Quanto mais cedo começar no esporte, melhor? Por que seu filho não deveria treinar como um adulto

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No nosso dia a dia, é cada vez mais comum atender crianças e adolescentes com dores que, até alguns anos atrás, eram mais frequentes em atletas adultos.
Fraturas por estresse, inflamações nos tendões, dores persistentes nos joelhos e lesões nas cartilagens de crescimento passaram a fazer parte da rotina de quem cuida de jovens esportistas. Em muitos desses casos, existe um fator em comum: a especialização precoce.
Ela acontece quando a criança passa a praticar apenas um esporte, de maneira intensiva, durante praticamente o ano inteiro, abrindo mão de outras modalidades e, muitas vezes, até de momentos de descanso.
A ideia defendida é a de que, quanto mais cedo começar e quanto mais treinar, maiores seriam as chances de a criança se tornar um atleta de alto rendimento. Mas a ciência do esporte mostra que essa lógica nem sempre funciona.
O corpo da criança ainda está em construção
Uma criança não é um adulto em miniatura. Seus ossos ainda estão crescendo, as cartilagens de crescimento estão em atividade e músculos e tendões passam por constantes transformações. Isso faz com que o organismo responda de maneira diferente às cargas de treinamento.
Quando um mesmo movimento é repetido centenas ou milhares de vezes ao longo de meses, sem períodos adequados de recuperação, determinadas regiões do corpo podem sofrer um estresse excessivo.
É o que ocorre, por exemplo, com jovens tenistas, ginastas, jogadores de futebol, nadadores ou praticantes de esportes que exigem gestos repetitivos.
As consequências podem incluir tendinites, lesões nas cartilagens, dores lombares e fraturas por estresse, uma condição em que o osso desenvolve pequenas fissuras devido à sobrecarga repetida.
Além do impacto físico, há outro aspecto importante: o excesso de treinamento pode levar ao esgotamento emocional. Muitas crianças acabam perdendo o prazer pela prática esportiva e abandonando precocemente uma atividade que, inicialmente, lhes trazia satisfação.
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Mais treino não significa mais talento
Diversas entidades internacionais, entre elas a American Orthopaedic Society for Sports Medicine e o Comitê Olímpico Internacional, desaconselham a especialização precoce antes da puberdade. O motivo é claro: ela aumenta o risco de lesões e não garante melhor desempenho esportivo no futuro.
Na prática, observamos que talento, coordenação, motivação e prazer pelo esporte têm um peso muito maior na formação de um atleta do que simplesmente acumular horas de treinamento desde muito cedo.
A infância e a adolescência são períodos importantes para desenvolver diferentes habilidades motoras, como equilíbrio, agilidade, força, coordenação e percepção corporal. Essas competências são estimuladas justamente pela prática de diferentes modalidades esportivas.
O paradoxo do alto rendimento
Curiosamente, muitos atletas que alcançaram o mais alto nível competitivo tiveram uma infância esportiva diversificada. Participaram de diferentes modalidades antes de se dedicarem de forma mais intensa àquela em que se destacaram.
Estudos mostram que jovens que praticam mais de um esporte apresentam menor risco de lesões por sobrecarga, menores taxas de abandono e, em muitos casos, carreiras mais longas e bem-sucedidas.
Isso não significa que a criança não possa ter um esporte preferido ou sonhar em se tornar atleta profissional. O problema surge quando a busca por desempenho leva a uma rotina de treinamentos excessivos, sem períodos adequados de descanso e sem respeitar as limitações de um organismo em desenvolvimento.
No esporte infantil, o objetivo principal deveria ser formar pessoas ativas, saudáveis e apaixonadas pela atividade física. Se o alto rendimento vier no futuro, ótimo. Mas tentar acelerar esse processo pode ter o efeito oposto.
Em ortopedia esportiva, aprendemos uma lição importante: às vezes, o caminho mais seguro para formar um campeão é justamente permitir que a criança tenha tempo para crescer, brincar, experimentar diferentes esportes e desenvolver seu corpo de forma equilibrada.
*Camila Cohen Kaleka é ortopedista, doutora pelo Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein e membro da Brazil Health.