A menopausa e os 52 anos: uma fase de poder

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Quando pensamos em menopausa, pensamos no que termina. O fim da fertilidade. O fim dos ciclos menstruais. O fim de uma etapa da vida. Em uma cultura obcecada pela juventude, existe ainda um fim mais silencioso: o da sensação de pertencimento.

Durante décadas, mulheres foram ensinadas a associar valor à aparência, à capacidade reprodutiva e à disposição para cuidar dos outros. Não surpreende que tantas atravessem essa transição com a sensação de que algo importante está ficando para trás.

Foi por isso que me chamou atenção ouvir exatamente o oposto durante as gravações da série documental Menopausa Sem Fronteiras, produzida e apresentada por mim, e que vocês poderão assistir em breve.

Ao longo de uma jornada por diferentes regiões da América Latina para compreender como mulheres de contextos culturais diversos vivem essa fase da vida, encontrei uma interpretação que raramente aparece nas conversas sobre menopausa.

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A menopausa pelo mundo

A descoberta não aconteceu uma única vez. Ela apareceu repetidamente nos Andes peruanos, em comunidades rurais da Colômbia e entre mulheres ligadas às tradições ancestrais do México. Mudavam os cenários, as histórias e os sotaques. A ideia permanecia a mesma: por volta dos 52 anos, a mulher não perde poder. Ela ganha.

Foi no México que essa percepção ganhou forma. Aída, abuela da tradição maia e médica tradicional maia, me conduziu até um cenote, um dos reservatórios naturais de água doce considerados sagrados por seu povo.

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Antes de entrarmos, ela acendeu o copal e explicou a presença dos quatro elementos: terra, água, ar e fogo. Depois pediu permissão às águas.

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Para sua tradição, aquele não era apenas um lugar da natureza. Era um lugar de memória.

A ‘abuela’ Aída, personagem da série ‘Menopausa sem fronteiras’ (Foto: Maria Cândida/Reprodução)

Enquanto caminhávamos, conversamos sobre os ciclos femininos. Ela me contou que, quando uma menina menstrua pela primeira vez, recebe flores e uma coroa. A chegada da fertilidade é celebrada como um rito de passagem. Não como um problema a ser administrado, mas como uma transformação a ser honrada.

O que me intrigou foi perceber que aquela cultura não parecia celebrar apenas o início do ciclo feminino. Também reconhecia sua transformação.

Dias depois, encontrei Guadalupe Domínguez Luna, conhecida como Lupita, terapeuta e guardiã de círculos femininos. Ela preparava um temazcal, o tradicional banho de vapor mesoamericano conhecido como “o útero da terra”.

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No chão, flores desenhavam a forma de um útero. Mulheres chegavam para cantar, rezar, compartilhar dores, medos e recomeços. Eu também participei e, confesso, nunca vivi algo parecido.

A água aparecia novamente. No cenote, como profundidade. No temazcal, como vapor. Em ambos, como passagem.

Foi entre essas conversas que ouvi uma explicação recorrente para a importância dos 52 anos. Segundo tradições mesoamericanas, essa idade marca o encerramento de um grande ciclo da existência.

Para os maias, o chamado Calendar Round surgia do encontro entre dois sistemas de contagem do tempo: o Haab, calendário solar de 365 dias, e o Tzolk’in, calendário sagrado de 260 dias. A combinação dos dois ciclos só voltava a se repetir após 18.980 dias, o equivalente a 52 anos.

Duas mulheres sorrindo, uma loira de vestido branco e outra de cabelos grisalhos com blusa amarela bordada, em ambiente decorado com artesanato indígena
Maria Cândida e a terapeuta Lupita (Foto: Maria Cândida/Reprodução)
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Mais do que um cálculo astronômico, esse reencontro simbolizava renovação, passagem e sabedoria acumulada.

O próprio Museu Nacional do Índio Americano, do Instituto Smithsonian, registra que, em tradições maias contemporâneas, acredita-se que uma pessoa que alcança os 52 anos atinge a sabedoria especial de um ancião.

Não deixa de ser simbólico que esse marco aconteça justamente próximo da idade em que milhões de mulheres atravessam a menopausa.

Só no Brasil, cerca de 29 milhões vivem o climatério, fase que engloba a transição da menopausa e a pós-menopausa.

As explicações que ouvi falavam de energia. Quando a menstruação termina, diziam algumas dessas mulheres, uma força antes dedicada à reprodução torna-se disponível para outros propósitos.

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A ciência não confirma essa interpretação literalmente. Não existe evidência de que a energia biológica da menstruação retorne ao corpo quando cessam os ciclos menstruais.

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Pelo contrário. Os primeiros anos da menopausa costumam ser marcados por ondas de calor, insônia, fadiga, alterações cognitivas temporárias, ressecamento vaginal, mudanças de humor e dezenas de outros sintomas já descritos pela medicina.

Mas talvez os povos originários não estejam falando da mesma energia que a medicina tenta medir. Talvez estejam falando de outra coisa.

Em evolução

A antropologia oferece uma pista interessante. A chamada Hipótese da Avó, proposta pela pesquisadora Kristen Hawkes, da Universidade de Utah, sugere que mulheres pós-menopausa tiveram papel decisivo na evolução humana.

Ao transmitir conhecimento, orientar gerações mais jovens e fortalecer laços comunitários, aumentavam as chances de sobrevivência do grupo. Seu valor deixava de estar associado à reprodução e passava a estar associado à experiência.

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Talvez seja isso que tantas culturas ancestrais tenham percebido muito antes da ciência formular hipóteses.

Ao longo da vida fértil, muitas mulheres organizam sua existência em torno das necessidades dos outros. Filhos, parceiros, trabalho, família. Quando essa etapa se transforma, surge algo que inúmeras mulheres descrevem de forma parecida: uma urgência de autenticidade.

Elas mudam de carreira. Criam empresas. Escrevem livros. Encerram relações que já não fazem sentido. Voltam a estudar. Viajam sozinhas. Recomeçam.

Não porque ficaram mais jovens. Mas porque deixaram de negociar tanto consigo mesmas. Talvez a maior diferença entre a visão ocidental e a visão ancestral esteja aí.

Muitas mulheres ocidentais foram educadas para temer exatamente a idade que tantas culturas ancestrais aprenderam a celebrar.

Crescemos ouvindo que existe uma idade para ousar e outra para se recolher. Uma idade para começar e outra para encerrar capítulos.

Não raro, a palavra “velha” ainda é usada de forma pejorativa para desencorajar mudanças, novos relacionamentos, viagens, estudos ou projetos.

Talvez por isso tantas mulheres tenham dificuldade de acessar aquilo que essas culturas descrevem como uma nova potência. Não porque ela não exista, mas porque fomos treinadas para enxergar essa fase como declínio, e não como transformação.

Durante séculos, mulheres de povos tradicionais foram preparadas para ocupar o lugar das anciãs. Mulheres ocidentais foram preparadas para permanecer jovens.

Uma trajetória celebra a chegada da sabedoria. A outra tenta adiar sua própria chegada.

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Uma causa em ascensão

Depois de ouvir tantas histórias ao longo dessa jornada, passei a me perguntar se a menopausa não estaria sendo interpretada de forma excessivamente biológica.

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Os hormônios importam. Os sintomas são reais. O tratamento adequado pode mudar vidas. E acredito que a luta global para ampliar o acesso à informação, ao cuidado e aos tratamentos finalmente está ganhando força.

Faço parte de uma rede internacional de lideranças chamada Power in Menopause , que defende que a Organização Mundial da Saúde (OMS) desenvolva diretrizes clínicas globais e baseadas em evidências sobre a menopausa.

A iniciativa também promove a atuação coordenada em diferentes frentes: governos, para implementar políticas nacionais; instituições de ensino e associações profissionais, para atualizar a formação e incentivar uma abordagem mais proativa com pacientes; empresas, para adotar políticas e ambientes de trabalho mais inclusivos; e mobilizadores, como eu, que terão a oportunidade de trazer diferentes experiências.

Mas uma pergunta continua me acompanhando. Quando os sintomas estiverem melhor compreendidos, quando o acesso ao tratamento deixar de ser privilégio de poucas e quando a menopausa não for mais definida apenas pela dor, o que restará?

Talvez reste a questão mais interessante de todas: quem a mulher se torna depois da fase reprodutiva?

Os povos originários parecem nos lembrar que existe um momento em que a mulher deixa de ser definida pelo que ainda pode gerar biologicamente e passa a ser reconhecida pelo que aprendeu, construiu e pode transmitir.

É isso que significa tornar-se uma Abuela. Não alguém que chegou ao fim do caminho. Mas alguém que conquistou a autoridade para escolher o próprio caminho.

Aos 55 anos, percebo que essa ideia faz mais sentido para mim do que nunca. Deixei a televisão depois de três décadas de carreira, criei minha própria produtora audiovisual e decidi dedicar os próximos anos a investigar como mulheres de diferentes culturas vivem a menopausa.

Até 2030, essa jornada me levará por vários continentes. Em 2027, estarei ao lado de outras lideranças defendendo políticas públicas globais para milhões de mulheres.

Talvez seja essa a energia da qual Aída e Lupita falavam. Não uma energia que a ciência consiga medir em exames de sangue. Mas a que surge quando experiência se transforma em propósito.

Quando maturidade se transforma em voz. E quando uma mulher finalmente se torna protagonista da própria história.

* Maria Cândida é jornalista e apresentadora, tem pós-graduação em gerontologia e produz a série Menopausa Sem Fronteiras

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