Daniel Becker: “Argumentos artificiais são criados para justificar a cesárea”

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Chega a ser injusto tratar o pediatra Daniel Becker como um influencer, mas é fato que seu rosto se tornou muito conhecido nas plataformas digitais.

Antes de fazer vídeos dando dicas e desmentindo notícias falsas, o médico carioca já era figurinha carimbada de movimentos em prol da primeira infância e da saúde pública, como a criação da Estratégia Saúde da Família, modelo de atenção primária à saúde que se tornou padrão no país.

Agora, ele reúne o conhecimento adquirido em décadas de carreira no livro Os 1000 Dias do Bebê (Planeta – Clique para comprar), escrito em parceria com a jornalista Rita Lisauskas.

A obra trata de todos os aspectos do início da vida, da pré-concepção ao terceiro aniversário, janela de tempo fundamental para o desenvolvimento infantil e a promoção do bem-estar físico e mental no longo prazo.

Em entrevista exclusiva, Becker explica por que os primeiros 1 000 dias são tão cruciais e como esse período está ameaçado pela desinformação e outros males da vida moderna, como a exposição precoce aos celulares e tablets.

Confira a seguir primeira parte do bate-papo, focada na gravidez e na importância da primeira infância, a seguir. A segunda parte pode ser conferida neste link.

VEJA SAÚDE: Por que os primeiros 1 000 dias são tão decisivos para a criança?

Daniel Becker: Eles são o momento mais intenso de desenvolvimento do ser humano. Não existe nenhum período parecido com ele mais tarde. E o curioso é que essa ideia não está disseminada entre a população.

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Em uma pesquisa realizada pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, a maioria dos respondentes disse acreditar que o pico de desenvolvimento ocorre na vida adulta, a partir dos 18 anos — quando, na verdade, os sistemas cerebrais já estão amadurecidos.

O que acontece com o cérebro no início da vida?

É claro que o cérebro muda o tempo todo, ele tem uma plasticidade, como a gente chama, mas a estruturação das principais formas de funcionamento do nosso organismo se dão nos primeiros 1 000 dias.

No cérebro, são 1 milhão de sinapses [transmissão de informações entre neurônios] por segundo nessa fase. Então todas as experiências que o bebê viver serão marcantes para o resto da vida. As positivas vão deixar marcas muito benéficas e as negativas podem deixar marcas muito prejudiciais. Isso tem um grande impacto no destino de um ser humano.

Pode dar exemplos?

A gente sabe, por exemplo, que a violência sofrida na infância, de qualquer tipo — abuso sexual, gritos, palmadas etc. —, tem um efeito nocivo no futuro. Isso é medido estatisticamente: são adultos com maior risco de doenças crônicas, problemas de saúde mental, uso de drogas, conflitos com a lei, desafios de empregabilidade… É impressionante.

Veja, não há nada de determinismo ou fatalismo aqui. “Ah, eu errei na minha infância, meu filho está condenado.” Não, não é assim também.

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E qual é a diferença que isso faz não apenas para a criança, mas para a sociedade como um todo?

A própria Constituição prioriza a primeira infância, e o Brasil tem ótimas políticas públicas nesse sentido — elas só precisam ser expandidas.

Os países que investem em um bom início da vida tem um retorno significativo, algo já calculado por James Heckman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia. Ele diz que, para cada dólar investido, o país ganha 7 dólares. Porque os resultados em termos de saúde física, mental, aquisição de capacidades e cidadania são tão grandes que você evita gastos lá na frente com violência, hospitais, programas de transferência de renda etc.

É preciso cuidar muito bem das crianças, e para isso a gente precisa de informação de qualidade, coisa rara hoje em dia.

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Falando nisso, o novo livro tem 600 páginas e abrange praticamente todos os pontos da gestação e da primeira infância. Por que escrevê-lo em uma época em que há tanta informação disponível online?

Justamente por causa disso. Porque essa informação vem das redes sociais, de forma autoritária, fragmentada e desconectada do contexto do país, e muitas vezes recheada de interesses comerciais.

Muita gente está ali vendendo ideias e serviços que não são corretos, não são embasados em ciência, não têm a ver com a nossa cultura e podem ser até nocivos para as famílias. Então alguém vai dizer: “Ah, você não pode deixar seu filho chorando de jeito nenhum”. E outro diz: “Deixa chorar até ele dormir”. É cheio de coisas desse tipo.

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É preciso ter uma fonte confiável para dar segurança e tranquilidade aos pais e mães. Na internet tem coisas boas? Tem, tem material excelente, tem sites da melhor qualidade. Só que acabam sendo pouco consultados e a gente sente falta da informação num bloco concreto, palpável.

Quais são os pontos mais críticos do cuidado com o bebê durante a gestação?

Na gravidez, trabalhamos muito com o conceito de epigenética, que é o impacto do ambiente na expressão dos genes do DNA, o que influencia em diversos aspectos da saúde física e mental.

E essa influência começa mesmo antes da gestação, com a saúde dos próprios pais, seu controle do estresse, se eles se cuidam… Se a grávida consegue manter um nível de tranquilidade, tem suporte, faz um bom pré-natal, conta com um parceiro ou parceira que a apoia totalmente e evita substâncias tóxicas, já vai fazer muita diferença para o filho no futuro.

No livro, você fala que as gestantes até sabem que o parto natural é o mais saudável, mas que ainda assim é muito difícil não optar pela cesárea. Por quê?

Essa é uma questão complexa. Há muitos fatores socioeconômicos envolvidos. Por exemplo: a gestante que tem plano de saúde ou mais poder aquisitivo quer que o seu médico particular faça o parto.

E é claro que esse médico não vai parar o consultório dele para esperar horas pelo nascimento. O que acontece? Argumentos artificiais começam a ser criados para justificar a cesárea.

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Que tipo de argumento?

Que o cordão umbilical está enrolado no bebê, que ele não desceu o suficiente, que as 40 semanas já passaram e pode haver riscos. Enfim, os mais diversos.

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Isso cria uma cultura de medo do parto normal, enquanto a cesárea é mais conveniente, mais rápida, mais prática e lucrativa para o hospital. Se dissemina que o parto natural é nocivo, mas é o contrário: ele é, quando bem-feito, mais seguro e tem inúmeras vantagens.

Quais vantagens?

Crianças que nascem de parto natural têm menos alergia, obesidade, diabetes… Além disso, ele é importante para a criação do vínculo mãe, bebê e pai, um momento de êxtase, prazer e ao mesmo tempo de sofrimento.

Isso une profundamente o casal e marca o início da família, da tríade que está nascendo ali. O pós-parto pode ser mais complicado com a cesárea, e os cálculos para dizer se o bebê está pronto muitas vezes estão errados. Enfim, claro que ela pode ser boa e necessária, já salvou provavelmente bilhões de vidas, mas precisa ser bem indicada.

E o que pensa sobre o parto domiciliar?

Eu, pessoalmente, preferiria ter uma estrutura hospitalar por trás, caso tivesse um filho hoje. Mas o que as estatísticas mostram é que, com bom acompanhamento e fácil acesso ao hospital caso necessário, ele também é seguro.

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(Ilustrações: Cajila Barbosa/Veja Saúde)

O que ainda falta para mais mulheres conseguirem amamentar conforme as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS), que recomendam aleitamento até os 2 anos?

Amamentação não é fácil. A gente mistifica, até romantiza, e de fato ela pode ser natural para muitas mulheres, mas para tantas outras é bem difícil. A mãe pode ter leite de mais, de menos, questões no mamilo, pode estar cansada, sobrecarregada, não ter um parceiro presente ou rede de apoio, cuidar de outros filhos…

E há ainda os fatores relacionados ao bebê, que pode não ter uma boa pega e machucar o seio da mãe. Então ambos precisam de ajuda. Mas, na prática hoje, quando há dificuldade, ainda na maternidade a mãe já recebe a indicação de usar a fórmula láctea. Isso destitui o desejo e a própria capacidade de essa mulher amamentar.

Só que, pelo contrário, ela deveria ser apoiada e orientada desde o nascimento.

Confira a segunda parte da entrevista clicando aqui.

Os 1000 Dias do Bebê

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