O abraço que inaugura a vida: contato pele a pele transforma os primeiros minutos do bebê

Os primeiros minutos após o nascimento representam uma das fases mais delicadas e importantes da vida humana. É nesse curto intervalo de tempo que o organismo do bebê precisa se adaptar rapidamente a um ambiente completamente diferente do útero materno.

Respirar sozinho, regular a temperatura corporal, estabilizar os batimentos cardíacos e iniciar a alimentação são apenas alguns dos desafios desse início de vida.

Nas últimas décadas, a medicina neonatal passou a compreender que um gesto aparentemente simples pode desempenhar papel decisivo nesse processo: o contato pele a pele imediato entre o recém-nascido e quem amamenta.

Hoje, organizações como a Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) recomendam que, sempre que possível e seguro, o bebê seja colocado diretamente sobre o peito da mãe logo após o nascimento, permanecendo ali por pelo menos a primeira hora de vida.

Esse contato precoce vai muito além do vínculo emocional. Ele produz efeitos fisiológicos concretos e mensuráveis.

O corpo da mãe ajuda o bebê a se adaptar ao mundo

Ao nascer, o bebê sai de um ambiente aquecido e protegido para um cenário completamente novo. Nesse momento, o contato pele a pele funciona quase como uma extensão natural do útero.

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Estudos mostram que o corpo da mãe ajuda a regular a temperatura do recém-nascido de forma extremamente eficiente. Há pesquisas indicando inclusive que a temperatura do tórax materno pode variar automaticamente alguns graus para aquecer ou resfriar o bebê conforme a necessidade.

Além disso, o contato direto contribui para estabilizar a frequência cardíaca, melhorar a oxigenação e reduzir os níveis de estresse neonatal.

O recém-nascido reconhece o cheiro, a voz e os batimentos cardíacos da mãe, elementos que já faziam parte da sua experiência intrauterina. Isso reduz a liberação de hormônios relacionados ao estresse e favorece uma transição mais tranquila para o ambiente externo.

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Em prematuros, os benefícios podem ser ainda mais significativos. O chamado método canguru, amplamente utilizado em unidades neonatais, já demonstrou associação com menor risco de infecções, melhora do ganho de peso e redução da mortalidade neonatal em determinados grupos.

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O início da amamentação começa nesse momento

Outro aspecto importante é o impacto direto do contato pele a pele sobre a amamentação.

Quando o recém-nascido é colocado sobre o tórax da mãe logo após o parto, diversos reflexos naturais são ativados. Muitos bebês conseguem, inclusive, se deslocar espontaneamente em direção à mama e iniciar a sucção ainda na primeira hora de vida.

Esse processo favorece a chamada “pega correta”, aumenta as chances de aleitamento materno exclusivo e contribui para uma produção mais eficiente de leite.

Além disso, o contato estimula a liberação de ocitocina, hormônio relacionado tanto à ejeção do leite quanto ao fortalecimento do vínculo afetivo.

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Diversos estudos publicados nos últimos anos mostram que mães que realizam contato pele a pele precoce tendem a apresentar maiores taxas de amamentação mantida nos meses seguintes.

Mas os efeitos não se limitam à nutrição. Esse momento também ajuda na construção da segurança emocional do bebê e na conexão entre mãe e filho.

Benefícios que podem durar anos

A ciência ainda busca compreender totalmente os impactos de longo prazo desse contato inicial, mas os dados disponíveis são bastante promissores.

Pesquisas sugerem associação entre o contato pele a pele precoce e melhores indicadores de desenvolvimento neuroemocional, redução de episódios de choro excessivo, melhora da qualidade do sono e até menor resposta ao estresse nos primeiros anos de vida.

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Também existem evidências de benefícios para a saúde mental materna, incluindo menor risco de ansiedade e depressão pós-parto em alguns casos.

É importante destacar que nem sempre o contato imediato é possível. Algumas situações clínicas exigem cuidados prioritários para a mãe ou para o bebê. Ainda assim, sempre que houver segurança médica, essa prática deve ser estimulada e valorizada.

Porque, muitas vezes, um dos cuidados mais sofisticados da medicina moderna começa justamente com aquilo que parece mais simples: um abraço ainda nos primeiros minutos de vida.

*Ana Horovitz, ginecologista e membro da Brazil Health.

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(Este texto foi produzido em uma parceria exclusiva entre VEJA SAÚDE e Brazil Health)

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