Os dilemas do protetor solar: o que é mito e o que é verdade sobre os filtros

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Uma ideia antes improvável ganhou força nas redes sociais e se infiltrou no debate público: a rejeição ao protetor solar.

De fato, nem todo mundo gosta de passar o filtro ou mantém o ritual de aplicá-lo diariamente, mas era raro encontrar alguém contestando sua importância em defesa da pele. Até agora.

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No último ano, influenciadores, celebridades e até profissionais encorparam um movimento contra o filtro solar, plantando dúvidas sobre o papel de uma das medidas consagradas na prevenção do câncer e do envelhecimento precoce.

Uma das porta-vozes da controversa tendência é a modelo Isabella Fiorentino, que revelou ter abandonado o produto há seis anos. Uma atitude, segundo ela, que teria sido “decisiva” para curar seu melasma.

Em vez do creme, a influencer passou a usar óleos vegetais no rosto e, acredite, se expôs ao sol do meio-dia — o mais perigoso, de acordo com os dermatologistas.

Fiorentino ainda alegou, fazendo coro à onda contra os protetores, que os frascos contêm substâncias químicas nocivas e prejudicam a capacidade de o corpo “se adaptar” aos raios do sol. Faz sentido?

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A top model teria sido instruída e inspirada, na realidade, por recomendações de Roseli Siqueira, esteticista e cosmetóloga que se apresenta como especialista em produtos naturais e atende uma clientela estrelada, como a cantora Fafá de Belém e a atriz Cleo Pires.

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Mais recentemente, o movimento que elegeu o protetor como vilão encontrou terreno fértil entre o público mais jovem. Em plataformas como TikTok e Instagram, a hashtag #NoSunscreen (sem filtro solar) soma milhões de visualizações, impulsionada por influenciadores da geração Z e figuras internacionais como as atrizes Kristin Cavallari e Sam Faiers.

No meio deste ano, mais lenha foi jogada na fogueira: um escândalo na Austrália fez fabricantes de 18 marcas de protetor suspenderem as vendas após um órgão do governo identificar que muitos não ofereciam o fator de proteção (FPS) alegado no rótulo. No caso mais extremo, o produto prometia FPS 50, mas entregava apenas 4.

“A desconfiança geral é alimentada pela eclosão de episódios como esse”, avalia o dermatologista Thales Bretas, do Rio de Janeiro. “Mas foi um caso isolado. O problema é que as pessoas juntam informações fora de contexto, algumas de fontes duvidosas, e acabam concluindo que os protetores não são seguros”, lamenta o médico, que combate mitos em suas redes sociais.

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Foi nesse contexto turbulento que a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu, pela primeira vez, o cuidado com a pele como uma prioridade de saúde pública — um marco que colocou a radiação solar, onipresente e inevitável, no centro das discussões.

A própria entidade incluiu filtros solares com FPS 50 na sua Lista Modelo de Medicamentos Essenciais, classificando-os como medida vital para prevenir tumores, e não mais apenas como cosmético.

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Não existe saúde geral sem saúde da pele. Por isso é essencial combater a desinformação crescente sobre proteção solar”, endossa Carlos Barcaui, presidente da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

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Para desmitificar de vez essa história, faremos um mergulho nas nossas células, na interação delas com o sol, nos ingredientes dentro dos tubos e na raiz dessa difamação toda. A seguir, você confere:

  • Como a luz solar interage com a nossa pele
  • As defesas do corpo humano contra o excesso de luz solar
  • O impacto biológico e cultural do sol
  • A origem do protetor solar
  • Movimento anti-protetor: como o filtro solar passou de salvador a vilão
  • Protetor solar tem disruptores endócrinos?
  • Filtros solares podem fazer mal à fígado e rins?
  • Óleo vegetal na pele é melhor que protetor solar?
  • Filtro solar piora melasma?
  • Protetor é prejudicial ao meio ambiente?
  • Filtro solar pode causar câncer de pele?
  • Novas tecnologias e personalização: as tendências do protetor
  • O real problema da proteção solar
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(Foto: Bruno Marçal/Veja Saúde)

Como a luz solar interage com a nossa pele

Se quisermos entender por que a proteção solar é indispensável, queiram os influencers ou não, precisamos abraçar um paradoxo que envolve a relação do nosso corpo com o sol: ele é o motor da vida na Terra e a melhor fonte natural de vitamina D, mas também um elemento agressor.

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A luz solar compreende, na verdade, um espectro complexo: há os raios UVA, UVB, UVC, luz visível, infravermelho, com variações na dose de energia, na profundidade de penetração na pele e em seu impacto nas células.

Enquanto a camada de ozônio que evolve a Terra nos protege do UVC, somos diariamente expostos ao UVA e ao UVB, que atravessam a atmosfera em proporções diferentes ao longo do dia e das estações do ano. E, sim, interagem diretamente com a pele.

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Os raios UVB atingem camadas mais superficiais e participam da produção de vitamina D, mas em excesso também alteram o DNA dos queratinócitos, as células à flor da pele mais expostas à radiação. É desse contato que brotam vermelhidão, inflamação e queimaduras — e despontam doenças no longo prazo.

Já o UVA penetra mais fundo, alcançando a derme e causando danos silenciosos e cumulativos a proteínas estruturais, como o colágeno e a elastina. Ou seja, é quem induz o envelhecimento precoce.

Além disso, esses raios provocam o aparecimento de radicais livres, moléculas que podem provocar mutações genéticas capazes de dar origem a um câncer.

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Não acabou. A luz visível, incluindo a chamada “luz azul”, pode estimular a hiperpigmentação, gerando manchas, enquanto o infravermelho produz calor e amplifica processos inflamatórios.

O excesso de UVA é danoso para todos os fototipos de pele, já o UVB é pior para pessoas de pele clara, enquanto a luz visível pode prejudicar ainda mais pessoas de peles escuras”, detalha a dermatologista Lilia Guadanhim, membro da SBD.

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(Foto: Bruno Marçal; Design: Letícia Raposo/Estúdio Coral/Veja Saúde)

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As defesas do corpo humano contra o excesso de luz solar

A grande questão é que recebemos essa radiação toda junta e misturada.

E isso aciona diversos mecanismos de defesa do corpo: entram em ação a barreira cutânea, a melanina (pigmento que causa o bronzeado), os antioxidantes internos e outros sistemas de reparo celular.

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Acontece que esses recursos têm limites, e a soma de pequenas agressões diárias pode superá-los com facilidade. E é pela falta de equilíbrio entre a quantidade de radiação que ultrapassa e o que a pele consegue neutralizar que se desenha a necessidade da proteção (e do protetor) solar.

Na verdade, essa necessidade vem de muito antes da invenção do filtro ou das roupas que blindam contra raios UV.

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O impacto biológico e cultural do sol

As várias tonalidades de pele são uma resposta direta à ação do sol. Pois é, a cor original do homem era escura.

Mas, à medida que os grupos populacionais migraram para fora da África e se fixaram em outras latitudes, ocorreram adaptações genéticas favoráveis à sobrevivência em cada local.

Assim, em regiões com alta incidência de luz solar (próximas à linha do Equador), a pele escura, rica em melanina, se manteve, pois protege contra os raios UVB. Em áreas com baixa incidência de luz solar (como no norte das Américas e da Europa), a pele clara permitiu uma melhor absorção dos raios UV disponíveis.

Uns ganharam resguardo contra lesões cutâneas, outros garantiram a síntese de vitamina D, que previne o raquitismo e outros problemas. A natureza, ao longo de milhares de anos, conseguiu se regular.

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Mas esse delicado equilíbrio foi alterado com o desenvolvimento das sociedades humanas, a imigração, a miscigenação, a medicina, novos hábitos e tecnologias, entre diversos outros fatores.

“A ponto de, hoje, definitivamente, nenhum indivíduo responder da mesma forma ao sol”, diz o dermatologista Elimar Gomes, coautor do Consenso Latino-Americano de Fotoproteção.

“Existem pessoas brancas que se queimam em dez minutos de exposição, ficando vermelhas e não produzindo nenhuma melanina. E existem aquelas que conseguem se bronzear e ficar mais tempo expostas. E isso varia de acordo com a genética de cada um, um componente que não podemos mudar nessa vida”, completa o especialista.

Ocorre que, muito além da evolução natural, existem as transformações culturais, e elas incidiram, ao longo da história, sobre quão positivo ou negativo era queimar-se ao sol.

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No Ocidente, a relação entre cor de pele, exposição solar e status social oscilou durante os séculos. A tez pálida já indicou riqueza: mostrava que a pessoa não precisava labutar ao ar livre.

Com a Revolução Industrial, porém, a brancura tornou-se comum entre a classe trabalhadora europeia, que passava o dia nas fábricas. De modo que o bronzeado da elite passou a simbolizar o alto padrão e o privilégio de quem tinha tempo e dinheiro para o lazer e viagens ensolaradas.

Já no século 20, reza a lenda que o culto ao bronze disparou quando a estilista francesa Coco Chanel acidentalmente pegou uma cor durante um cruzeiro.

A indústria da moda adorou, e aquele tom dourado virou uma tendência que perduraria, com ou menos excessos, durante muito tempo.

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A origem do filtro solar

Foi pouco depois dessa moda, ainda na década de 1920, que surgiram os primeiros filtros solares modernos.

Mas só após a Segunda Guerra Mundial, quando muitos soldados retornaram com queimaduras severas e outros problemas decorrentes da alta exposição solar, é que a pesquisa e o interesse por essa classe de produtos começaram a ganhar força.

Em 1956, foram definidos os primeiros testes para determinar o que seria conhecido como fator de proteção solar. O químico austríaco Franz Greiter criou o termo SPF (sun protection factor), o equivalente em inglês ao nosso FPS, que representa a defesa contra raios UVB.

a proteção contra os raios UVA foi inventada em 1980, com o surgimento do primeiro filtro capaz de bloquear esse tipo de radiação. Hoje, essa proteção é expressa por siglas como UVA-PF, PPD ou PA+, que, por regulamentação, precisam corresponder a pelo menos um terço do valor do FPS.

Só que, mesmo passando em testes de eficácia e segurança, os filtros encontraram barreiras para o uso diário. As principais ainda hoje são o incômodo cosmético, a criação e manutenção do hábito e o custo.

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(Design: Letícia Raposo/Estúdio Coral/Veja Saúde)

Benefícios ninguém discute. A literatura científica é unânime em mostrar que a aplicação regular de protetor solar reduz significativamente o risco de câncer de pele.

“Fora que o protetor é a única coisa que previne o envelhecimento cutâneo de verdade”, afirma Guadanhim.

Para a dermatologista, usar protetor solar deveria ser um hábito tal qual escovar os dentes: “Passar protetor só quando a gente vai à praia é a mesma coisa que só escovar os dentes quando come chocolate. Não faz sentido!”, compara a médica.

“Da mesma forma, não adianta começar a escovar apenas depois dos 40 anos, o estrago já estará feito. Com o protetor, o raciocínio é semelhante.”

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Movimento anti-protetor: como o filtro passou de salvador a vilão

Ok, mas por que então esse produto louvado pelos experts e pela OMS virou alvo de tanta desconfiança e ataque na internet?

Negacionistas sempre existiram, é verdade. Mas a nova onda começou a entrar em fervura a partir de 2019, após a agência regulatória dos Estados Unidos (FDA) avaliar a absorção de ingredientes ativos presentes em filtros solares do mercado — os filtros químicos oxibenzona, avobenzona, octocrileno e ecamsule.

Os resultados, publicados no periódico da Associação Médica Americana (Jama), deram o que falar: após um único dia de uso, as concentrações sanguíneas de todos eles ultrapassaram o limite proposto pelo FDA de 0,5 ng/ml.

No caso da oxibenzona, ingrediente com maior grau de absorção, algumas pessoas tinham níveis acima de 200 ng/ml. O que isso significa?

“Os filtros orgânicos mais antigos, como os que foram avaliados, são feitos de moléculas pequenas e que, portanto, têm maior chance de atravessar a pele e resultar em traços na corrente sanguínea. Mas isso não quer dizer nada, não há evidência de que causem um malefício para o usuário”, responde o dermatologista Sérgio Schalka, coordenador do Consenso Brasileiro de Fotoproteção.

Segundo a conclusão da própria análise americana, os achados não indicam que os indivíduos deveriam deixar de usar protetor solar”, prossegue o médico.

E tem outra: Schalka pontua que a maioria dos filtros solares vendidos no Brasil nem se vale mais desses componentes mais antigos na formulação.

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(Foto: Bruno Marçal; Design: Letícia Raposo/Estúdio Coral/Veja Saúde)

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Protetor solar tem disruptores endócrinos?

Dessa mesma discussão escoou a suspeita de que protetores solares poderiam conter disruptores endócrinos, substâncias que interferem na ação de hormônios.

A narrativa não é nova: em 2001, um experimento com ratas que ingeriram filtros orgânicos via oral por quatro dias mostrou repercussões do gênero. Mas, ainda na época, um comitê europeu de segurança apontou limitações metodológicas e ponderações: a dose administrada era muito superior à exposição humana real.

“Considerando uma pessoa que aplique protetor solar todos os dias na quantidade ideal, ela precisaria de 277 anos para atingir a mesma carga que as ratas receberam pela boca”, esclarece Schalka. Só que houve quem distorcesse os fatos depois.

Mas o movimento de repúdio ao filtro solar não parou aí. Começou a lançar também questionamentos sobre a presença de parabenos e ftalatos, compostos que poderiam desregular os hormônios, sobretudo em crianças.

O ponto, aqui, é que essa não é uma questão restrita aos protetores; ela envolve o setor de dermocosméticos em geral.

“Como a criança tem uma barreira cutânea mais permeável e, portanto, absorve mais os produtos, é preciso ter atenção redobrada. Mas isso não derruba a recomendação de usar o protetor solar a partir dos 6 meses de idade”, afirma a médica Jade Cury, presidente da SBD Regional São Paulo.

“O ideal, nesse caso, é dar preferência às versões infantis e com mais componentes inorgânicos”, completa.

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Filtro solar pode fazer mal a fígado e rins?

Em meio a essa polêmica, plantou-se também a hipótese de que ingredientes dos protetores poderiam sobrecarregar os rins e o fígado. Novamente, uma ideia sem lastro científico.

“O mesmo estudo da FDA de 2019 sobre absorção sanguínea não identificou sinais de toxicidade hepática ou renal nos exames dos pacientes”, observa Gomes.

O dermatologista explica que a absorção dos protetores solares se restringe, em boa parte, às camadas da pele, e que as baixas concentrações que chegam à circulação passam por etapas de transformação no fígado e excreção pelos rins, como acontece com tantas outras substâncias, incluindo medicamentos.

“Nossos órgãos são preparados para lidar com pequenas quantidades dessas moléculas”, diz o médico.

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Óleo vegetal na pele é melhor que protetor solar?

Mesmo com defesas sólidas e argumentos que refutam mal-entendidos, o baque na reputação dos protetores solares foi grande. E surgiram as supostas alternativas, amparadas em todo tipo de conclusão e argumento.

Uma delas é a tese de que os antigos povos do Mediterrâneo e da Polinésia, que usavam óleos vegetais — como de oliva e coco — na pele, seriam uma prova de que os métodos “naturais” funcionam e são mais saudáveis. Tese facilmente derrubável.

“Não era o óleo que protegia essas populações, mas uma combinação de fatores, como características genéticas, inclusive pele mais morena, e hábitos adaptados ao ambiente”, destrincha Gomes.

“Hoje nada justifica substituir protetores solares formulados, testados e validados. Embora produtos naturais possam até ter propriedades antioxidantes e hidratantes, seu fator de proteção é extremamente baixo”, adverte o dermatologista, também ligado à SBD. Quão baixo? Experimentos sugerem FPS menor que 2.

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Filtro solar piora melasma?

Ah, mas protetor solar pode manchar a pele e causar melasma, como pregam influenciadores. No entanto, não há sequer plausibilidade biológica para essa alegação.

Melasma é causado pelo sol, pelo seu calor e claridade. Ninguém deve se expor ao meio-dia sem proteção, e inclusive usar protetor da forma correta é crucial no tratamento”, contrapõe Guadanhim.

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Protetor é prejudicial ao meio ambiente?

Tudo bem, se mal não faz à saúde humana, o filtro solar pode ser prejudicial aos mares e corais, rebaterão os críticos de olho no ambiente.

Vejamos. Algumas pesquisas até apontaram que ingredientes mais antigos, como a oxibenzona, teriam impacto em altas concentrações. Mas os filtros mais modernos não seguem esse caminho.

Estudos atuais apontam que nem 10% deles são removidos com enxágue, o que reduz drasticamente a liberação dessas substâncias nas redes de esgoto e oceanos.

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Filtro solar pode causar câncer de pele?

Por último, entre todas as acusações descabidas apresentadas nas redes, a mais absurda é a de que, em vez de prevenir, são os protetores solares que causam câncer de pele.

Deixamos esse tópico por último porque ele se escora em argumentos perniciosos. Eis a narrativa: nunca se usou tanto protetor na história, e as taxas de tumores cutâneos seguem altas.

Sim, um em cada três cânceres no planeta acomete a pele. Mas não tem cabimento culpar o produto.

“Esse aumento se deve à maior incidência de raios UV com o buraco na camada de ozônio, mais poluição e estresse cutâneo, diagnósticos mais precisos, envelhecimento populacional e uso incorreto do próprio filtro”, enumera Cury.

Por tudo isso e mais um pouco, não, o protetor solar não causa câncer de pele.

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Novas tecnologias e personalização: as tendências do protetor

Se usado do jeito adequado, é fato que o filtro solar diminui o risco de encarar o câncer. Uma tarefa na qual os filtros estão inclusive se aperfeiçoando com o desenvolvimento tecnológico.

“Agora contamos com uma nova molécula que preenche uma lacuna e ajuda a cobrir melhor o espectro dos raios UVA ultralongos, que correspondem a 30% dessa radiação”, conta Natalia Harnam, diretora de comunicação científica do Grupo L’Oréal no Brasil, fazendo referência ao ativo Mexoryl 400.

Os dermatos elogiam a iniciativa. “É muito positivo ver esse investimento em ampliar e otimizar a proteção solar”, avalia Schalka.

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(Fotos: Divulgação/Veja Saúde)

A personalização dos filtros é outra grande tendência, tanto que agora é comum ver fórmulas desenhadas de acordo com a condição da pele.

“Existe um investimento alto em tecnologias que, além da proteção solar, propiciem melhoras globais para a pele dos pacientes”, nota a dermatologista Ana Coutinho, head da área médica da marca Isdin.

“Foram anos de pesquisa para desenvolver o Eryfotona, pois, além do FPS 99, ele tem uma enzima que ajuda na reparação do DNA que sofreu mutação pelo sol, o que é bem-vindo a quem tem maior risco de câncer de pele”, ilustra a especialista, também membro da SBD.

“Já o FotoUltra Redness, desenvolvido para pessoas com rosácea, carrega uma composição ideal para diminuir a agressão e ao mesmo tempo reduzir o flush, a vermelhidão tão comum nessa condição”, dá outro exemplo.

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(Fotos: Divulgação/Veja Saúde)

Ciente de que é alvo de ataques, a indústria dermocosmética também vem se envolvendo mais em estudos e ações para demonstrar a relevância do protetor solar.

No último congresso europeu de dermatologia, em Paris, a Kenvue, fabricante de marcas como Neutrogena e Sundown, apresentou uma pesquisa que calculou quanto o uso consistente de protetor solar poderia reduzir em gastos na saúde pública. Ao longo de cinco anos, seriam cerca de 2,5 bilhões de reais.

O relatório aponta que, em 15 anos, mais de 110 mil casos de câncer de pele não melanoma poderiam ser evitados. São contas que impactam a expectativa e a qualidade de vida de inúmeros cidadãos.

“Algumas pessoas subestimam os cânceres de pele não melanoma por não serem, em geral, letais, mas eles podem ser bem desfigurantes”, alerta a epidemiologista Ubirani Otero, do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

“Muitos pacientes perdem parte da orelha, do nariz ou até mesmo o olho na remoção de carcinomas que surgem nessas regiões”, justifica.

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(Fotos: Divulgação/Veja Saúde)

O real problema da proteção solar

Mas, se os protetores validados em testes são seguros e eficazes, nós, os usuários, também temos que fazer nossa parte. E é aí que surge um problema bem real.

Para desfrutar do efeito estampado no rótulo, o filtro precisa ser utilizado na quantidade certa — 2 mg/cm² no rosto e pescoço, ou uma colher de chá, por exemplo — e ser reaplicado ao longo do dia.

Em exposição direta, a regra é clara: repassar a cada duas horas. Em rotina de escritório, o mínimo é aplicar pela manhã e novamente antes do horário do almoço.

A regra das colheres

A quantidade certa de protetor solar para rosto e corpo pode ser simplificada em colheres de chá: 1 colher para rosto e pescoço, 2 colheres para cada membro (braço e perna), e 2 para o tronco (frente e costas), totalizando cerca de 9 colheres de chá para o corpo todo

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Mas uma coisa é a teoria, outra a prática.

Levantamentos mostram que a maioria das pessoas usa menos que a metade do que é necessário e, ainda assim, acredita estar resguardada, gerando uma falsa sensação de segurança e mais exposição.

“Acredito que ainda falhamos na forma de comunicar sobre proteção solar”, afirma Maurício Baptista, professor do Instituto de Química da USP e estudioso da radiação UV.

“O filtro solar, o chapéu e os óculos são ferramentas que ajudam, mas todo mundo deve, intrinsecamente, evitar o excesso de exposição, porque é ele que faz mal”, aponta.

Gomes está de acordo: “Proteção solar consciente é reduzir risco de doenças, e isso se faz não ficando sob o sol por tempo prolongado e evitando totalmente a exposição no pico do meio-dia”, recomenda.

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(Design: Letícia Raposo/Estúdio Coral/Veja Saúde)

No fim, o dilema maior não é demonizar nem mesmo endeusar o sol ou o protetor solar. É poder tomar decisões conscientes e equilibradas com base em informação confiável. Isso definitivamente nunca vai sair de moda.

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