Naomi Oreskes: a mulher que revelou o maior esquema negacionista da história

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Em 2010, os historiadores da ciência americanos Naomi Oreskes e Erik Conway publicaram um livro com uma denúncia devastadora.

Depois de uma longa investigação, com direito à análise de milhares de documentos, eles expuseram como a indústria do petróleo estava empregando estratégias e recrutando cientistas e agências de relações públicas para negar os impactos comprovados da emissão de dióxido de carbono e outros gases no aquecimento global.

O esquema, que vigorou durante anos em prol do cigarro, envolvia veja saúde janeiro 2026 a contratação dos mesmos atores que questionaram as ameaças do fumo à saúde humana, confundindo governantes e sociedade.

A tática foi utilizada, tempos depois, pelo setor de combustíveis fósseis para desacreditar as mudanças climáticas e se esquivar de sua relação inequívoca com o problema.

Essa denúncia — e a defesa de uma ciência pautada por ética — está no cerne de Mercadores da Dúvida (clique aqui para comprar), obra que ganha edição no Brasil pela Quina. Um livro que não perdeu sua atualidade. Muito pelo contrário, como diz a autora à VEJA SAÚDE.

Mercadores da Dúvida

Mercadores da Dúvida: como um pequeno grupo de cientistas distorceu fatos que vão do tabagismo às mudanças climáticas

Mercadores da Dúvida: Como um Pequeno Grupo de Cientistas Distorceu Fatos que Vão do Tabagismo às Mudanças Climáticas

 

Quinze anos depois de sua publicação nos Estados Unidos, Mercadores da Dúvida está mais relevante do que nunca? 

Sim, com certeza. E por pelo menos dois motivos. Primeiro, tivemos a COP30 ocorrendo no Brasil em 2025. Então pare e pense um pouco sobre isso. É a 30ª vez que líderes globais se reúnem para tentar fortalecer a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, e eles não conseguiram obter êxito em 30 anos. E acho que agora sabemos bem o porquê.

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A indústria de combustíveis fósseis e os produtores de petróleo fizeram de tudo para bloquear qualquer tipo de acordo significativo. Toda vez que estamos prestes a chegar a um termo expressivo, vemos uma enorme resistência para tentar sabotá-lo.

Esse tem sido o padrão nas últimas décadas. E o outro motivo óbvio da relevância do livro se chama Donald Trump. Sem querer dourar a pílula, os mercadores da dúvida agora comandam o governo dos EUA. Temos negacionistas nos mais altos escalões. 

E o que isso implica na prática? 

Já estamos vendo líderes empresariais dizendo “Ah, o aquecimento global não é tão ruim assim”. E testemunhamos as indústrias recuando de suas promessas de redução das emissões com uma desculpa atrás da outra.

Os argumentos são diversos, inclusive o de que “precisamos de mais energia por causa da inteligência artificial”. São desculpas para negar a realidade, a gravidade e a urgência do problema. 

O livro expõe como a mesma estratégia usada pela indústria do cigarro — e inclusive os mesmos atores — foi utilizada pelo setor de combustíveis fósseis. Foi a revelação mais chocante desse trabalho? 

Veja, a ciência que explica os efeitos do tabaco no corpo é totalmente diferente da ciência das mudanças climáticas. São especialistas diferentes que lidam com esses temas. Eis que encontrávamos as mesmas pessoas, que não tinham experiência alguma em pesquisas sobre câncer, epidemiologia e saúde pública, tentando negar dados comprovados de que o tabaco era letal.

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Então essa foi a grande descoberta que fizemos. E as pessoas continuam ficando chocadas com o fato de que os mesmos cientistas, as mesmas agências de relações públicas e as mesmas empresas de publicidade que estiveram envolvidas com o tabaco repetem suas táticas com as mudanças climáticas. 

Foi isso que os motivou a mergulhar nessa investigação? 

Até então, nós realmente não sabíamos, não sabíamos de jeito nenhum, da conexão entre a negação das mudanças climáticas e as estratégias da indústria do tabaco.

Quando descobrimos essa conexão, pensamos que tínhamos um livro para escrever. Porque não era apenas uma história sobre as peculiaridades do aquecimento global.

Na época, discutia-se que as pessoas simplesmente não entendiam a ciência, que a ciência climática era um tanto quanto complicada. Mas, quando fizemos essa descoberta gigantesca, mostramos que não se tratava apenas de ciência. 

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Quando olhamos para os protagonistas de Mercadores da Dúvida, um grupo de cientistas que trabalhava para as indústrias do tabaco e dos combustíveis fósseis, a impressão que se tem é que eles atuavam mais por ideologia do que por dinheiro. Faz sentido esse diagnóstico? 

Sim, totalmente. Essa foi a outra grande descoberta do livro. Queríamos entender por que esses homens faziam aquilo. Afinal, eram cientistas, certo? Não eram executivos de empresas. Parecia que estavam traindo a causa à qual dedicaram a própria vida.

A maioria das pessoas pode presumir que a resposta era dinheiro, mas nós estávamos abertos a outras possibilidades. E, quando acessamos os arquivos e analisamos os documentos, não encontramos tantas evidências de que o dinheiro fosse a principal motivação deles. Descobrimos que a motivação era muito mais ideológica. 

Como a senhora resumiria essa ideologia que faz pessoas com carreiras sólidas se dedicarem a negar os riscos do tabagismo e as próprias mudanças climáticas? 

Nós a chamamos de fundamentalismo de mercado. É a ideia de que o livre-mercado — uma terminologia que questionamos — é eficiente, sábio e funciona bem, de que a sua mão invisível guia os melhores resultados sempre. Portanto, qualquer regulamentação governamental seria um erro.

É uma ideologia muito poderosa e difundida, mas que ganhou um elemento extra no contexto dos mercadores da dúvida: a concepção de que, além da eficácia econômica, o livre-mercado também protege a liberdade política.

E isso se tornou um segundo argumento contra a regulação pelos governos. Um argumento potente e político, no qual as pessoas passaram a acreditar especialmente depois do fim da Guerra Fria. Mas a história mostra que essa não é a verdade.

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“Na questão das mudanças climáticas, o dinheiro graúdo estava do lado que negava a ciência, enquanto que, na empreitada das vacinas para covid, esteve do lado da ciência”, afirma Naomi Oreskes (Ana Elisa Granziera/Veja Saúde)

Os cientistas contratados pelas indústrias do tabaco e do petróleo levaram isso a ferro e fogo? 

Esses homens eram cientistas da Guerra Fria. Acreditavam que o trabalho deles durante o conflito entre os Estados Unidos e a União Soviética havia ajudado a conter o comunismo e a proteger o país. Na cabeça deles, a regulamentação pelo governo era uma espécie de porta dos fundos para o comunismo. Esse argumento político e ideológico justificaria o que fariam.

Meu ponto é o seguinte: podemos discutir sobre quão eficientes são os mercados. É uma questão legítima. Mas, independentemente de sua opinião sobre isso, não há desculpa para mentir sobre a ciência. Não há desculpa para deturpar as evidências científicas.

E, se temos problemas reais, precisamos descobrir como solucioná-los, não negar que eles existam. Esse foi o passo dado pelos mercadores da dúvida que tornou suas posições e ações inaceitáveis. 

Em que medida esse modus operandi influenciou até mesmo os rumos da COP? 

A COP é dominada pelos interesses da indústria de combustíveis fósseis. Seu uso é maior do que nunca, e as emissões, inclusive de CO₂, continuam elevadas.

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Sim, fizemos progressos importantes em relação às fontes de energia renovável. Mas o que vimos é que ela foi adicionada à matriz energética, não substituiu os combustíveis fósseis. Continuamos dependentes deles e impulsionando a crise climática. 

Quão otimista ou pessimista a senhora é em relação aos planos que podem ser concretizados após a COP30 realizada no Brasil?

Essa é uma pergunta que me fazem o tempo todo, e eu costumo responder que não, não estou completamente sem esperanças nem vou para o meio do mato me matar a menos que alguém limpe toda a bagunça. Isso não é socialmente aceitável de se dizer.

Mas eu não acho que temos motivos racionais para otimismo agora. É algo controverso de se dizer, porque existe uma enorme pressão para permanecermos otimistas, para que as pessoas não desistam.

E eu concordo plenamente que não devemos desistir, mas passar uma falsa sensação de segurança ou de esperança não é algo realmente útil.

Mas qual é a saída?

Eu me alinho com o filósofo americano Roy Scranton, que defende o que ele chama de pessimismo ético. Acho que temos que ser realistas sobre o que estamos enfrentando.

Estamos lutando contra forças incrivelmente poderosas que provaram, nos últimos 15 anos, que farão quase tudo para preservar o status quo do qual se beneficiam. Estamos numa situação muito difícil, e todos somos vítimas. E, embora a indústria de combustíveis fósseis tenha a maior parcela de responsabilidade, o problema não pode ser restrito a ela. Precisamos pensar seriamente sobre o que podemos fazer para mudar a situação, porque o que fizemos até aqui não funcionou. 

Então como evitar que o discurso baseado nesse pessimismo ético não recaia nos argumentos dos negacionistas das mudanças climáticas? Precisamos mudar o formato de iniciativas como a própria COP? 

Sim, concordo com vocês sobre esse risco, o que é muito ruim. O processo da COP é obrigatório pelos termos da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Então a ONU teria que se reunir e decidir fazer algo diferente, e isso pode ser politicamente inviável. Mas eu acredito que o processo da COP falhou.

Ele foi cooptado por interesses ligados aos combustíveis fósseis. Basta olhar para onde aconteceram as últimas reuniões. Em países produtores de petróleo.

Então, se algo não está funcionando, é preciso admitir isso e tentar outra coisa. Porque acho um desperdício de tempo, dinheiro e capital humano ficar se reunindo, sendo que poderíamos nos concentrar mais no que pode ser feito nos níveis local, estadual ou nacional.

Passamos tempo demais focados num acordo internacional porque, na convenção de 1992, esse parecia ser o caminho a seguir. E, na ocasião, foi possível assinar um acordo incrível, modelado em grande parte no sucesso do Protocolo de Montreal, que protege o planeta da destruição da camada de ozônio.

Contudo, o mundo mudou e, mais de 30 anos depois, não dá para fingir que isso funcionou. Precisamos pensar em alternativas.

A solução passa por ações mais regionalizadas? 

Olha, há muitas pessoas no Brasil que se preocupam com a Amazônia. Há muita gente na América do Norte que não quer ver enchentes cada vez piores e mortais. Há muitas pessoas ao redor do mundo preocupadas com os incêndios florestais e os problemas de agitação civil que podem ser desencadeados pela seca.

Então acho que, se canalizarmos a urgência do problema para uma esfera mais local, aquela em que a vida das pessoas está sendo afetada e todo mundo vê, podemos ser mais bem-sucedidos.

Porque não precisamos de cientistas para nos dizer que o clima está mudando. Já faz uns três anos que não temos inverno aqui na Nova Inglaterra. Ver as mudanças acontecendo durante a nossa vida pode se tornar um fator de empoderamento.

Nos últimos 30 anos, estivemos direcionados para um grande tratado global. E o fato é que mudanças políticas, sociais e econômicas podem acontecer e funcionar em níveis diferentes, sobretudo locais.

Onde os mercadores da dúvida continuam mais na ativa hoje?

Bem, a indústria de combustíveis fósseis continua na ativa. Ela mudou, claro, até porque os argumentos de dez anos atrás não podiam ser mais os mesmos de hoje.

Agora estamos vendo muita publicidade enganosa, na minha opinião, em torno da captura e do armazenamento de carbono e mesmo sobre a utilidade dos biocombustíveis.

Ainda estamos vendo toda uma narrativa de que a indústria de combustíveis fósseis faz parte da solução do problema climático.

Um aluno de pós-graduação elaborou um gráfico fantástico para um trabalho que mostra as emissões globais de carbono e a real capacidade de captura e armazenamento. E essa capacidade é tão pequena que mal dá para mostrar no slide. Só que a indústria alega estar tomando medidas significativas para obter subsídios fiscais. É uma grande fraude. 

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“A COP é dominada pelos interesses da indústria de combustíveis fósseis. Seu uso é maior do que nunca, e as emissões de CO₂ continuam elevadas” (Ana Elisa Granziera/Veja Saúde)

Um setor que consome cada vez mais energia é o da inteligência artificial (IA). Como enxerga isso?

Sim, hoje vemos empresas dizendo que precisamos encontrar formas de atender à demanda de energia da IA. Como se a IA tivesse vida própria, como se não a tivéssemos inventado e não a controlássemos.

Estão criando uma narrativa de que a IA é inexorável e imparável e, portanto, temos de satisfazer suas exigências energéticas. É como se fosse um monstro. O Godzilla. Mas não precisamos seguir nessa direção.

Precisamos fazer escolhas. Acontece que a narrativa dominante da IA vira uma desculpa para reabrir usinas nucleares ou termelétricas a carvão e expandir a geração de gás, ao mesmo tempo que se diz que a energia renovável é insuficiente para subsidiá-la.

E esse é outro argumento problemático. As energias renováveis agora são mais baratas que os combustíveis fósseis. Então, quando você vê uma vitória das energias renováveis, chega a demanda da IA e mudam o discurso. Sempre que alguém nos diz que não temos escolha a não ser fazer X, é prudente soar o alarme.

Por falar em tecnologias, qual é a sua opinião sobre o papel das redes sociais no negacionismo científico? 

A grande questão aqui me parece ser a regulamentação. As corporações por trás das redes sociais estão tentando dizer: “Não, não podem nos regular, isso será prejudicial, inclusive para a economia”. Ou vêm com o argumento de que só eles entendem e, portanto, são capazes de se regular. Isso é completamente ridículo.

Somos inteligentes o suficiente para compreender como essas tecnologias funcionam de uma forma geral e certamente inteligentes para entender o que as pesquisas já mostram sobre os danos que estão sendo causados, particularmente aos mais jovens, seja pela interação de chatbots, seja pelos jogos de aposta virtuais, seja por problemas de identidade e autoestima.

Temos um caso clássico de interesses conflitantes. As empresas têm o interesse de promover sua tecnologia, que julgam lucrativa; o público tem o interesse em garantir que ela não cause danos.

E, à medida que surgirem evidências de que há risco de prejuízos para os usuários, devemos regulamentá-la como um produto que pode ser prejudicial.

Desde a pandemia, os mercadores da dúvida também vêm atacando as vacinas, não? 

Vimos claramente que os argumentos contra o uso de máscaras e o distanciamento social na pandemia, assim como o discurso antivacina, vinham dos mesmos círculos de pessoas que se opunham às regulamentações e à ideia de que o governo está nos dizendo o que devemos fazer.

Veja, todo mundo quer ter autonomia e tomar as decisões sobre a própria vida. Mas quando essas decisões impactam a saúde, a segurança e até a sobrevivência de outras pessoas, aí o governo precisa intervir. É para isso que ele serve, não?

Mas, mesmo com o desenvolvimento de vacinas seguras e eficazes de forma ágil, depois vimos as mesmas pessoas se opondo a elas em nome da liberdade individual. 

Mas dá para dizer que as vacinas da covid venceram, concorda? 

Nesse caso, havia uma diferença em relação a outras histórias que acompanhamos. O dinheiro graúdo estava do lado das vacinas. Ora, na questão das mudanças climáticas, o dinheiro está do lado da indústria de combustíveis fósseis, ou seja, do lado que veio negando a ciência. Enquanto que, na empreitada das vacinas, o dinheiro estava do lado da ciência.

E é por isso que as coisas se desenrolaram de forma diferente. Se o dinheiro graúdo estivesse do lado da rejeição à vacina, então teríamos visto milhões de pessoas a mais morrerem.

Em outras palavras, a crise de saúde pública teria sido muito pior se a indústria farmacêutica tivesse se alinhado à negação da ciência.

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