Hospital no interior de Minas, conhecido pelo “Holocausto Brasileiro”, fecha as portas

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Um dos locais mais sombrios da história da saúde mental no Brasil fechou definitivamente suas portas na última segunda-feira (25).

O Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, no interior de Minas Gerais, transferiu seus últimos 14 internos para uma nova unidade mantida pelo poder municipal, encerrando as atividades após 123 anos.

Mais conhecida pelo seu antigo nome de Hospital Colônia, a instituição se tornou infame ao longo do século 20 como o maior manicômio do país, convivendo com repetidas denúncias de superlotação e maus tratos que frequentemente levavam à morte das pessoas ali internadas.

As violações de direitos humanos registradas em Barbacena foram chave para o movimento antimanicomial avançar no país.

Por que Holocausto Brasileiro?

Criado em 1903, o Hospital Colônia surgiu como uma instituição destinada a atender e tratar pessoas com distúrbios psiquiátricos, mas logo viu esse objetivo se deturpar.

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Nas décadas seguintes, a superlotação se tornou uma constante, assim como o descaso e a violência deliberada contra os pacientes.

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Longe de ser um local de acolhimento, o manicômio rapidamente se tornou uma espécie de “depósito” de pessoas, muitas das quais sequer tinham um diagnóstico formal de transtornos mentais.

A internação compulsória poderia atingir qualquer um que fosse considerado socialmente “indesejável”, sem fiscalização adequada sobre os motivos que o levaram até ali, nem um caminho para deixar o local de maneira regular.

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Inúmeros testemunhos destacam que o recinto acabou servindo como uma maneira de apartar da sociedade pessoas com deficiências físicas ou intelectuais, homossexuais, ativistas políticos inconvenientes aos poderosos da época, pessoas em situação de rua e até mesmo mulheres que perderam a virgindade antes do casamento.

Maus tratos e descaso levaram a dezenas de milhares de mortes no manicômio de Barbacena (Luiz Alfredo/Reprodução)
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Com tanto descaso, as mortes se acumularam.

No livro-reportagem “Holocausto Brasileiro“ (2013), que popularizou a expressão para se referir ao que ocorreu em Barbacena, a jornalista Daniela Arbex calcula que 60 mil pessoas podem ter morrido enclausuradas no Hospital Colônia.

Em um somatório de violações à dignidade humana, os corpos de parte das vítimas chegaram a ser vendidos – sem consentimento – para pesquisas em universidades.

Na década de 1970, os horrores do Hospital Colônia começaram se tornar cada vez mais conhecidos para além de seus muros, e comparações do local com um campo de concentração do regime nazista, bem como o seu holocausto (genocídio sistemático de judeus), se tornaram recorrentes.

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A história da instituição foi parar, ainda, nas telas, com o documentário “Holocausto Brasileiro”, da HBO, lançado em 2016, e a série ficcional “Colônia”, da Globoplay, de 2021.

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Marco da luta antimanicomial

O hospital de Barbacena se tornou um exemplo do que a luta antimanicomial buscava combater no país e, conforme os entendimentos sobre saúde mental foram mudando, a instituição também começou a ser adaptada e desativada gradualmente a partir dos anos 1980.

A lenta desinstitucionalização dos pacientes foi intensificada nos últimos anos, com a transferência para residenciais terapêuticos e unidades específicas de acordo com as necessidades.

Vista aérea de um complexo de edifícios antigos com telhados de cerâmica laranja, cercado por árvores e gramados verdes. Ao fundo, uma cidade e colinas com mais construções e vegetação. O céu está claro e ensolarado
Museu da Loucura funciona no prédio do antigo Hospital Colônia (Prefeitura Municipal de Barbacena/Reprodução)
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O grupo final, transferido nesta semana, era composto por 14 idosos com uma média de idade de 73 anos – o mais velho tem 91. Parte deles vivia no local desde a adolescência.

A desativação do antigo Hospital Colônia de Barbacena ocorreu pouco após do Dia Nacional da Luta Antimanicomial, observado em 18 de maio.

Apesar do encerramento das atividades do hospital como um local de internação, seu fechamento não significa um apagamento do passado.

No local, seguirá funcionando o Museu da Loucura, instituição criada em 1996 e dedicada a recuperar a história da psiquiatria no país, com ampla documentação sobre o que ocorreu em Barbacena nas décadas anteriores.

Com entrada franca, o local recebe visitantes de terça a domingo, das 9h às 17h, e às segundas-feiras, das 13h às 17h.

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