TDAH em ebulição: entenda as discussões por trás do aumento de diagnósticos

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A jornalista Kim Holderness, de 50 anos, estava no médico quando recebeu uma notificação de fumaça pelo celular.

Na mesma hora, ligou para o marido, Penn, de 51. “Você ainda está em casa?”, perguntou ela. “Tem alarme de fumaça!” “Saí há 15 minutos”, respondeu ele. “Mas fiz bacon de manhã”, lembrou-se. Na dúvida, Kim telefonou para a vizinha e pediu a ela para verificar se estava tudo bem. Não estava.

Havia um princípio de incêndio na casa dos Holderness. “Não desliguei o fogão. Quase incendiei a casa e perdi meu cachorro. Ainda mandei a vizinha para o pronto-socorro, com um corte na mão”, lamenta o jornalista Penn Holderness, coautor do novo livro Super TDAH: O Que Podemos Aprender com a Mente Que Não Para (Principium – clique aqui para comprar), escrito em parceria com a esposa.

“Sou um exemplo vivo de como o TDAH pode ser ótimo, mas também de como pode ser absolutamente aterrorizante.” Ótimo, aterrorizante, controverso… Poucos diagnósticos mentais ganharam tamanha projeção.

Quando criança, o jornalista cansou de ouvir que vivia no mundo da lua. “Largava minhas roupas na escada, perdia o ônibus para a escola e esquecia de entregar a lição”, relata. Ele recebeu o diagnóstico de TDAH — ou virou um “membro do clube”, como prefere dizer — há mais de 20 anos, quando estava na faculdade. Aprendeu a conviver com os desafios da condição e a tirar proveito das características que lhe são peculiares.

Com o TDAH, todo dia é uma aventura. Às vezes, preciso encontrar uma maneira de ccontrolar minha imaginação. Outras, minha imaginação resolve um problema e salva o dia”, conta.

Um transtorno comum

Segundo a Associação Americana de Psiquiatria (APA), Penn Holderness é um dos cerca de 2,5% da população mundial adulta que apresenta traços do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Na população infantil, essa prevalência varia entre 5 e 7%.

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“Embora o distúrbio seja frequentemente associado à infância, os sintomas podem persistir em até 70% dos casos na adolescência e em cerca de 50% na vida adulta”, esclarece a psiquiatra Natasha Ganem, organizadora do livro Manual do TDAH – Do Diagnóstico ao Tratamento (Literare Books – compre aqui). “Na transição para a vida adulta, a hiperatividade tende a diminuir, enquanto os problemas relacionados à desatenção e à impulsividade permanecem em evidência.”

Apesar do rótulo, um paciente com TDAH nunca é igual a outro. Os experts distinguem três apresentações principais: TDAH com predomínio de desatenção, de hiperatividade-impulsividade e o combinado.

No primeiro caso, o sujeito comete erros por distração, não presta atenção aos detalhes e não segue instruções até o fim. No segundo, não para quieto no lugar, fala mais do que os outros e não sabe esperar sua vez. No terceiro, há uma mescla. Holderness, a propósito, pertence ao terceiro grupo, o misto.

“Dessas três apresentações, a mais frequente é a combinação de desatenção e hiperatividade, que responde por 50% dos casos. Depois, temos o TDAH com predomínio da desatenção, em 40% dos casos, e o TDAH predominantemente hiperativo, a menos frequente das três, em apenas 10%”, expõe o cenário o psiquiatra da infância e adolescência Guilherme Polanczyk, professor da Universidade de São Paulo (USP). “Mas, quando o assunto é TDAH, nada é escrito em pedra. É um transtorno bastante heterogêneo.”

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As causas do TDAH

De acordo com a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), até 5% das crianças no país teriam a condição cujas causas remontam a predisposição genética, consumo de substâncias como nicotina e álcool na gravidez, problemas no parto e exposição ao chumbo — fatores como corante amarelo, luz artificial e deficiência hormonal já foram descartados pelos cientistas.

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“Na infância, tudo costuma começar com notas baixas. Com dificuldade para aprender, os alunos repetem de ano, abandonam a escola e podem até usar drogas. Na vida adulta, a história se repete. Os adultos acabam ganhando menos, perdem o emprego e sofrem de depressão”, observa o neurologista Raphael Rangel, autor do livro Simplificando o TDAH (Literare Books – compre aqui). “A gente só quebra esse círculo vicioso com diagnóstico precoce e tratamento adequado.”

Para tornar a coisa ainda mais complicada (e polêmica), há quem diga que o TDAH nem sequer exista. A descrição do fenômeno remonta ao médico alemão Melchior Weikard em 1775, mas a primeira vez que o transtorno foi citado no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), a bíblia da psiquiatria criada e atualizada pela APA, só ocorreu em 1980, com a inclusão para valer em 1994.

Ao longo dos anos, ele ganhou novos critérios de diagnóstico e o reconhecimento como um quadro de neurodesenvolvimento que persiste na vida adulta. “Há uma série de coisas que o TDAH não é: defeito, modismo, fake news. O TDAH é um transtorno crônico, mas controlável”, escreve Holderness. E esse “controle” também passa por mudanças.

Somente dá para bater o martelo sobre a presença do TDAH após uma avaliação com médico especializado (Alona Horkova/Getty Images)

No Natal de 1844, o médico alemão Heinrich Hoffmann queria presentear o filho Carl, de 3 anos, com uma antologia de contos. Depois de percorrer algumas livrarias, não encontrou o exemplar que estava procurando. O que ele fez? Decidiu escrever e ilustrar, ele mesmo, um livro infantil.

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O que não imaginava é que, um ano depois, seu “presente de Natal” seria comercializado. No Brasil, Der Struwwelpeter ganhou o título de João Felpudo (Iluminuras – clique aqui para comprar). Dois dos dez personagens do livro chamam a atenção do médico Raphael Rangel por suas características.

Numa das histórias, Philip não para quieto nem na hora do jantar. De tanto balançar a cadeira, o garoto leva um tombo. Pior: puxa a toalha e derruba os pratos. Uma confusão! Noutra, Johnny, em vez de prestar atenção em por onde pisa, não tira os olhos do céu. Com a cabeça nas nuvens, o menino tropeça num cachorro e cai no rio. Por pouco, não morre afogado. Mas não é toda criança agitada como Philip ou distraída como Johnny que, como diria Holderness, entra para o “clube do TDAH”.

Se fosse assim, faltaria carteirinha para tanto sócio. Para ser diagnosticado como tal, a criança precisa apresentar, segundo critérios do DSM, seis ou mais sintomas de uma lista de nove. No caso dos adultos, a presença de apenas cinco deles seria suficiente para o laudo.

A questão é que, mesmo com as definições do manual, alguns aspectos soam subjetivos. “Alguns diagnósticos, como a gravidez, são categóricos. Outros, como o TDAH, são dimensionais. Todo mundo, em maior ou menor escala, apresenta sintomas de desatenção e hiperatividade. A diferença é que, no caso do TDAH, a intensidade, a frequência e o prejuízo são maiores”, afirma o psiquiatra Luis Augusto Rohde, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) que atuou na elaboração do DSM.

“Em caso de dúvida, o que sugiro é ouvir uma segunda opinião médica.” O diagnóstico de TDAH não é tão simples quanto parece.

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Como é feito o diagnóstico de TDAH?

Como geralmente acontece na psiquiatria, ele é puramente clínico. O que isso significa? Que depende de uma boa análise em consultório e da leitura da história de vida do paciente. Até porque não existem exames de sangue ou imagem para confirmar ou desmentir a suspeita.

É nesse contexto que surge, segundo alguns médicos, uma epidemia questionável de TDAH. “Equívocos não ocorrem porque faltam exames. Mas porque ocorre um abuso do diagnóstico como explicação para problemas complexos”, pondera a psiquiatra Juliana Belo Diniz, autora do livro O Que os Psiquiatras Não Te Contam (Fósforo – clique aqui para comprar).

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“Na infância, o diagnóstico pode esconder todos os outros motivos pelos quais as crianças podem ser agitadas ou desatentas, como a situação familiar ou o ambiente escolar.”

Por essa razão, antes de rotular uma criança (ou um adulto) com TDAH, o profissional precisa investigar outros aspectos da vida dele, como a rotina de sono e o tempo de tela.

Muitas vezes, o que parece ser um sintoma de desatenção ou hiperatividade é, na verdade, horas de menos na cama ou horas de mais no celular — situações que não causam o transtorno, mas interferem diretamente na saúde mental.

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“No TDAH, muitos sintomas costumam se manifestar já na primeira infância, período que abrange os primeiros seis anos de vida”, afirma a psicóloga Milene da Silva Franco, coautora do livro Meu Filho Foi Diagnosticado com TDAH, e Agora? (Manole – compre aqui).

“Só que eles devem estar presentes por pelo menos seis meses, ocorrer em mais de um contexto, como casa e escola, e gerar prejuízos significativos na vida acadêmica, social ou emocional da criança”, destrincha.

No caso dos adultos, as manifestações não aparecem da noite para o dia. Segundo o DSM, os traços de desatenção ou de hiperatividade precisam estar presentes inclusive antes dos 12 anos de idade.

O que acontece é que, na busca por um diagnóstico, muitos marmanjos trocam os consultórios pelas redes sociais, e um estudo britânico alerta que 52% dos vídeos postados no TikTok continham informações incorretas sobre o TDAH.

Nas duas últimas décadas, houve um aumento de 60% no diagnóstico da condição, o que se deve, na visão de Rangel, ao maior acesso a serviços de saúde. Já a busca pelo termo no Google aumentou 340% de 2024 para 2025! “O que mais me preocupa é a banalização do diagnóstico e o risco da automedicação”, afirma o neurologista.

Adultos com TDAH

O psiquiatra húngaro-canadense Gabor Maté, do alto de seus 82 anos, é o primeiro a admitir que vive perdendo coisas: chaves, livros, documentos… Em 2023, ele se superou: bem no início de uma longa turnê de palestras pela Europa, o autor de Mentes Dispersas – As Origens e Possíveis Curas do TDAH (Sextante – compre aqui) esqueceu o notebook dentro do avião.

“Após escrever cinco livros, posso dizer que me tornei muito mais eficiente em completar tarefas, alcançar objetivos e, o mais importante, me aceitar como sou. Não me repreendo mais nem sinto vergonha de mim mesmo”, escreve na obra.

Maté recebeu o diagnóstico de TDAH na década de 1990. Desconfiado dos sintomas, pesquisou mais sobre o assunto e buscou confirmação profissional. Semanas depois, uma psiquiatra reiterou seu autodiagnóstico e prescreveu as primeiras doses de cloridrato de metilfenidato.

A mente do adulto com TDAH nunca descansa. Voa de um lado para o outro feito um pássaro desnorteado. Nunca pousa por tempo suficiente para fazer um ninho”, compara o best-seller.

Tratamento medicamentoso

O tratamento prescrito a Maté e outros tantos pacientes pode ser dividido em medicamentoso e não medicamentoso. E a estratégia farmacológica, por sua vez, se subdivide em duas classes de remédios: os estimulantes e os não estimulantes.

O cloridrato de metilfenidato, tomado pelo autor de Mentes Dispersas após o diagnóstico, faz parte do primeiro grupo. No Brasil, é vendido sob o nome comercial de Ritalina e Concerta.

Há outro estimulante famoso na praça: o dimesilato de lisdexanfetamina, mais conhecido como Venvanse. Do lado dos não estimulantes, a principal medicação é a atomoxetina (Atentah), disponível desde 2023. Há prós e contras em cada abordagem.

“Uma das vantagens do metilfenidato é o início de ação rápida. Em geral, os sintomas melhoram em menos de uma hora e em até 80% dos pacientes. Fora isso, as doses podem ser ajustadas rapidamente”, diz Natasha Ganem. “A desvantagem são os efeitos adversos.”

Eles incluem insônia, dor de cabeça, aumento da frequência cardíaca, irritação e nervosismo. “E há, ainda, o potencial de uso indevido ou de abuso do medicamento”, nota a psiquiatra.

É nesse quesito que a atomoxetina se destaca. “Além de não haver esse risco de abuso, ela é melhor tolerada por indivíduos com outras condições, como ansiedade e presença de tiques”, conta Ganem. A limitação? “O início do efeito é mais lento. Pode levar até quatro semanas para surgirem os benefícios e até oito semanas para a resposta terapêutica ser plenamente observada”, explica a médica.

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TDAH-duvida
O TDAH varia de paciente para paciente; então fuja do autodiagnóstico e da automedicação (Alona Horkova/Getty Images)

Redefinindo paradigmas

Na prática clínica, os estimulantes são considerados os remédios de primeira escolha, mas esse consenso vem sendo duramente questionado. Isso ficou ainda mais evidente após a publicação de um artigo pelo psiquiatra Jeffrey Newcorn e pelo psicólogo Stephen Faraone na revista científica Nature Mental Health.

Amparados em estudos, eles fizeram barulho ao declarar que os não estimulantes, como a atomoxetina, podem ser tão eficazes quanto os estimulantes, com a oferta de alguns bônus.

“Os não estimulantes não apresentam risco de abuso ou dependência, não se associam a um aumento de tiques, ansiedade ou irritabilidade, e talvez sejam melhores nos casos de TDAH acompanhados de autismo”, diz o psiquiatra Paulo Mattos, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O médico, que também integra a ABDA, cita outra preocupação a pairar no ar.

“O uso não médico dos não estimulantes tornou-se um problema de saúde pública pelo risco de abuso e também de dependência de drogas ilícitas”, adverte, em referência aos casos de jovens que tomam Venvanse ou Ritalina para ter uma melhor performance nos estudos ou trabalho.

Além dos remédios

Mas não se trata TDAH só com remédio. Entre as abordagens não farmacológicas, ocupa um espaço a psicoterapia, especialmente sessões de terapia cognitivo-comportamental. E o estilo de vida também faz a diferença.

Segundo Maté, exercício físico, alimentação adequada, boas noites de sono, hobbies e contato com a natureza devem compor o tratamento.

“Quando escrevi Mentes Dispersas, em 1999, os medicamentos me ajudaram muito. Mais de 20 anos depois, para concluir minha obra mais recente, um trabalho mais longo e desafiador, não precisei deles”, conta o psiquiatra e escritor.

Então qual seria o melhor tratamento para pais ou filhos com TDAH?

Milena Franco responde: “Depende”. Do quê? De três fatores: da gravidade dos sintomas, do nível dos prejuízos e das características do paciente. “Na maioria dos casos, principalmente quando há repercussões significativas, temos que combinar intervenções como a terapia e os fármacos”, afirma a psicóloga.

Como sublinha Polanczyk, não há receita pronta para todo mundo. Primeiro, é preciso fazer o diagnóstico correto. Depois, planejar as estratégias para domar a hiperatividade e a falta de atenção. E só profissionais especializados podem fazer isso — não influenciadores digitais.

Os critérios para o diagnóstico

Somente dá para bater o martelo sobre a presença do TDAH após uma avaliação com médico especializado

É mesmo?

Nem toda criança desatenta ou agitada tem TDAH. O diagnóstico é clínico e inclui avaliação médica e histórico de vida. Não há exames de laboratório para confirmar.

Tem quantos sinais?

Para ser diagnosticada, a criança precisa apresentar seis ou mais sintomas de uma lista de nove estabelecida pelos psiquiatras. Entre os adultos, a presença de cinco deles já é suficiente.

O que pesa?

A diferença entre uma criança inquieta para outra com TDAH é a intensidade e a frequência dos sintomas. O prejuízo psíquico e social também é levado em conta.

Quanto tempo?

No caso das crianças, os sintomas precisam ser observados por pelo menos seis meses, ocorrer dentro e fora de casa e ter impactos significativos. No dos adultos, devem estar presentes antes dos 12 anos.

Os pilares do tratamento

Ele varia de paciente para paciente; então fuja do autodiagnóstico e da automedicação

Remédios

O tratamento medicamentoso inclui estimulantes (como metilfenidato) e não estimulantes (atomoxetina). Há prós e contras entre eles.

Psicoterapia

Uma das escolas mais citadas em estudos e livros é a da terapia cognitivo-comportamental, cujas sessões trabalham a inquietude e o foco.

Estratégias

Divisão de tarefas, adoção de agendas, uso de lembretes e definição de metas ajudam a organizar a cabeça e a cumprir os compromissos na rotina.

Estilo de vida

Alguns hábitos são bem-vindos, caso da prática de exercícios, dos hobbies que trabalham a atenção, das boas noites de sono e do contato com a natureza. 

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