Saúde em campo: 9 lesões e incidentes médicos que marcaram a história da Copa do Mundo

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A Copa do Mundo nem tinha começado e as manchetes sobre problemas físicos envolvendo atletas já dominavam as capas de jornais e portais.

Wesley, lateral da seleção, sofreu uma lesão de grau 3 na coxa e precisou ser cortado. Neymar tenta se recuperar de um problema semelhante, embora menos grave, e é dado como desfalque certo pelo menos na estreia brasileira, dia 13, contra o Marrocos.

Quando o torneio começar, infelizmente é bem provável que novas notícias assim se acumulem. Enquanto médicos alertam que o calorão do verão norte-americano vai expor os atletas a riscos inéditos, lesões ocorridas na Copa são uma fatalidade em qualquer clima.

Lembre a seguir algumas das mais marcantes da história do torneio, seja pelo que significaram para os jogadores envolvidos ou para o desfecho da competição.

1958: a fratura que ajudou o Brasil a levar a primeira estrela

Jogo: Brasil 5×2 França, pela semifinal

Ninguém pode dizer com certeza o que seria do primeiro título do Brasil em Copas sem uma lesão providencial ocorrida nas semifinais: talvez nossa seleção avançasse mesmo assim, mas é certo que a fratura do zagueiro e capitão francês Robert Jonquet mudou completamente a dinâmica da partida.

O acidente ocorreu aos 35 minutos do primeiro tempo, quando o placar ainda era 1 a 1: Jonquet se chocou com Vavá e sofreu uma fratura na fíbula. Dali por diante, um desastre total para os franceses: o Brasil logo fez 2 a 1 enquanto o adversário seguia em atendimento médico.

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Na época, não existiam substituições, e Jonquet até voltou a campo no segundo tempo só para fazer número. Na prática, os franceses passaram a jogar com 10, e Pelé fez outros três gols para levar o Brasil à decisão com direito a goleada.

Apesar de decisiva para a partida, a lesão não mudou tanto assim os rumos da carreira do já veterano Jonquet: após cinco meses de reabilitação, ele atuou por outras quatro temporadas, aposentando-se aos 37 anos, na metade de 1962.

1962: Copa dura um jogo e meio para Pelé

Jogo: Brasil 0x0 Tchecoslováquia, pela fase de grupos

Após se apresentar ao mundo em 1958, Pelé chegava ao Mundial do Chile com status de estrela maior de um Brasil que buscava o bicampeonato. E não decepcionou na estreia, quando fez um golaço e deu uma assistência na vitória por 2 a 0 sobre o México.

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Na segunda rodada, contra a Tchecoslováquia, porém, o eterno camisa 10 do Santos e do Brasil sofreu um estiramento no músculo adutor da coxa esquerda. A lesão ocorreu quando o Rei tentava um chute de longa distância, e se revelou grave demais para ele voltar a atuar naquela Copa: Pelé só voltaria a campo 53 dias mais tarde, bem depois do fim do torneio.

Felizmente para o Brasil, a ausência de Pelé não impediu o sonho do bi: Garrincha tomou as rédeas da equipe e se converteu no craque do torneio, enquanto Amarildo, que teve a difícil missão de substituir o camisa 10, também foi destaque da campanha, chegando a marcar um dos gols na final – coincidentemente, contra a mesma Tchecoslováquia.

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1982: Battiston vive um filme de terror

Jogo: França 3×3 Alemanha Ocidental (4×5 nos pênaltis), pela semifinal

Foi um dos jogos mais memoráveis da história das Copas, mas não para um dos personagens envolvidos na partida: o francês Patrick Battiston sofreu uma das faltas mais violentas já vistas na competição até hoje, o que lhe rendeu três costelas quebradas, dois dentes perdidos e uma amnésia sobre o que ocorreu no lance. Ele deixou o campo inconsciente e houve até quem pensasse que havia morrido.

O lance ocorreu no segundo tempo, apenas 10 minutos após Battiston entrar em campo: o defensor recebeu um lançamento do craque Michel Platini com a chance de colocar seu time em vantagem no placar, que ainda era de 1 a 1.

Em vez disso, seu chute foi pra fora – e, imediatamente após encostar na bola, ele foi atropelado pelo goleiro alemão Harald Schumacher, que jogou seu corpo sobre o adversário e acertou em cheio o rosto e o tronco do francês.

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Incrivelmente, o árbitro sequer deu falta no lance e marcou apenas o tiro de meta. Battiston precisou ser substituído e levou seis meses para se recuperar fisicamente, mas teve impactos duradouros: mesmo jogando profissionalmente por mais uma década, até 1991, ele relatou crises de ansiedade antes de entrar em campo em partidas futuras e diz sofrer até hoje com dores nas costas associadas ao incidente.

Em campo, a Alemanha acabaria passando à final, onde foi vice para a Itália.

1990: Nery Pumpido obriga a Argentina a trocar de goleiro

Jogo: Argentina 2×0 União Soviética, pela fase de grupos

Goleiro titular da Argentina campeã do mundo em 1986, Pumpido não teve uma boa Copa na edição seguinte: após falhar na estreia, quando a equipe foi surpreendida por Camarões, ele acabou quebrando a perna logo aos 11 minutos da segunda partida, diante da União Soviética, quando se chocou com o lateral Olarticoechea.

A lesão acabou gerando um herói improvável: o reserva Sergio Goycochea se tornaria destaque da Argentina naquele Mundial, pegando pênaltis ao longo da campanha que culminou com o vice-campeonato diante da Alemanha Ocidental.

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Pumpido nunca mais atuou pela seleção, mas ainda jogou profissionalmente por outros três anos. E o acidente na Copa nem foi a lesão mais famosa de sua carreira: em 1987, ele chegou a perder parte de um dedo durante um treinamento, quando sua aliança de casamento ficou presa em um gancho do gol. Por sorte, deu para salvar o pedaço separado do corpo, que posteriormente foi reimplantado.

1998: as misteriosas convulsões de Ronaldo

Jogo: horas antes de Brasil 0x3 França, pela final

Quem viveu, não esquece: antes da finalíssima da Copa de 98, o narrador Galvão Bueno apareceu chocado na tela da TV dos brasileiros com uma cópia da escalação da seleção para o jogo – e, em vez do goleador Ronaldo, quem aparecia no ataque era Edmundo.

O que realmente aconteceu naquele dia foi alvo de inúmeras teorias da conspiração, e os fatos só viriam à tona anos mais tarde. Ainda no hotel, Ronaldo havia sofrido uma convulsão cuja causa de fundo nunca foi determinada pelos médicos – o centroavante garante que nunca teve outro episódio semelhante antes ou depois daquilo. Por prudência, o técnico Zagallo cogitou tirá-lo da equipe e escalou Edmundo, mas voltou atrás diante das pressões.

Um abalado Ronaldo fez uma partida fora dos seus padrões em uma noite que o Brasil prefere esquecer, que acabou com o vice após tomar 3 a 0 da França. A volta por cima do camisa 9 viria quatro anos depois, e em dose dupla: rumo à Copa de 2002, Ronaldo precisou apagar o episódio de Paris e também se recuperar de uma grave lesão no joelho que sofreu em abril de 2000. Deu certo, e ele não só jogou como acabou artilheiro do penta.

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2006: Owen sofre um doloroso acidente de trabalho

Jogo: Inglaterra 2×2 Suécia, pela fase de grupos

Apenas 51 segundos tinham se passado quando Michael Owen viveu um acidente que mudou a sequência de sua carreira: sem contato algum, seu joelho cedeu sozinho, virou para o lado errado e acabou rendendo uma ruptura do ligamento cruzado anterior (LCA).

Uma das mais temidas lesões do mundo do futebol, o LCA rompido tirou Owen dos gramados por 10 meses. Quando voltou, ele nunca mais teve a explosão que marcou seu início prodigioso de carreira: vencedor da Bola de Ouro em 2001, o inglês faria sua última partida pela seleção já em 2008.

Sofrendo com lesões repetidas que ele atribuía à recuperação incompleta após a Copa do Mundo, ele anunciaria sua aposentadoria precoce meia década mais tarde, com apenas 33 anos.

2014: Um joelhaço em Neymar acaba com sonhos do Brasil na Copa

Jogo: Brasil 2×1 Colômbia, pelas quartas de final

Aos 41 minutos do segundo tempo de um jogo renhido em Fortaleza, uma disputa de bola pelo ar tirou Neymar do jogo e da sequência da Copa: o colombiano Zúñiga acertou um joelhaço nas costas do principal jogador do Brasil à época, provocando uma fratura na coluna, na altura da terceira vértebra lombar.

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No longo prazo, a lesão não chegou a afetar tanto assim a continuidade da carreira de Neymar, que conseguiu voltar à ativa 45 dias mais tarde, com repouso e fisioterapia.

Mas, para a Copa do Mundo, a lesão foi o prelúdio de um dos maiores traumas do futebol brasileiro: visivelmente abalado pela ausência do seu principal jogador, um Brasil que já entrava como azarão diante da Alemanha jamais apresentou qualquer resistência nas semifinais, perdendo pelo incrível placar de 7 a 1.

2018: Umtiti troca a carreira pelo título mundial

Jogo: lesão sofrida antes da Copa e agravada ao longo do torneio

Quando machucou o joelho, às vésperas da Copa do Mundo, Samuel Umtiti estava no auge da carreira. O Barcelona, seu clube, valorizava tanto suas contribuições que havia estabelecido uma cláusula de 500 milhões de euros caso outro time quisesse contratá-lo.

A lesão também colocou o defensor franco-camaronês diante de uma decisão difícil: fazer a cirurgia, que possibilitava uma recuperação melhor, mas o tiraria da Copa; ou optar por um tratamento conservador, que poderia levar a complicações de longo prazo, mas o permitiria jogar o Mundial.

Umtiti decidiu arriscar e, na Copa de 2018, foi indispensável para o título da França: é dele o único gol da semifinal da competição, que abriu caminho para buscar o bicampeonato. mundial. Mas os alertas dos médicos também se confirmaram: Umtiti nunca se recuperou totalmente dos problemas físicos após evitar a cirurgia.

Em 2025, com apenas 31 anos, o homem que trocou a carreira pelo título mundial anunciou que estava de aposentando.

2022: ‘Fogo amigo’ e um rosto partido

Jogo: Arábia Saudita 2×1 Argentina, pela fase de grupos

Logo na estreia da Copa de 2022, a Arábia Saudita promoveu uma das maiores surpresas da história, vencendo a favorita Argentina – que depois superaria o baque e avançaria rumo ao título.

Além do placar inesperado, o jogo ficou marcado pela terrível lesão facial de Yasser Al-Shahrani já nos minutos finais. Em um lance que lembrou o de Battiston en 1982, o jogador se chocou violentamente com o goleiro… só que, neste caso, foi o do próprio time.

O fogo amigo gerou fratura na face, na mandíbula e dentes quebrados, e exigiu uma cirurgia de urgência para frear os sangramentos internos.

O próprio príncipe herdeiro saudita Mohammed Bin Salman mandou um avião privado para transportar Al-Shahrani até a Alemanha, onde ele foi operado. O jogador se recuperou e segue atuando, mas não foi convocado para a Copa de 2026.

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