Crianças também têm reumatismo: sintomas que os pais não devem ignorar
Embora frequentemente associadas aos adultos e idosos, as doenças reumáticas também podem afetar crianças e adolescentes. Essas condições incluem doenças inflamatórias e autoimunes que podem comprometer não apenas as articulações, mas também músculos, pele, vasos sanguíneos e órgãos internos.
Reconhecer precocemente os sinais e sintomas é fundamental para estabelecer o diagnóstico, iniciar o tratamento adequado e prevenir complicações que possam comprometer o crescimento, o desenvolvimento e a qualidade de vida da criança.
Quais são os principais sinais de alerta?
A artrite idiopática juvenil é a doença reumática inflamatória crônica mais frequente na infância. Uma revisão sistemática de 2014 encontrou incidência variando de 1,6 a 23 casos por 100 mil pessoas e prevalência combinada de 20,5 por 100 mil.
Caracteriza-se pela inflamação persistente de uma ou mais articulações, podendo causar inchaço, rigidez, dor e limitação dos movimentos.
Entretanto, diferentemente dos adultos, as crianças nem sempre conseguem identificar ou expressar a dor. Em alguns casos, a primeira manifestação pode ser uma mudança nas atividades habituais, como dificuldade para caminhar, evitar brincadeiras, apresentar dificuldade para subir escadas ou deixar de utilizar uma das mãos.
Um sinal particularmente importante é a rigidez matinal, caracterizada pela dificuldade para movimentar as articulações ao acordar ou após períodos prolongados de repouso, com melhora progressiva ao longo do dia.
O inchaço persistente de uma articulação, mesmo na ausência de dor, também merece investigação. Embora a definição de artrite idiopática juvenil inclua artrite com duração de pelo menos seis semanas, não se deve aguardar esse período para procurar avaliação médica.
É importante ressaltar que nem toda dor musculoesquelética na infância representa uma doença reumática. A chamada “dor do crescimento”, por exemplo, geralmente ocorre no final do dia ou à noite, desaparece pela manhã e não provoca inchaço articular ou limitação das atividades diárias.
Dor persistente, inchaço, rigidez matinal ou dificuldade para caminhar não devem ser atribuídos automaticamente ao crescimento.
Além das articulações: outros sintomas que merecem atenção
Algumas doenças reumáticas podem apresentar manifestações em diferentes órgãos e sistemas, muitas vezes antes mesmo do aparecimento de sintomas articulares.
O lúpus eritematoso sistêmico juvenil é consideravelmente mais raro e corresponde a cerca de 9% de todos os diagnósticos de lúpus na população geral. Um estudo populacional nos EUA encontrou incidência de 0,7 por 100 mil crianças e prevalência de 1,1 por 100 mil.
Pode causar febre prolongada sem causa aparente, cansaço intenso, dores articulares, lesões na pele, especialmente após exposição solar, e feridas na boca.
Também pode comprometer órgãos internos, particularmente os rins, por vezes sem sintomas evidentes. Por isso, a avaliação clínica e os exames complementares são importantes para identificar precocemente essas alterações.
A dermatomiosite juvenil é também uma doença rara, com incidência anual estimada entre 2 e 4 casos por milhão de crianças. Uma das principais manifestações é a fraqueza muscular, especialmente nos músculos próximos ao tronco.
A criança pode apresentar dificuldade para subir escadas, levantar-se do chão, correr ou pentear o cabelo. Lesões avermelhadas ou arroxeadas nas pálpebras e sobre as articulações dos dedos também são sinais característicos.
As vasculites, caracterizadas pela inflamação dos vasos sanguíneos, podem provocar manifestações cutâneas e comprometimento de diferentes órgãos.
Um exemplo é a vasculite por IgA, mais frequente em crianças, com incidência anual entre 3,5 (Japão) e 26,7 (Escócia) por 100 mil em menores de 15 anos, com pico entre 4 e 6 anos de idade (até 70,3 por 100 mil no Reino Unido).
Pode causar manchas arroxeadas, principalmente nas pernas e nádegas, associadas a dor abdominal e inflamação das articulações. Como também pode comprometer os rins, é necessário acompanhamento clínico, incluindo avaliação da pressão arterial e exames de urina.
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Quando procurar avaliação médica?
Os pais e responsáveis devem estar atentos principalmente às mudanças persistentes no comportamento e nas atividades habituais da criança.
Uma criança que deixa de correr ou brincar, apresenta dificuldade para caminhar, acorda com rigidez nas articulações ou passa a necessitar de ajuda para atividades que anteriormente realizava sem dificuldade merece avaliação.
A persistência dos sintomas, a presença de sinais inflamatórios e o comprometimento das atividades diárias são aspectos importantes para diferenciar situações benignas daquelas que necessitam de investigação especializada.
Outros sinais que merecem investigação incluem febre persistente ou recorrente sem causa definida, perda de peso inexplicada, fadiga importante, alterações cutâneas e sintomas que envolvam diferentes órgãos, especialmente quando associados a manifestações musculoesqueléticas.
Em algumas circunstâncias, a avaliação deve ser imediata, como na presença de febre associada a dor articular intensa, inchaço e incapacidade de movimentar ou apoiar um membro. Nesses casos, é fundamental afastar uma infecção articular, que constitui uma urgência médica.
O diagnóstico das doenças reumáticas pediátricas é baseado principalmente na história clínica e no exame físico, complementados por exames laboratoriais e de imagem quando indicados.
É importante destacar que não existe um exame isolado capaz de diagnosticar todas as doenças reumáticas. O fator antinuclear (FAN), por exemplo, pode ser positivo em crianças saudáveis e não deve ser interpretado isoladamente como diagnóstico de uma doença autoimune.
Diagnóstico precoce e tratamento adequado fazem a diferença
Embora sejam menos frequentes na infância do que na população adulta, as doenças reumáticas pediátricas podem apresentar manifestações importantes e, quando não tratadas adequadamente, podem comprometer articulações e órgãos internos.
Na artrite idiopática juvenil, por exemplo, algumas formas estão associadas à uveíte, uma inflamação ocular que pode ocorrer sem dor, vermelhidão ou outras manifestações evidentes. Por isso, o acompanhamento oftalmológico periódico é fundamental para os pacientes com indicação de rastreamento.
Nas últimas décadas, os avanços no diagnóstico e no tratamento transformaram significativamente o prognóstico das doenças reumáticas pediátricas. Atualmente, com o acompanhamento especializado e as diferentes opções terapêuticas disponíveis, é possível controlar a atividade inflamatória e alcançar a remissão em muitos pacientes.
O tratamento deve ter como objetivos não apenas o controle dos sintomas e a prevenção de danos permanentes, mas também a preservação do crescimento, do desenvolvimento físico e emocional e da participação plena nas atividades escolares, esportivas e sociais.
A principal mensagem para pais e responsáveis é que sintomas persistentes, especialmente quando associados a mudanças na capacidade da criança de realizar suas atividades habituais, não devem ser ignorados.
A avaliação inicial pelo pediatra e, quando necessário, o encaminhamento ao reumatologista pediátrico permitem o diagnóstico e o tratamento precoces, contribuindo para que crianças e adolescentes com doenças reumáticas possam ter uma vida ativa, saudável e com qualidade.
*Nádia Emi Aikawa é reumatologista pediátrica, diretora científica da Sociedade Paulista de Reumatologia (SPR) e médica assistente da Unidade de Reumatologia Pediátrica do Instituto da Criança e da Disciplina de Reumatologia do HC-FMUSP.