Estudo liga voto em Bolsonaro a menor cobertura vacinal contra a covid
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Um novo estudo mostra que, quanto maior o índice de votação de uma cidade em Jair Bolsonaro em 2022, menor sua cobertura vacinal contra a covid-19. O trabalho foi publicado recentemente no periódico Ciência & Saúde Coletiva e usou dados de mais de 33 mil indivíduos de 133 municípios.
Todos faziam parte do Epicovid-19 2.0, um inquérito bem abrangente sobre os impactos do coronavírus na população brasileira. As informações foram cruzadas com os resultados do segundo turno do pleito presidencial que reconduziu Lula à presidência.
A proporção de brasileiros que não completaram o esquema vacinal recomendado para a infecção é duas vezes maior nas cidades que mais votaram no ex-presidente em comparação com o oposto – municípios com menos votos nele.
“Embora o estudo não permita dizer que uma pessoa deixou ou não de se vacinar por causa da sua escolha eleitoral, os resultados mostram que o contexto político está relacionado a comportamentos em saúde”, comenta a epidemiologista Romina Buffarini, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), autora principal do artigo.
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Diferença de dez pontos percentuais e efeito cascata
Nas cidades que votaram mais no Partido dos Trabalhadores (PT), de Lula, o percentual de pessoas que tomaram duas ou mais doses da vacina da covid-19 foi de 91,5%. Já no grupo de municípios com a maior proporção de votos no Partido Liberal (PL), de Bolsonaro, a cobertura média caiu para 82,9%.
Para garantir representatividade da amostra e diminuir a influência de outros fatores, os cientistas ajustaram a análise por sexo, faixa etária, raça/cor e renda domiciliar. A associação se manteve mesmo com esse controle.
Buffarini e sua equipe notaram ainda uma espécie de efeito “cascata” na adesão ao imunizante que protege da gripe. O percentual de vacinados contra o influenza foi de 83,7% nas cidades com mais votos no PT e de 79% nas que optaram mais pelo PL.
Uma limitação importante do trabalho é que ele avaliou o total de votos do município, e não de cada entrevistado. Então não dá para dizer que determinado eleitor deixou de se vacinar por conta da posição política.
De toda forma, os achados “sugerem que o ambiente político e informacional pode influenciar o comportamento em relação às vacinas”, escrevem os cientistas. Para Buffarini, a questão da comunicação deve se tornar prioridade para melhorar as coberturas vacinais nos próximos anos.
“Isso chama a atenção para a importância da comunicação em saúde, que tem o desafio de fortalecer a confiança nas instituições em contextos muito diferentes. E isso pode ser especialmente importante quando pensamos em campanhas mais efetivas no futuro.”
A influência da política na hesitação vacinal
Outro trabalho que conversa com o conduzido pela UFPel foi publicado recentemente no Journal of Politics in Latin America. A pesquisa detectou alto índice de hesitação vacinal influenciada pela política em Santa Catarina, um dos principais redutos eleitorais de Jair Bolsonaro.
O estudo envolveu um questionário on-line com a população e entrevistas qualitativas com profissionais de saúde e gestores da área no estado. Cerca de 43% dos respondentes do levantamento virtual relataram hesitação em se vacinar.
Os participantes eram, em sua maioria, mulheres jovens, de alto nível de escolaridade. Entre os hesitantes, os principais temores foram os efeitos colaterais (97%), ter ouvido informação negativa (76%) e a ideia de que as vacinas foram criadas rápido demais (53%).
A posição política também fez parte da pesquisa. “Mostramos um paralelo que corre somente de um lado: eleitores de Bolsonaro na eleição de 2022 relataram maior hesitação vacinal, enquanto eleitores de Lula não necessariamente apoiam mais a vacinação”, comenta o cientista político Tiago Tasca, autor do artigo.
Santa Catarina foi escolhido porque, na visão do cientista, funciona como um “case” perfeito da influência da política nesta questão, visto que sempre teve altas coberturas vacinais e, nos últimos anos, se tornou um dos principais redutos eleitorais de Bolsonaro e outros políticos que questionavam as vacinas.
“Claro que não é possível extrapolar que todo eleitor de Jair Bolsonaro em 2022 é contra as vacinas, mas o componente político tem um peso nas decisões individuais porque as pessoas observam as lideranças e suas recomendações de ação”, comenta Tasca, que atua na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.
O cientista também notou o efeito cascata para outros imunizantes, em especial os contra gripe e HPV e abordou outras razões para a hesitação. Destaca-se, aqui, o efeito da desinformação – haja vista que quase toda a amostra (98% do total) já tinha ouvido alguma informação negativa sobre vacinas – e a confiança nas instituições.
Em seu trabalho, ele notou que pessoas que confiavam mais no governo estadual hesitavam mais em se vacinar, enquanto quem afirmava confiar no governo federal se vacinava menos.
“Isso ocorre porque em 2023, ano em que a coleta foi feita, o governo federal estava alinhado com uma postura pró-vacina enquanto o governo estadual tinha uma postura de maior resistência à promoção de campanhas de vacinação”, destaca Tasca.
Para ele, esse efeito é relevante porque “pouco se fala em como o nível subnacional, que está mais próximo da população, pode influenciar as decisões individuais de aderir a campanhas de saúde preventiva”.
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