Richard Norton: o que são peptídeos, substâncias envolvidas na morte do ator

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Um relatório divulgado nesta quinta-feira, 26, revelou a possível causa da morte do ator e dublê Richard Norton, que faleceu em março de 2025.

Segundo o legista do estado de Victoria, na Austrália, David Ryan, o artista faleceu após usar injeções de peptídeos irregulares sob a promessa de retardar o envelhecimento e melhorar dores.

As informações foram reveladas pelo site TMZ. De acordo com o portal, Norton fez uso dos peptídeos CJC1295 e ipamorelin, que não têm aprovação da agência reguladora da Austrália, seu país de origem.

O artista teria consumido, ainda, uma dose maior do que a já receitada irregularmente pelo médico que o acompanhava. A injeção causou uma reação anafilática – resposta alérgica grave – que, por sua vez, levou à parada cardíaca.

Richard Norton foi um renomado artista marcial, ator, dublê e coreógrafo de lutas. Ele trabalhou com grandes astros de Hollywood, como Chuck Norris, Margot Robbie e Jackie Chan.

Uso de produtos não aprovados em alta dose

Segundo o relatório, Norton começou a receber injeções de peptídeos em 19 de março. Uma semana mais tarde, o ator relatou que estava “se sentindo bem e que a terapia com peptídeos estava melhorando seus sintomas“, diz o documento.

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No entanto, dois dias depois, em 28 de março, o ator revelou a uma enfermeira que estava administrando o dobro das doses prescritas.

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Horas depois após uma nova aplicação dos dois peptídeos, sentiu calor e rubor e perdeu a consciência. Acredita-se que a morte de Norton seja a primeira fatalidade confirmada na Austrália devido ao uso não aprovado de peptídeos.

O que são peptídeos

Os peptídeos são pequenas moléculas formadas por combinações de aminoácidos, as mesmas “peças” que dão origem às proteínas.

No entanto, enquanto as proteínas são estruturas maiores, que precisam se dobrar e se enovelar para desempenhar suas funções biológicas, os peptídeos são menores e geralmente lineares.

Essas estruturas atuam majoritariamente como mensageiros químicos.

Por exemplo, no coração, o peptídeo natriurético atrial (ANP) participa da regulação da pressão arterial e do equilíbrio de sódio e água. No aparelho digestivo, o peptídeo YY (PYY) ajuda a sinalizar saciedade. Na reprodução, a kisspeptina ajuda a controlar o eixo que coordena a produção de hormônios sexuais (muitos deles também peptídicos).

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Mas, além dessas funções no corpo, essas moléculas ficaram especialmente famosas depois de serem “engarrafadas” nas chamadas canetas emagrecedoras, que contêm medicamentos à base de peptídeos capazes de regular a saciedade e tratar a obesidade.

Agora, graças às aparentemente infinitas possibilidades dos peptídeos, uma série de estudos busca descobrir como utilizar essas moléculas para o bem da saúde humana.

A esmagadora maioria das propostas, porém, ainda não conseguiu provar que é eficaz ou segura.

Mesmo assim, diversas substâncias injetáveis são comercializadas com a promessa de que seus peptídeos podem dar todo tipo de comando ao organismo, do emagrecimento ao rejuvenescimento e ao alívio da dor.

Saiba mais nesta reportagem especial.

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Para que servem CJC1295 e ipamorelin

O CJC-1295 e a ipamorelina são peptídeos sintéticos que atuam sobre mecanismos envolvidos na produção do hormônio do crescimento (GH).

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A combinação dos dois tem sido promovida em clínicas de longevidade e por influenciadores fitness como uma estratégia para estimular a liberação desse hormônio pelo organismo.

A proposta é tentadora. O GH participa de processos como o crescimento dos tecidos, a manutenção da massa muscular e a regulação do metabolismo. Além disso, seus níveis diminuem naturalmente com o envelhecimento, o que alimenta o interesse por substâncias capazes de estimular sua produção.

Com base nesse mecanismo, a combinação é divulgada com promessas que vão do aumento da massa muscular e da redução da gordura corporal à melhora da recuperação após exercícios e lesões.

Também aparece no mercado antienvelhecimento, sob a alegação de que poderia combater mudanças associadas à idade.

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Os riscos do uso

O problema é que essas promessas ainda não foram comprovadas por estudos clínicos robustos em seres humanos. Além disso, estimular a produção de GH não significa necessariamente obter os benefícios anunciados.

Vale dizer que as alterações hormonais podem provocar efeitos indesejados, como retenção de líquidos, dores articulares, formigamento e redução da sensibilidade à insulina, com possível aumento da glicemia.

Outro ponto de atenção é o IGF-1, hormônio cuja produção é estimulada pelo GH e que participa do crescimento celular. A exposição excessiva a essas duas substâncias pode trazer consequências metabólicas e cardiovasculares.

Estudos com pessoas que apresentam excesso crônico de GH e IGF-1, como ocorre na acromegalia, associam o quadro a hipertensão, alterações na estrutura do músculo cardíaco, arritmias e, em casos avançados, insuficiência cardíaca.

Além disso, no caso do CJC-1295, a Food and Drug Administration (agência reguladora do Estados Unidos), por exemplo,  também relata eventos adversos graves associados à substância, incluindo aumento da frequência cardíaca e reações vasodilatadoras sistêmicas.

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Mas os efeitos do uso prolongado ainda são pouco conhecidos. Nenhum dos dois peptídeos tem aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ou do FDA para esse tipo de tratamento.

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Faltam, portanto, evidências de eficácia e dados de segurança que permitam estabelecer uma relação confiável entre benefícios e riscos para quem os utiliza com objetivos estéticos ou de longevidade.

A farsa dos falsos discursos científicos

A capacidade de imitar, bloquear ou modular mensagens que o próprio corpo produz que colocou os peptídeos feitos em laboratório no centro de uma das fronteiras mais promissoras da medicina.

Ao identificarem uma molécula natural e entenderem qual mensagem ela transmite, pesquisadores podem tentar reproduzi-la ou direcioná-la para uma função exata.

No entanto, no mercado de longevidade e performance, há muitas promessas sem evidência.

Quando se fala em peptídeos, uma das alegações mais comuns é que eles permitiriam fazer um biohacking do corpo — isto é, tratar o próprio organismo como um sistema que pode ser hackeado para alcançar mais performance, saúde ou longevidade.

A ideia parece sedutora porque vem de algo que é, de fato, biológico: eles são, sim, moléculas sinalizadoras, capazes de atuar sobre alvos específicos e, em alguns casos, estão associadas à medicina de precisão.

O problema é que transportar para a biologia a lógica de uma máquina, em que basta identificar uma peça e ajustá-la para obter determinado resultado, nem sempre funciona.

“Estão tirando um termo que vem da computação, uma ciência exata, e aplicando a um sistema biológico extremamente fluido e autorregulado”, ponderou, para a VEJA SAÚDE, o imunologista Braian Sousa, doutor em ciências pela Universidade de São Paulo (USP).

“Não funciona assim. Não é algo cartesiano. É dinâmico e, como muitos processos acontecem ao mesmo tempo, há uma exigência de muito cuidado”, prossegue.

 

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