Exclusivo: Tatiana Sampaio revela em que pé está a pesquisa com a polilaminina

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Na última terça-feira (25), a pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio participou de um evento promovido pela Vesper, empresa de biotecnologia de Florianópolis, voltado a discutir e apresentar caminhos para a inovação em saúde no Brasil.

O encontro reuniu cientistas, investidores, representantes de instituições públicas e privadas e startups promissoras.

Famosa por encabeçar os estudos com a polilaminina, molécula investigada pelo potencial de tratar lesões medulares e, portanto, devolver movimentos a pessoas acometidas por esse tipo de problema, a bióloga da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concedeu uma entrevista exclusiva a VEJA SAÚDE.

Na conversa, ela atualiza em que estágio está o ensaio clínico de fase 1 para testar a segurança da substância, aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em janeiro deste ano.

Sampaio, que foi alvo de críticas da comunidade científica devido a seus pronunciamentos públicos, questiona a jornada de inovação vigente no país e a morosidade no avanço das pesquisas com a polilaminina.

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VEJA SAÚDE: Pode nos contar em que pé está o estudo clínico com a polilaminina?

Tatiana Sampaio: O estudo foi planejado para ter um grupo pequeno, com cinco pacientes, então nossa expectativa era que acontecesse muito rapidamente. Porém, foi proposto que a pesquisa fosse realizada no Hospital das Clínicas da USP e, lá dentro, o Comitê de Ética não autoriza, estão demorando para aprovar o início do estudo.

Nós já fizemos uma reunião com os investigadores após um primeiro alarme falso de uma aprovação. Depois que já estava tudo resolvido, parece que houve um erro e voltou-se atrás. Como eles são a instituição principal a tocar a pesquisa, está tudo parado, só aguardando que o HC consiga avançar.

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Assim que houver essa aprovação, qual é o tempo médio estimado de duração dessa fase?

Esse teste que está autorizado é de fase 1, feito principalmente para avaliar a segurança da molécula. Haverá cinco pacientes e cada um vai ficar em acompanhamento durante seis meses, mas tem um tempo de entrada, você não pode colocar todos de uma vez.

No entanto, por ser um hospital grande, que recebe muitos pacientes e é multicêntrico, imagino que em um ano seja possível captar e fazer esse acompanhamento. Mas, veja, tivemos autorização da Anvisa em janeiro, já estamos entrando em junho e poderíamos ter passado da metade do caminho, mas simplesmente não conseguimos avançar nada.

Como analisa o sistema de inovação em saúde no Brasil atualmente?

Eu diria que o Brasil é um carro com os faróis voltados para trás. Estamos em 2026 discutindo temas que eram para ser discutidos muito tempo atrás. Parece que nós estamos sempre correndo atrás do prejuízo, tentando fazer nesta década o que não fizemos na passada, corrigindo os erros do passado.

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Aparentemente, os cientistas e médicos brasileiros estão descobrindo o grupo controle. O mundo já está discutindo coisas mais avançadas.

A senhora foi criticada por seus posicionamentos sobre o grupo controle. No caso, que não seria preciso usar esse método para testar a polilaminina. O que teria a dizer?

Não podemos ficar discutindo valor de grupo controle no estudo clínico, tem muita coisa importante para discutir lá na frente e a comunidade fica mobilizada como se isso fosse uma grande questão.

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Acho que não é por aí. Isso é uma coisa da ciência, naturalmente é muito bem contemplado nos estudos em laboratório, mas, quando você vai para o estudo clínico, os determinantes são diferentes. Isso é uma tendência no mundo, precisamos nos atualizar, abrir a cabeça.

Teria exemplos dessa tendência lá fora? 

O Japão acabou de registrar uma terapia celular para doença de Parkinson, depois de um estudo com sete pacientes, e foi o suficiente para aprovar o registro.

Tatiana Sampaio em palestra sobre a jornada da polilaminina no encontro da Vesper, em Florianópolis (Foto: Vesper/Reprodução)

Mas a discussão não se resume a isso, certo?

Eu não gosto muito de fazer o discurso feminista, mas acho que aqui cabe. Até quando vamos ter de continuar jurando fidelidade à sociedade masculina e ao modo de fazer as coisas que os homens construíram? E se quisermos mudar alguma coisa? Nós sabemos fazer outras coisas.

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O que vai acontecer eu não sei dizer, mas posso garantir que o que quer que aconteça será legal, autorizado pelo comitê de ética e aprovado pela Anvisa. Para conseguir a aprovação temos que ter bons argumentos, e temos trabalhado nisso.

Então o que acha que é preciso fazer para colocar os faróis no lugar e iluminar o futuro da inovação em saúde no país?

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É necessária uma mudança de rota, como a que está sendo proposta neste encontro [promovido pela Vesper]. E é preciso ter novos atores para fazer isso. Se você vive em um sistema feudal com lideranças que dominam tudo e você decide mudar o cenário, você não pode chamar os próprios senhores feudais para arquitetar essa transformação.

Só que esse comportamento vem se repetindo há anos. Sim, há décadas o Brasil faz a mesma coisa. Os senhores feudais podem ser festejados, glorificados, mas eles não serão os artífices da revolução que precisamos fazer.

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Acredita numa revolução nessa área?

O país tem um potencial enorme. Estive no Texas [nos EUA] em uma visita científica, e vi muito brasileiro produzindo o melhor por lá. Nós investimos na formação, nosso sistema de pós-graduação é cada vez maior e mais forte, mas ficamos exportando gente qualificada.

Então precisamos pensar em soluções melhores, romper com o que sempre existiu, parar de escutar os senhores feudais, ou não sairemos do lugar e perderemos oportunidade de fazer o melhor para o futuro.

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*A repórter viajou a convite da Vesper

Polilaminina: o que é e como funciona?

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