Compulsão alimentar pode piorar com remédios para emagrecer

Nas últimas décadas, os avanços na farmacoterapia para obesidade e transtornos alimentares trouxeram novas possibilidades de tratamento — mas também novos riscos.

Medicamentos como os agonistas do receptor GLP-1 (semaglutida, liraglutida e tirzepatida) e estimulantes como a lisdexamfetamina ganharam notoriedade por sua capacidade de induzir perda de peso ou reduzir episódios de compulsão alimentar.

No entanto, quando falamos de transtornos alimentares — como o Transtorno de Compulsão Alimentar Periódica (TCAP), a bulimia nervosa e a anorexia nervosa — a introdução precoce de medicamentos, sem tratamento psicoterapêutico adequado, pode agravar o quadro clínico em vez de melhorá-lo.

A psicoterapia como primeira linha de tratamento

Estudos recentes reforçam que a primeira linha de tratamento para o TCAP não é medicamentosa, mas sim baseada em abordagens psicológicas, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), intervenções psicoeducativas e programas estruturados de autoajuda.

Essas estratégias abordam as causas emocionais da compulsão alimentar — muitas vezes relacionadas a traumas, baixa autoestima ou dificuldades de regulação emocional — e promovem mudanças sustentáveis no comportamento alimentar.

Somente quando essas abordagens se mostram insuficientes é que a introdução de medicamentos, como a lisdexamfetamina (única aprovada especificamente para TCAP nos EUA e no Brasil), pode ser considerada.

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Risco do uso precoce de medicamentos

O uso direto de medicamentos com potencial anorexígeno — incluindo os injetáveis para emagrecimento — gera preocupações, especialmente quando o paciente apresenta distorções de imagem corporal ou histórico de transtorno alimentar.

Um indivíduo com sinais iniciais de anorexia ou bulimia pode recorrer a esses fármacos por conta própria, experimentar uma perda de peso rápida e, a partir disso, desencadear um transtorno alimentar em sua forma plena.

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Da mesma forma, pacientes com TCAP que utilizam medicamentos antes de compreender as causas de sua compulsão podem apenas mascarar os sintomas temporariamente, sem modificar os fatores psicológicos subjacentes.

Isso aumenta o risco de recaídas ou de substituição do comportamento, como uso abusivo de laxantes, vômitos induzidos ou dietas restritivas extremas.

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Foco no emagrecimento pode reforçar distorções

Para pacientes com anorexia ou bulimia, o foco no emagrecimento reforça justamente a lógica distorcida que sustenta o transtorno.

Muitos desses indivíduos não precisam perder peso — ao contrário, já apresentam índice de massa corporal (IMC) perigosamente baixo. Nesses casos, é essencial trabalhar a percepção corporal, o medo de engordar e os comportamentos compensatórios antes de considerar qualquer intervenção farmacológica.

Cuidado integral

Tratar primeiro — compreender o quadro clínico, acompanhar a evolução e oferecer escuta qualificada — é o que permite resultados mais duradouros e a prevenção de riscos iatrogênicos, aqueles induzidos pelo próprio tratamento.

Nos transtornos alimentares, o medicamento pode ter papel coadjuvante, mas nunca deve substituir o processo terapêutico baseado no cuidado, na escuta e na abordagem multidisciplinar que cada paciente merece.

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*Bacy Fleiltich-Bilyk é psiquiatra, especialista em transtornos alimentares, mestre e doutora (PhD) em Psiquiatria da Infância e Adolescência pelo King’s College London

(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

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