Entre o cuidado e a coragem: ser mulher, mãe e profissional de saúde

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Escolher trabalhar com saúde nunca foi, para mim, uma decisão baseada em estética ou performance. Desde a minha primeira graduação em Educação Física, sempre enxerguei o exercício como ferramenta de saúde e prevenção. Cresci em uma família da área da saúde e, talvez por isso, o cuidado sempre tenha sido algo natural na minha trajetória. Cuidar não apenas do sintoma, mas da pessoa.

Com o tempo, minha formação foi ganhando novas camadas. O contato com a manipulação fascial em uma aula despertou uma curiosidade que mudaria meu caminho profissional.

A partir dali, aprofundei meus estudos, fiz formação em Rolfing, concluí o mestrado na Faculdade de Medicina da USP, no Departamento de Fisiopatologia Experimental, e me especializei em dor pelo Hospital Israelita Albert Einstein. Em cada etapa, fui entendendo que informação qualificada é uma das formas mais poderosas de cuidado.

A fáscia, estrutura que reveste e conecta todo o corpo, tornou-se um dos meus principais focos de estudo. Ela organiza o movimento tridimensional, transmite força e participa da forma como sentimos o próprio corpo.

Falar sobre isso, produzir conteúdo responsável e ampliar o acesso à informação faz parte da minha missão como profissional. Informação não substitui avaliação individual, mas empodera. E empoderar também é cuidar.

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Ser mulher na saúde: entre a entrega e o limite

Ao longo da minha formação e atuação clínica, aprendi que ser mulher na área da saúde envolve desafios que vão além da técnica. Existe uma expectativa silenciosa de disponibilidade constante, de excelência permanente, de equilíbrio inabalável. Mas nós também somos humanas.

Hoje, vivendo a maternidade com uma filha de cinco meses, essa compreensão ganhou outra dimensão. A maternidade não é um detalhe da minha vida profissional. Ela transforma minha percepção de tempo, de prioridade e de vulnerabilidade. Há noites mal dormidas, há cansaço, há culpa – e há também uma força que eu não conhecia antes.

Conciliar consultório, estudo, atualização científica e a rotina da casa com a presença ativa na vida de uma bebê exige organização, apoio e, sobretudo, autocompaixão. E muitas vezes nem mesmo há uma rede de apoio estruturada.

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Muitas mulheres também não têm com quem contar, e isso aumenta ainda mais a sobrecarga física e emocional. Não existe romantização possível quando falamos da realidade de tantas mulheres que acumulam papéis. Existe esforço, aprendizado e adaptação diária.

Cuidar do outro começa por reconhecer o próprio limite

Talvez a maior lição desse momento da minha vida seja entender que cuidado não combina com exaustão permanente. Não podemos defender saúde ignorando nossos próprios limites. Como profissional que atua com dor, vejo diariamente o impacto do estresse crônico e da sobrecarga no corpo das pessoas – especialmente das mulheres.

O Dia Internacional da Mulher, para mim, não é apenas uma celebração. É um convite à reflexão. Sobre como podemos oferecer cuidado de qualidade sem nos anularmos. Sobre como a informação séria e baseada em ciência pode proteger, orientar e transformar. E sobre como a maternidade, longe de fragilizar a trajetória profissional, pode ampliar nossa sensibilidade e nossa responsabilidade.

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Ser mulher é integrar múltiplas dimensões – força e fragilidade, técnica e emoção, entrega e limite. Na minha profissão e na minha vida, sigo aprendendo que o verdadeiro cuidado é aquele que considera o corpo, a mente e a história de cada pessoa. Inclusive a minha.

Monica Schapiro é fisioterapeuta e membro Brazil Health

(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

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