O evento, realizado no Rio de Janeiro, discutiu caminhos para reduzir o consumo de bebidas e seus grandes impactos na saúde pública.
O álcool é uma das quatro indústrias que respondem, sozinhas, por 30% das mortes do planeta, segundo um estudo publicado em 2023 no renomado periódico The Lancet. O trabalho faz parte de uma série pioneira na análise científica dos tais determinantes comerciais da saúde.
Em entrevista exclusiva, Kosinska explica mais sobre o termo e a ciência que emerge ao seu redor.
VEJA SAÚDE: O que são determinantes comerciais da saúde e por que precisamos falar mais sobre eles?
Monika Kosinska: Eles são um subgrupo dos determinantes sociais da saúde: os fatores que determinam nossas condições de vida e, por consequência, nossa saúde.
Estamos familiarizados com a ideia de ter cuidado em saúde para evitar doenças ou nos curar delas, mas há estimativas dizendo que 75% da nossa saúde é determinada por coisas não relacionadas ao sistema de saúde e coisas que estão fora do nosso controle, como as condições em que trabalhamos e as de moradia, escolaridade, raça e gênero.
Os determinantes comerciais são as maneiras com que práticas comerciais e produtos impactam na vida, mas também os aspectos estruturais por trás delas, como a condição dos trabalhadores dessas indústrias e seus impactos ambientais.
E o quão importante eles são?
Importante dizer que esse é um dos campos mais novos de estudos em saúde pública, então ainda estamos trabalhando para obter dados exatos e esperamos, esse ano, publicar o primeiro relatório global sobre o assunto da OMS. Esse documento deve dar uma compreensão mais precisa do tema.
Por enquanto, as informações apresentadas pela série do Lancet de 2023, que foi a primeira tentativa de quantificar essas relações, dizem que mais de 50% das mortes no mundo podem ser atribuídas aos determinantes comerciais. E esse dado está provavelmente subestimado.
E o que mais se destaca é que mais de 30% da mortalidade é relacionada a apenas quatro setores: cigarro, álcool, comida e combustíveis fósseis.
Como a indústria atua para mascarar esses impactos negativos?
Com o tempo, os pesquisadores passaram a entender os problemas não como específicos a uma indústria, porque alguns comportamentos são vistos em setores completamentes diferentes entre si.
Isso nos levou a compreender que as empresas têm um “manual corporativo” com um grupo de táticas em comum, com o objetivo de atrasar regulamentações e talvez gerar confusão sobre o que é evidência científica e o que não é. Como fez, por exemplo, a indústria do tabaco, que por um longo tempo tentou desassociar seu produto de danos à saúde.
Entre os itens desse manual, estão o marketing dos seus produtos, questões operacionais, gerenciamento de reputação e práticas científicas. Essas últimas são basicamente investir na fabricação de evidências que favoreçam seus interesses comerciais acima da saúde pública.
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Podemos resumir essa ideia dizendo que há empresas cujos negócios são incompatíveis com a saúde pública?
O que vemos no nosso trabalho é que há empresas cujo modelo de negócios é totalmente dependente de atividades que afetam a saúde. O exemplo óbvio é o cigarro, porque não há nenhum benefício em fumar e o tabaco mata 50% dos seus usuários.
Então há uma tensão entre o interesse comercial, que é seguir vendendo cigarro, e o interesse público, que é acabar com ele. Essa tensão é uma das maneiras mais visíveis de compreender os determinantes comerciais.
Mas também é importante enxergar um lado menos visível, que são as áreas que são essenciais à saúde, como o abastecimento de água, a produção de comida, o setor habitacional. Pressões comerciais nesses campos também levam a prejuízos para a população.
Pode falar mais sobre isso?
Quando pensamos em emergências de saúde, pensamos em doenças agudas e comunicáveis [como as infecções], mas atualmente a maior ameaça à saúde são as doenças não-comunicáveis [obesidade, hipertensão, diabetes, câncer].
Há setores diretamente envolvidos nesse outro grupo, como cigarro, álcool e comidas que não são saudáveis. Mas há os outros negócios que determinam a forma como vivemos, moramos, trabalhamos, com práticas que são danosas a nós.
O que realmente precisamos pensar é: o que queremos das empresas? Como desenhamos um sistema que permita que empresas sejam parceiras da saúde e promovam equidade? Isso não é uma mera aspiração, é um direito humano. Então a questão do papel das empresas na sociedade está realmente no centro de tudo.