Cúrcuma: os poderes e as polêmicas da especiaria que ganhou o mundo

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Cúrcuma. Aquela que dá a cor dourada. Ou hemaragini, para usar o termo original, em sânscrito, que costuma acompanhar a especiaria apelidada de “ouro indiano”. E ele tem tudo a ver com a substância que confere o tom entre o amarelo e o alaranjado da raiz, bem como seus poderes nutricionais.

Falamos da curcumina, uma espécie de polifenol que, junto à sua matriz, protagoniza pesquisas e virou ingrediente de suplementos mundo afora. É ela que também embala o crescimento vertiginoso na procura pela iguaria asiática.

Dados da empresa de pesquisa Intel Market Research mostram que o mercado global de curcumina deve saltar de 205 milhões de dólares em 2025 para 266 milhões em 2032. Segundo o relatório, o principal composto bioativo encontrado na cúrcuma tende a ter cada vez mais destaque nas indústrias alimentícia e farmacêutica.

A seguir, confira uma reportagem completa sobre a história, os benefícios e as polêmicas envolvendo essa raiz. Você vai ler sobre:

  • A história e a ascensão da cúrcuma
  • Quais são os benefícios reais da cúrcuma?
  • A recente polêmica sobre os suplementos de cúrcuma
  • O que é a cúrcuma
  • Curcumina: o segredo por trás das vantagens
  • O risco de ingerir cúrcuma demais
  • O que a ciência diz sobre o uso da cúrcuma
  • Como a cúrcuma é usada na cozinha
  • A cúrcuma pelo mundo
  • Há vantagens no shot de cúrcuma?
  • Ficha técnica da cúrcuma
  • As promessas em estudo
  • Vale a pena escovar os dentes com cúrcuma?
  • Como aproveitar melhor os benefícios da cúrcuma
  • E o açafrão verdadeiro?

A história e a ascensão da cúrcuma

A história de sucesso da especiaria não é recente. Há quem diga que começou entre 6 mil anos e 4 500 anos atrás. Existem relatos de que o célebre mercador veneziano Marco Polo (1254-1324) teria ficado maravilhado com a cor da raiz em uma de suas viagens à Índia.

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Assim, lá se vão séculos e séculos de globalização do tempero cheio de brilho e simbolismos. Ele tinge as vestes de monges budistas, aparece em festas de casamentos hindus, representando luz e prosperidade, e faz bonito na comida, colorindo qualquer prato. “Entra nas receitas de molhos, cozidos, aves, peixes e até no arroz“, conta Deepali Bavaskar, chef do restaurante Samosa & Company Indian Food, em São Paulo.

Hoje, a cúrcuma empresta seu colorido não apenas à culinária indiana. Enche os olhos e a boca de outras cozinhas — inclusive a de casa.
Na indústria, ela pinta manteiga, queijos, sobremesas, bebidas vegetais, massas, entre outros produtos. E chegou com tudo para suprir a demanda por alternativas naturais aos corantes artificiais.

Quais são os benefícios reais da cúrcuma?

Afora a beleza, coleciona evidências de seus benefícios à saúde, daí seu sucesso nos laboratórios de pesquisa. “A curcumina, junto de outros compostos, tem sido amplamente estudada devido às suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias“, conta o nutricionista João Felipe Mota, professor da Universidade Federal de Goiás (UFG) e autor de diversos trabalhos com a cúrcuma.

Também existem indícios de que ela age a favor da digestão, da imunidade e do controle do peso.

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“Na prática clínica, porém, é importante enfatizar que não é uma substância milagrosa. Apesar do potencial, ainda não há respaldo científico para tratar a cúrcuma como solução para a prevenção de doenças”, afirma o médico nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran).

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E uma coisa é ingerir o tempero junto à comida, em quantidades mais módicas, outra é tomar cápsulas com altas doses desses compostos.

A recente polêmica sobre os suplementos de cúrcuma

O fato é que a fama de remédio natural tem feito muita gente comprar e ingerir suplementos de cúrcuma ou curcumina por conta própria — e essa atitude pode, inadvertidamente, trazer danos à saúde. O movimento levou órgãos regulatórios de países como Alemanha, Austrália, Canadá, França e Itália a lançar comunicados públicos sobre os problemas oriundos do uso indiscriminado desses produtos.

E o alerta chegou ao Brasil. Por aqui, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu recentemente um parecer sobre os riscos atrelados ao uso de suplementos de cúrcuma sem supervisão profissional.

Na sequência, uma instrução normativa, publicada no Diário Oficial da União, apresentou novas regras para os fabricantes, reforçando a obrigação de eles estamparem os possíveis efeitos adversos aos consumidores. “Essas diretrizes ajudam a garantir que os suplementos possam ser utilizados dentro das doses recomendadas para ter eficácia e segurança”, resume a nutricionista Vanderlí Marchiori, conselheira da Associação Brasileira de Fitoterapia (Abfit).

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Esses cuidados, convém ressaltar, se aplicam às cápsulas. Como tempero — sempre com bom senso, inclusive para não estragar a receita —, a cúrcuma está liberada.

O que é a cúrcuma

O que se conhece como cúrcuma é, na realidade, o rizoma de uma planta herbácea, que foi domesticada na Índia justamente em razão do atraente pigmento dourado.

A parte externa dessa raiz, que mede até 10 centímetros, apresenta uma coloração esbranquiçada ou cinzenta. Dali saem folhas grandes e flores amareladas, de cores mais pálidas. “A espécie se adapta bem a climas tropicais“, conta Rita de Cássia Alves Pereira, agronôma e pesquisadora da Embrapa Agroindústria Tropical, no Ceará.

Inclusive, temos produção no Brasil, onde Goiás tem se destacado, sobretudo o município de Mara Rosa. “O que se cultiva lá é reconhecido pela alta qualidade e teor de curcumina, sendo considerado patrimônio cultural material do estado”, revela Pereira. Trata-se de uma cultura fundamental para a economia local.

Curcumina: o segredo por trás das vantagens

Embora seja considerada como o maior tesouro da cúrcuma — e de fato mereça esse título —, a curcumina é parte de um grupo de substâncias chamado curcuminoides, que incluem a demetoxicurcumina e a bis-demetoxicurcumina, por exemplo.

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A raiz ainda guarda outros polifenóis, que são classificados pelos experts como metabólitos secundários, isto é, são sintetizados pelos vegetais para defendê-los em situações adversas na natureza. E eles também tendem a cumprir, em maior ou menor grau, esse papel protetor no nosso organismo.

Um dos efeitos mais reconhecidos é a ação antioxidante. Significa que são capazes de neutralizar os radicais livres, moléculas desemparelhadas que podem comprometer até o DNA celular. A curcumina tem a proeza de interromper esse ataque, preservando as células. Tal mecanismo, mais a ação anti-inflamatória, já é considerado um aliado de atletas de alta performance, que vivem à mercê do estresse oxidativo.

O professor João Mota tem colhido bons resultados em pesquisas sobre o uso da suplementação da cúrcuma com esportistas. “Por meio de avaliações metabólicas, observamos que a espécie contribui para a recuperação muscular”, diz.

Ele e outros pesquisadores da UFG investigaram ainda a atuação da especiaria na melhora de sintomas gastrointestinais em mulheres com obesidade. E, outra vez, os resultados foram animadores, principalmente em relação à prisão de ventre. Nessa direção, estudos têm apontado o impacto positivo da cúrcuma na redução de processos inflamatórios no intestino.

Já existe uma explicação para isso. Há evidências de que a turma da curcumina favoreça a produção dos ácidos graxos de cadeia curta, moléculas geradas pela microbiota intestinal que contribuem para a integridade da barreira do intestino, evitando que agentes nocivos alcancem a circulação e desencadeiem inflamações.

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Inclusive, trabalhos sugerem que esse mecanismo poderia ajudar a aplacar males até no cérebro. “Mas cabe salientar que a maior parte dos benefícios atrelados à cúrcuma vem de pesquisas com doses padronizadas do extrato em forma de suplemento”, observa a nutricionista Lara Natacci, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (Sban).

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(Getty Images/Veja Saúde)

O risco de ingerir cúrcuma demais

E é preciso ficar atento à dose e a contraindicações, uma recomendação que só pode vir após exames e a avaliação médica ou nutricional. O perigo é exagerar nas cápsulas. O efeito positivo se esvai e dá margem a exatamente o contrário.

Há risco de danos oxidativos e inflamações, que atingem especialmente o fígado, órgão que participa de processos como a eliminação de toxinas e da metabolização de medicações, suplementos e fitoterápicos. “O mecanismo de lesão hepática ainda não está completamente esclarecido, mas parece ocorrer por reações mediadas pela imunidade”, diz o hepatologista Luis Edmundo Pinto da Fonseca, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.

Predisposição genética, consumo de álcool e presença de gordura no fígado podem agravar as coisas.

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O que a ciência diz sobre o uso da cúrcuma

Apesar das promessas pregadas e postadas por aí, existem ressalvas importantes sobre os trunfos da cúrcuma para o corpo humano. Em primeiro lugar, boa parte dos experimentos é feita com culturas de células e animais — e ainda faltam mais testes em humanos, um rito seguido no caso dos medicamentos tradicionais.

Em segundo lugar, a ciência mostra que a biodisponibilidade da curcumina — isto é, sua capacidade de ser assimilada e aproveitada pelo organismo — é baixa. Isso tem feito inclusive empresas de suplementação lá fora a utilizar a nanotecnologia para driblar o impasse.

Como a cúrcuma é usada na cozinha

Como tempero, no entanto, existem até formas de dar uma turbinada no aproveitamento dos compostos da cúrcuma. A estratégia é aliá-la a outras especiarias. “A pimenta-preta contém piperina, substância que ajuda a aumentar sua absorção“, conta a nutricionista Denise Maki, expert em gastronomia asiática de São Paulo.

Segundo ela, a combinação também traz mais equilíbrio ao sabor do ouro indiano, que, embora seja sutil, tende a apresentar leve amargor. Por essa razão, o famoso curry pode levar vantagem. O tempero, marca da culinária indiana, contém as duas especiarias, além de cravo, canela e demais elementos, de acordo com a receita da família.

Outro macete na cozinha é juntar a cúrcuma com boas fontes de gordura. “Misturar com o azeite de oliva, por exemplo, nos permite ativar seus aromas”, explica o engenheiro químico Nelusko Linguanotto Neto, da Bombay Food Service.

Marcante, o perfume do açafrão-da-terra resulta da união de compostos voláteis, sobretudo a turmerona e o zingibereno. São eles que dão um toque terroso às preparações. Aquecer um pouco o condimento é outro truque para liberar substâncias aromáticas. “Mas não devemos esquentar muito nem deixar queimar”, instrui Deepali Bavaskar. Calor de mais, sabor de menos.

A professora Maria Teresa Pedrosa Clerici, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), conta que a questão da temperatura foi uma das razões para que ela elegesse o macarrão para uma pesquisa sobre enriquecimento de alimentos com cúrcuma.

“A escolha foi estratégica por permitir um processamento relativamente brando, especialmente no caso de massas frescas, já que o cozimento ocorre em água fervente e leva poucos minutos”, justifica. O resultado do experimento foi que a pasta ganhou mais cor e compostos bioativos — prova de que não há fronteiras culinárias para o ingrediente.

A cúrcuma pelo mundo

Na cozinha espanhola, a cúrcuma é usada na paella, prato que, embora na receita legítima leve o açafrão verdadeiro, especiaria caríssima, pode ser adaptado com o pó da raiz indiana. É assim que ele deixa tudo bem amarelinho e mais acessível aos bolsos.

“Já entre as receitas japonesas, temos o kare rice, um guisado de legumes e carne, preparado com um caldo à base de curry e pimenta”, ilustra Maki. No Brasil, a cúrcuma ainda pode emprestar seus predicados à galinhada, tradição nas bandas de Goiás, justamente o estado símbolo da produção nacional.

Há vantagens no shot de cúrcuma?

Por falar em brasileiros, tem muita gente por aqui investindo numa suposta receita milagrosa com a fonte de curcumina. É o shot matinal, em geral preparado com suco de limão e ingerido em jejum. Já foi louvado na internet como o elixir da imunidade.

Será? “Ele pode até fazer parte da rotina, mas nada substitui um padrão alimentar adequado. Se você não gosta, não faz nenhum sentido se forçar a tomar”, orienta a nutricionista Tarcila Campos, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz.

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Se as cápsulas e os shots exigem cautela, resta o convite a desfrutar do tempero no dia a dia — ou conhecer a versão fresca da raiz, que vai bem em picles, saladas e molhos.

A chef indiana Deepali Bavaskar, nascida na cidade de Nagpur, brinca que, na culinária de seu país, a cúrcuma é quase como o sal. É popular, mas não deixa de ser especial. A ponto de entrar na Masala Dabba, a caixa de especiarias que a noiva recebe de sua mãe quando vai casar, para dar sorte e prosperidade ao casal. E, mantida a tradição, saúde para a família.

curcuma
(Getty Images/Veja Saúde)

Ficha técnica

Classificação
A Curcuma longa é da família das zingiberáceas, a mesma do gengibre.

Como é conhecida
Cúrcuma, açafrão-da-terra e açafrão-da-índia.

Origem geográfica
É natural do sudoeste asiático, sobretudo de países como a Índia.

Maiores produtores
A Índia domina a produção e o consumo, mas países como China e Bangladesh se destacam também.

O que se utiliza
A raiz, na verdade chamada de rizoma.

Uso culinário
Combina com pratos indianos, molhos, aves, frutos do mar e receitas de arroz.

Uso medicinal
Os suplementos podem ser coadjuvantes no tratamento de doenças marcadas por inflamação — sempre sob orientação.

As promessas em estudo

As ações já investigadas por pesquisas:

Antioxidante
A sinergia entre os curcuminoides e outros compostos neutraliza os radicais livres, moléculas que, em excesso, estão por trás de danos às células.

Anti-inflamatória
Experimentos mostram que a curcumina está relacionada com a inibição de determinadas vias do organismo que resultam em inflamação.

Antibacteriana
Pesquisas em laboratório revelam que as substâncias encontradas na especiaria brecam o crescimento de bactérias e fungos.

Pró-imunidade
Outra vez a curcumina seria a responsável, ao interagir com células do sistema imune e ajudar a modular a capacidade de defesa do organismo.

Pró-intestino
Há indícios de que contribua para a microbiota intestinal, favorecendo a produção de substâncias que promovem a integridade do aparelho digestivo.

Vale a pena escovar os dentes com cúrcuma?

Faz alguns anos que nasceu a moda de utilizar o pozinho para a higiene bucal. “Mas não se deve confundir a ação anti-inflamatória sistêmica da cúrcuma com o efeito tópico odontológico”, diz o dentista Mário Sérgio Giorgi, do Conselho Regional de Odontologia de São Paulo (Crosp).

Além de não exibir a mesma proteção microbiana dos cremes dentais, ela pode provocar manchas. Por enquanto, nada substitui a pasta de dente com flúor e o fio dental.

Como aproveitar melhor os benefícios da cúrcuma?

Veja truques de cozinha que valem muito:

Misture com pimenta
A pimenta-preta oferece a piperina, que favorece a absorção da curcumina. A proporção é de uma colher de chá rasa do pó para uma pitada da pimenta.

Acrescente óleo
Que tal combinar com azeite de oliva? O meio oleoso colabora para o aproveitamento da curcumina e ainda ajuda a liberar os aromas da especiaria.

Não aqueça demais
O pó não deve ser consumido cru, mas também não pode ser tão exposto ao calor. A sugestão é usar fogo brando ou adicionar na metade do cozimento.

Guarde direito
A dica é acondicionar o pó em recipiente de vidro, bem tampado e longe da luz para manter tanto as características sensoriais quanto
os benefícios.

Saiba conservar
A raiz fresca vai bem em marinadas e pode durar de uma a duas semanas, se guardada em geladeira. Também dá para congelá-la inteira ou ralada.

E o açafrão verdadeiro?

A cúrcuma (Curcuma longa) também é chamada de açafrão-da-terra porque apresenta coloração bem parecida com a do real açafrão (Crocus sativus). Mas este é caríssimo, por vir de uma planta mais rara e originária da região mediterrânea.

Para obter 1 quilo são necessárias mais de 200 mil flores de açafrão. E, nesse caso, bastam pequenas quantidades dos fios minúsculos para deixar as receitas como a paella douradas e cheias de sabor.

Tempero rico em antioxidantes faz bem ao coração e à imunidade

 

 

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