Michael Rich: “As crianças precisam aprender a ficar entediadas”

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Segundo uma pesquisa do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), nove a cada dez crianças e adolescentes de 9 a 17 anos têm acesso à internet — e dois terços deles usam inteligência artificial para os estudos.

Orientar o uso da tecnologia por jovens não é só uma preocupação das famílias e das escolas. O papo deve ser levado para as consultas, afinal, os médicos de hoje devem ter letramento midiático. É o defende o pediatra Michael Rich, professor associado da Escola Médica de Harvard, mais conhecido como “O Midiatra”.

“Uma das coisas que eu realmente encorajo meus pacientes é a serem conscientes, presentes e equilibrados com o uso de tecnologias”, afirma em entrevista à VEJA SAÚDE.

O médico é também o fundador do Laboratório do Bem-Estar Digital e da Clínica para Distúrbios da Internet e da Midia Interativa, primeiro programa médico focado nos problemas de saúde causados pelo uso excessivo de tecnologia — especialmente na infância.

“O principal dano, além de todas as coisas as quais se pode ser exposto online, é que as crianças não estão tendo conversas, não estão brincando lá fora, não estão inventando novas formas de brincar”, critica Rich. “Nós trocamos o brincar livre, que costumava ser a principal atividade da infância, por vidas online.”

O midiatra esteve no Brasil para falar sobre esse desafio. No último dia 2, ele palestrou no evento Arco Day, promovido pela Arco Educação, em São Paulo, para alcançar educadores e profissionais da saúde sobre a importância de conversar acerca do uso consciente de telas.

A seguir, confira a entrevista exclusiva com Rich, também autor do livro O Guia do Midiatra: Como Criar Crianças Saudáveis, Inteligentes e Respeitosas em um Mundo Saturado de Telas (Artmed).

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VEJA SAÚDE: Um dos maiores desafios de criar filhos que tenham uma boa relação com a tecnologia é que, na maioria das vezes, nem os próprios pais têm um bom controle do uso de telas. Por onde começar quando há esse problema?

Michael Rich: Eu tenho o mantra dos três Ms. O primeiro — e talvez o mais importante, particularmente com crianças muito jovens — é modelar o comportamento que você quer ver em seus filhos. 

Se você não quer que eles fiquem jogando videogame, que passem horas nas redes sociais, largue o seu telefone e converse com eles. Esteja presente.

É muito importante modelar o comportamento porque as crianças ouvem, talvez, 1% do que dizemos, mas prestam atenção em 100% do que fazemos. Elas buscam ser como nós. 

O segundo é ser um mentor. Oriente-as e aprenda com elas, comece um diálogo que permita que você os eduque no espaço digital.

E isso leva ao terceiro M, que é ser capaz de monitorar as suas vidas digitais da mesma forma que monitoramos a vida real. Tenha os seus nomes de usuário e senhas. 

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Os jovens podem até relutar e pedir privacidade, mas, para eles, privacidade significa apenas “para que a mamãe e o papai não possam ver”. Elas não estão cientes de todas aquelas outras milhões de pessoas por aí que não têm intenções tão boas quanto seus pais. 

E quais são os principais danos do tempo de tela excessivo na infância?

O principal dano, além de todas as coisas as quais se pode ser exposto online, é que as crianças não estão tendo conversas, não estão brincando lá fora, não estão inventando novas formas de brincar. Nós trocamos o brincar livre, que costumava ser a principal atividade da infância, por vidas online.

Como limitar o tempo online?

Hoje em dia, nem nós, adultos, conseguimos mais medir o tempo de tela devido à forma como as usamos. O conceito de limites de tempo de tela vem da televisão, quando costumávamos sentar e assistir a um programa por uma hora e, depois, desligávamos e fazíamos outra coisa. Agora, nós entramos e saímos das telas constantemente e sem realmente pensar sobre isso.

Mas aqui está o que podemos medir: o tempo intencional sem tela. Momentos em que as guardamos intencionalmente para fazermos uma caminhada, lermos um livro ou conversarmos. 

Existem alguns momentos realmente importantes do dia que deveriam ser absolutamente livres de telas. O primeiro, claro, é ao dormir. As telas devem ficar fora do quarto, e isso inclui os telefones. Uma pesquisa mostrou que 26% das crianças acordam no meio da noite para responder a uma notificação, o que é realmente preocupante. Então, compre um despertador.

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Outro momento importante é à mesa do jantar. Talvez seja a melhor coisa que você pode fazer pela saúde mental e nutrição do seu filho: uma refeição familiar sentada, sem dispositivos, todos os dias, em que contamos nossas experiências do dia. O que nos fez rir? O que nos deixou confusos? O que nos fez felizes? E tristes? É hora de se reconectar como família. 

Michael Rich palestrou no evento Arco Day, sobre inovação tecnológica voltada à educação, realizado em São Paulo. (Clayton Andretti/Divulgação)

É preciso preparar os pediatras para serem, como o senhor, midiatras?

Temos que entender que as crianças de hoje estão crescendo em um ambiente totalmente diferente daquele em que os pediatras cresceram ou em que os pais delas cresceram. 

Uma das coisas que eu realmente encorajo meus pacientes e encorajo os pediatras a incentivarem seus pacientes é a serem conscientes, presentes e equilibrados com o uso de tecnologias. Estar presente com outros seres humanos. 

E aqui tem uma coisa muito importante para as crianças: elas precisam aprender a ficar entediadas. Nós somos tão avessos ao tédio que pegamos o celular mesmo quando entramos em um elevador ou em um ônibus, em vez de olhar para cima e ver o céu ou nos conectando com outras pessoas. E o que temos que ajudar as crianças a entender é que o tédio é onde a criatividade e a imaginação acontecem. 

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Não apenas porque há espaço mental disponível, mas porque esse espaço mental é desconfortável, então pensamos em coisas nesse espaço para criar algo novo. 

E essa é uma maneira de ajudar as crianças a aprenderem a respeitar suas próprias mentes, sua atenção, sua capacidade de criar o novo, em oposição a apenas preencher esse espaço com o que quer que aconteça online.

Qual é o papel das escolas na construção dessa resiliência em estar offline?

Muito se fala sobre banir ou não o uso de smartphones na sala de aula. Mas eu acho que o problema com essa abordagem é que não funciona. Não funciona porque, quando as crianças ouvem que não podem fazer algo, imediatamente pensam: “como posso contornar isso?” , “como escapar à regra sem ser punido?”

O que as escolas precisam fazer é reconhecer o fato de que os smartphones, a internet, as redes sociais e, agora, a IA são reais, estão presentes e não vão desaparecer.

Portanto, temos que ensiná-los a usar essas ferramentas poderosas de maneiras que sejam saudáveis, respeitosas com os outros e inteligentes. Usá-las não para substituir, mas para estender nossas habilidades.

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Como podemos orientar jovens sobre o uso da inteligência artificial (IA)?

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Os adolescentes de hoje conversavam com a Alexa quando eram crianças pequenas, então eles não conhecem um mundo sem IA. É o ar que respiram. E, por isso, acho que o que temos que fazer é ensiná-los que a IA está lá apenas para ajudá-los. 

Precisamos ensiná-los que a IA não é onisciente, não sabe tudo e que é apenas uma agregação de ideias de outras pessoas. 

O Papa acabou de divulgar uma encíclica comentando nossa relação com a inteligência artificial, dizendo que corremos risco do que chamamos de “nanismo cognitivo”. Isto é, de que, se os jovens puderem recorrer à IA para escrever redações ou fazer lição de casa de matemática, eles podem passar pela escola e nunca aprender nada.

Portanto, temos que ajudar as crianças a entenderem que precisam usar e exercitar esses músculos. Elas precisam aprender a pensar conceitualmente e a IA pode apenas estender esse aprendizado. Elas têm que fazer as perguntas importantes e serem pensadoras críticas sobre o que a tecnologia pode agregar à vida delas.

Por fim, você trabalhou com cinema na juventude. Como essa experiência moldou o médico que você é hoje?

A razão pela qual entrei no cinema, em primeiro lugar, é que o vi como uma ferramenta poderosa e sensível para afetar os corações e as mentes humanas. Para contar histórias que nos ajudassem a entender quais são as nossas falhas, quais são os nossos pontos fortes, como podemos ser maiores juntos do que separados. 

Pense no que acontece no cinema: sentamos no escuro com estranhos e rimos juntos, choramos juntos, temos emoções juntos.

Mas, quando percebi que a indústria cinematográfica não era sobre fazer filmes para curar corações e mentes, e sim para ganhar dinheiro, me desanimei. Foi quando decidi ir para a faculdade de medicina e me tornar pediatra.

Me tornei pediatra extamente quando a medicina estava começando a se preocupar com os efeitos das telas — na época, a televisão — na saúde física, social e mental das pessoas.

Então, esse desejo de entender como elas podem nos afetar, nos manipular, nos mover em direções boas ou ruins não significou, para mim, uma mudança de carreira, mas sim uma continuação do que eu estava fazendo no cinema.

O Guia do Midiatra: como criar crianças saudáveis, inteligentes e respeitosas em um mundo saturado de telas

Capa do livro

Adolescência: 6 alertas da série da Netflix para os pais

Artigo Original CLIQUE AQUI


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