“É preciso reaprender a sofrer”, defende psiquiatra sobre a medicalização da vida

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Segundo estudo realizado pela The School of Life, organização que se dedica ao ensino da inteligência emocional, o uso de remédios psiquiátricos quase triplicou entre trabalhadores brasileiros de um ano para outro.

Se, em 2024, 18% dos chefes e 21% dos empregados tomavam algum remédio para aplacar sofrimentos psíquicos, em 2025, os níveis chegaram a 52 e 59%, respectivamente.

O abuso de medicações e o excesso de diagnósticos são, para o psiquiatra Daniel Martins de Barros, sintomas de que “precisamos reaprender a sofrer”, como sintetiza em seu novo livro, Sofrimento Não É Doença: Nem Todas as Dores Precisam de Remédio, Mas Todas Merecem Cuidados (Sextante – clique aqui para comprar).

Com uma capa que simula a caixa de um medicamento tarja preta, a obra defende o uso racional de fármacos por aqueles que convivem com transtornos mentais e orienta formas sustentáveis de lidar com aflições que fazem parte da vida, com soluções que vão muito além das pílulas.

Daniel Martins de Barros é psiquiatra, bacharel em filosofia e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)
Daniel Martins de Barros é psiquiatra, bacharel em filosofia e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) (Leonardo Ramos/Divulgação)

VEJA SAÚDE: Quais tipos de inquietação chegaram ao seu consultório e inspiraram esse livro?

Daniel Martins de Barros: A inspiração veio mais do olhar para a sociedade, para a vida, do que propriamente para a clínica. Normalmente, quando as pessoas chegam ao consultório de um psiquiatra, elas estão realmente doentes. Mas, fora dele, existe uma confusão.

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Há quem trate como doença sofrimentos que não são doença, procurando por diagnósticos e tratamentos desnecessários. Acontece que os recursos da medicina não aliviam várias das aflições que fazem parte da vida, então a pessoa fica desorientada.

Existe também o problema contrário, que eu também trato no livro: a pessoa que está realmente doente e não sabe. Ela acha que a doença é um mero sofrimento, quando, na verdade, precisa receber um diagnóstico e ter acesso ao tratamento.

Esses dois fenômenos acontecem e me mobilizaram a escrever a obra.

Como podemos diferenciar o que é normal ou patológico quando o assunto é sofrer?

A doença tem uma série de critérios. De forma geral, ela implica uma alteração do funcionamento do organismo. Pode ser a perda de capacidade, de flexibilidade ou de adaptação física e mental — corpo e mente nunca estão desconectados.

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Esses distúrbios tendem a ser duradouros, e, além disso, o que diferencia o sofrimento da doença é que a última é, sim, passível de intervenção e tratamento. 

Um dos pontos que o senhor critica no livro é a indústria do wellness, que lucra cerca de 6,3 trilhões de dólares ao ano com soluções para problemas que, muitas vezes, nem existem. Ainda assim, ela atrai o interesse de milhões de pessoas. Por quê? 

O apelo está em prometer acabar com qualquer sofrimento. O problema é que, muitas vezes, ela se aproxima do discurso médico, dizendo que o sofrimento deriva da falta ou do excesso de algo e que precisa de uma intervenção específica. Também usam a linguagem médica para dar um verniz de cientificidade e autoridade aos produtos.

Acredito que, para sanar muitas das aflições que essa indústria se propõe a solucionar, é preciso resgatar estratégias que temos perdido ao longo da história: buscar suporte, compartilhar dores, conversar, encontrar uma narrativa que dê sentido à experiência, criar uma história em que o sofrimento não seja caótico

Hoje, quais sofrimentos são mais confundidos com doenças?

A solidão é um exemplo, com caráter epidêmico e de saúde pública. Assim como o sedentarismo, ela pode parecer inofensiva, mas faz mal. Hoje, a modernidade permite o isolamento, diferentemente do passado, em que o convívio era inevitável.

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Outro exemplo é o luto. É uma dor pungente que pode se assemelhar à depressão. Sem recursos para dar sentido a isso, ele pode se estender e até se tornar um transtorno. Mas ele, em si, não é uma doença, é um sofrimento pelo qual vamos todos passar.

Vivemos em uma sociedade individualista e, como você disse, solitária, que, com o passar do tempo, foi perdendo tradições e rituais. Isso se reflete na nossa atual dificuldade em processar a dor? Estariam no coletivo algumas soluções para essas aflições?

Com certeza. Os rituais dão sentido ao que estamos vivendo, trazem estrutura — começo, meio e fim. Ajudam a organizar os caminhos. Eles oferecem conforto e propósito.

Sendo coletivos, permitem dividir dores e cuidar uns dos outros. A sociedade urbanizada valoriza menos esses rituais, e isso faz falta.  

Fora a medicina, a que podemos recorrer para aplacar essas dores?

A espiritualidade pode ser muito bem-vinda quando fornece rituais e sentidos que ajudam a entender o que acontece como parte de algo maior, o que é reconfortante. Além disso, ela insere a pessoa em uma rede de suporte.

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A religião radical e opressora, porém, pode ser prejudicial e afastar de um tratamento necessário aqueles que estão doentes.

Podemos também dizer que a arte não é terapia, mas é terapêutica. Ela pode distrair no melhor dos sentidos: ajudando a seguir a vida apesar do sofrimento. Estar em contato com diferentes formas de arte nos permite ver que não estamos sozinhos, já que o sofrimento é parte da experiência humana. Essa sensação de compartilhamento pode ser um grande alívio.

Como quebrar o estigma sobre a saúde mental para quem precisa mas tem medo de procurar ajuda? 

É preciso mostrar que transtorno mental não tem relação com caráter ou força moral. Outros profissionais de saúde também têm que falar sobre isso, não só psiquiatras e psicólogos. A abordagem ativa do sofrimento autoriza a pessoa a se sentir acolhida.

Sofrimento Não É Doença

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Sofrimento Não É Doença: Nem Todas as Dores Precisam de Remédio, Mas Todas Merecem Cuidados

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