Perda da visão pode estar perto de ser revertida: o que já é possível hoje?

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Já não é preciso enxergar tão longe para ver esperança frente a um dos grandes desafios da história da oftalmologia: reverter a cegueira.

Um número crescente de inovações científicas vem deixando a medicina cada vez mais próxima de cruzar um limite até então intransponível, oferecendo uma chance para pessoas com deficiência visual voltarem a vislumbrar luzes, letras, paisagens e o mundo.

Por isso, nesta matéria, você vai ler sobre:

  • O que a ciência já conseguiu fazer para o tratamento da cegueira
  • As principais causas da perda de visão, reversíveis e irreversíveis
  • As tecnologias mais promissoras, como terapia gênica, córneas artificiais e implantes biônicos
  • Os limites atuais da medicina e desafios de acesso
  • O que vem pela frente, incluindo pesquisas com células-tronco e outras apostas do futuro
  • E os cuidados para preservar a saúde dos olhos

Confira a seguir:

O passado e o futuro

O quebra-cabeça em busca de uma cura para a cegueira é quase tão antigo quanto a própria trajetória da nossa civilização.

Papiros do Egito antigo contam que curandeiros de 3,5 mil anos atrás tentavam recuperar a vista aplicando fígado de boi diretamente no olho.

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Havia certa lógica: a glândula bovina é uma fonte de vitamina A, um dos nutrientes considerados fundamentais para a saúde ocular.

Em particular, ele é responsável por prevenir a chamada “cegueira noturna”, uma piora da visão em condições de pouca luz — mas hoje sabemos que os benefícios vêm da alimentação, não do uso tópico.

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Apesar de diversas tentativas ao longo de milênios, foi só a partir do século 20 que realmente começamos a dar passos importantes rumo à destituição das trevas oculares.

Já podemos, por exemplo, cantar vitória sobre a catarata, uma condição natural com o envelhecimento e responsável por ao redor de 40% dos casos de cegueira no mundo. Mas cegueira reversível na maioria dos casos, graças ao desenvolvimento de uma cirurgia altamente segura e efetiva hoje.

“Você remove a ‘lente natural’ do olho que ficou opaca e coloca uma lente artificial transparente no lugar”, resume a ópera Oswaldo Ferreira Moura Brasil, presidente da Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SBO).

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Para deixar bem claro, a cegueira, que afeta quase 600 mil brasileiros, não é necessariamente uma escuridão total, mas uma perda significativa da acuidade visual que não pode ser corrigida com óculos ou lentes de uso externo.

Enquanto na visão padrão e esperada o sujeito enxerga com nitidez algo que está a 6 metros de distância, o indivíduo com cegueira enxerga um objeto a 6 metros da mesma forma que essa primeira pessoa veria algo a 60 metros.

Se a definição de cegueira é a mesma para todos os casos, nem todos eles têm a mesma origem.

Os oftalmologistas dividem os quadros de deficiência visual em reversíveis, como a popular catarata, e aqueles com consequências potencialmente irreversíveis, situação que inclui o glaucoma, a retinopatia diabética e a degeneração macular relacionada à idade (DMRI).

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E é justamente para esse segundo e desafiador grupo de patologias que novas técnicas estão mais perto de virar realidade.

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Um tratamento inovador que já chegou aos hospitais são os implantes de córneas artificiais. A córnea é o tecido transparente e fino localiza – do na frente do olho, que pode se deteriorar por inúmeros fatores, prejudicando a visão.

Embora a primeira opção nesses casos seja o transplante com uma córnea natural de um doador, nem todos os pacientes são elegíveis ou conseguem recebê-lo sem rejeição.

“Geralmente, a córnea artificial é usada quando há múltiplas falhas de enxerto, quando o olho recusou dois ou mais transplantes”, explica o oftalmologista Gustavo Gameiro, doutor pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A própria Unifesp, aliás, desenvolveu a primeira córnea artificial brasileira, composta de materiais biocompatíveis, titânio e polímero acrílico.

“O Brasil tem mais de 30 mil pessoas esperando por transplante. Se tivermos alternativas que diminuam a necessidade de córnea doadora, será excelente”, projeta o médico.

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Mirando o futuro, em Israel especialistas já implantaram inclusive a primeira córnea artificial 100% projetada por impressão 3D.

O futuro também já começou para a terapia gênica. O primeiro tratamento do gênero, já aprovado no Brasil, corrige um tipo de distrofia da retina ocasionado por uma mutação rara.

O medicamento, que introduz o gene funcional, é aplicado por meio de um procedimento cirúrgico minucioso que exige um descolamento controlado da retina e uma injeção dentro do olho.

“Essas terapias mostram que a oftalmologia deixou de falar apenas em preservar o que resta e passou a testar a restauração da função visual”, observa o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, diretor do Instituto Penido Burnier, em Campinas.

Sob essa premissa, uma das promessas hightech que podem chegar ao mercado nos próximos anos é o implante biônico conhecido como Prima.

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Ele se vale de um chip instalado no fundo do olho que recebe sinais de uma câmera acoplada a um par de óculos e, com a ajuda de luz infravermelha, estimula os sinais nervosos que fazem o cérebro criar a imagem.

Em desenvolvimento há duas décadas, ele avançou com um novo estudo que acompanhou 38 pessoas com degeneração macular — elas apresentavam manchas escuras na visão central que as impediam de ler e reconhecer rostos.

“A resolução melhorou muito em relação à primeira versão. Ainda não é perfeita, mas já aumenta a independência do paciente”, destaca Gameiro

As notícias nos bastidores científicos animam, mas é importante ter em mente que é cedo para decretar o fim da cegueira.

Até porque, se invenções como o implante biônico estão prestes a chegar, outras ideias devem demorar a dar frutos. É o caso do tão comentado uso de células-tronco.

Ele ainda engatinha na oftalmologia. Uma pesquisa pioneira no Japão trouxe resultados promissores, mas acompanhou apenas quatro pessoas.

“É um tratamento que tem avançado mais nas doenças de superfície ocular. No glaucoma e nas doenças de retina, essa abordagem ainda é um desafio”, comenta o oftalmologista Roberto Vessani, presidente da Sociedade Brasileira de Glaucoma (SBG).

São obstáculos de preço, infraestrutura e até de elegibilidade, mesmo para o que já está no mercado.

Considere o caso do Luxturna, a terapia gênica aprovada no país: ela tem um custo alto (2 milhões de reais) e só está disponível para um tipo de mutação genética.

O resultado é que nem mil pessoas receberam o remédio no mundo, mesmo que sua aprovação original, nos Estados Unidos, tenha ocorrido há quase uma década.

Além disso, é preciso moderar as expectativas: nas técnicas já consolidadas, não é possível falar em recuperação plena. “Com implantes, a pessoa consegue perceber luz, contorno, determinadas formas e movimento”, explica Moura Brasil.

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“Para uma pessoa que não enxergava nada, é muita coisa. Mas ainda é como se ela enxergasse em baixa resolução”, compara o presidente da SBO.

Para quadros que afetam o nervo óptico, como o glaucoma, ainda não há perspectiva de recuperar os danos sofridos.

“Ele é a principal causa de cegueira irreversível no Brasil e no mundo e, infelizmente, não tem cura. O que tem é tratamento”, esclarece Vessani.

Só que, neste caso, os cuidados precisam ser contínuos por toda a vida. Check-ups ajudam a identificar os problemas antes que eles se agravem e, no caso de doenças degenerativas ainda irreversíveis, podem colocar um freio na perda visual.

No caso do glaucoma, pode ser tão simples quanto usar um colírio diariamente — mas é preciso se conscientizar da importância de adotar esse ritual mesmo sem apresentar sintomas.

E, a despeito de ter ou não um diagnóstico, uma mensagem precisa ficar cristalina. “Enxergar mal não é normal, nem com a idade.

Quando a perda visual se instala, ela também rouba autonomia, segurança, renda, vínculo e dignidade”, afirma Queiroz Neto.

“Hoje, o maior risco não é não ter tratamento, mas perder a janela de oportunidade para tratar”, reforça o especialista. Uma lição que continuará valendo mesmo quando as promessas contra a cegueira vierem à luz.

As principais novidades

(Design: Laura Luduvig/ilustração Felipe Del Rio/Veja Saúde)

Terapias gênicas

O medicamento Luxturna é uma das primeiras terapias gênicas aprovadas pela Anvisa.

O público-alvo são pessoas com perda de visão causada por um quadro raro chamado distrofia hereditária da retina associada a uma mutação no gene RPE65.

Administrado por médicos especializados através de uma injeção no olho, o tratamento (cujo nome técnico é voretigeno neparvoveque-rzyl) está disponível no Brasil desde 2020 e traz benefícios atrelados à melhora da mobilidade e autonomia do paciente.

Mas é caríssimo: a dose custa cerca de 2 milhões de reais.

Disponível em cerca de 50 países, estima-se que o Luxturna por enquanto só chegou a pouco mais de 500 pessoas no mundo, devido à raridade do quadro, ao preço elevado e à necessidade de cuidados sofisticados para aplicação e acompanhamento posterior.

Mas há quem diga que essa é só a primeira geração do que virá nos próximos anos.

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Ilustração em fundo verde mostra um olho humano estilizado com íris verde usando um dispositivo preto semelhante a um óculos com câmera, conectado por um fio a um controle na parte inferior; ao lado, um círculo ampliado exibe a visão com distorções, marcada por linhas verticais e leve desfoque, sugerindo uma falha visual ou efeito de interferência digital.
(Design: Laura Luduvig/ilustração Felipe Del Rio/Veja Saúde)

Implante biônico

Uma das opções com mais jeitão de ficção científica, o Prima é um implante biônico indicado para pacientes com degeneração macular seca avançada, no estágio conhecido como atrofia geográfica.

Um chip de cerca de 2 milímetros é implantado sob a retina. Sem fios, o dispositivo é conectado a óculos especiais com câmera, que captam o campo de visão.

As imagens então são processadas por um computador e projetadas pelos próprios óculos como luz infravermelha, atingindo o implante.

Uma vez lá, o chip converte a luz em impulsos elétricos, que estimulam as células da retina e seguem ao cérebro, onde são interpretadas como se fossem algo que a pessoa enxergou por conta própria.

Em um primeiro ensaio clínico, 80% dos pacientes apresentaram melhora na acuidade visual e conseguiram ler letras, números e palavras — casos até então inéditos de recuperação da visão perdida devido à atrofia geográfica.

Há expectativa de que chegue ao mercado americano em um ou dois anos.

Ilustração abstrata mostra desenho de um globo ocular, com íris da cor verde. A imagem apresenta falhas digitais propositalmente, com partes distorcidas e cores desalinhadas, como se estivesse corrompida. Ao redor do olho, estão pequenas bolas, que representam células.
(Design: Laura Luduvig/ilustração Felipe Del Rio/Veja Saúde)

Tratamento com células-tronco

Nesse campo que ainda dá seus primeiros passos clínicos na oftalmologia, células-tronco podem ser reprogramadas para regenerar o tecido da córnea. A membrana original e prejudicada é retirada, e as novas células são inseridas no lugar.

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Um teste pioneiro no Japão teve seus resultados publicados: quatro pessoas com deficiência visual grave foram submetidas ao tratamento e tiveram melhora dos sintomas e da qualidade de vida em um acompanhamento que se estendeu por 52 semanas.

Três delas, inclusive, tiveram ganho significativo da visão até o final dos testes; o quarto, que apresentava um estado mais grave, também teve avanços, mas eles acabaram sendo temporários.

Foi um pontapé para o uso de células-tronco, conhecidas por ajudar na renovação e no reparo dos tecidos, contra problemas que levam à cegueira.

Agora, o objetivo é demonstrar a segurança e a eficácia da técnica em estudos mais amplos.

Ilustração abstrata mostra desenho de um globo ocular, com retina da cor verde. A imagem apresenta falhas digitais propositalmente, com partes distorcidas e cores desalinhadas, como se estivesse corrompida. À frente do olho, se aproximando dele, flutua uma lente, representando a aplicação da córnea artificial.
(Design: Laura Luduvig/ilustração Felipe Del Rio/Veja Saúde)

Córnea artificial

É uma opção sintética para pacientes que tiveram mais de uma rejeição ao transplante tradicional.

O processo começa com a montagem da prótese, etapa em que o cirurgião faz uma espécie de “sanduíche” biotecnológico: um anel feito com uma córnea doadora atua como suporte, entre uma placa frontal transparente e outra posterior, geralmente feita de titânio ou plástico.

Já no olho, a porção central da córnea opaca é removida para dar lugar ao implante, que é fixado com uma sutura. No pós-operatório, é preciso fazer uso vitalício de colírios antibióticos e anti-inflamatórios.

Os resultados são promissores: em média, pacientes com 1% de acuidade visual antes do procedimento chegam a aumentar esse número para até 30% após um ano com a chamada ceratoprótese de Boston (KPro), o modelo mais utilizado atualmente.

Em Israel, cientistas fizeram no ano passado o primeiro teste com córnea totalmente projetada por bioimpressão 3D.

Cuidados atemporais

Mesmo com os avanços da ciência, a prevenção e o diagnóstico precoce continuam imprescindíveis

Check-up

Visitar um oftalmologista regularmente é a melhor maneira de flagrar problemas cedo e monitorar a evolução de doenças oculares.

Óculos de sol

Não basta ter lente escura: para prevenir danos de longo prazo causados pela radiação solar, os óculos devem contar com proteção contra raios ultravioleta.

Lentes de contato

Elas contornam uma porção de problemas hoje, mas, quando mal higienizadas, transformam-se num perigo aos olhos. Siga as regrinhas de higiene.

Estilo de vida

Alimentos ricos em antioxidantes ajudam a prevenir alterações nos olhos, mas não pare na dieta: sedentarismo, tabagismo e álcool só pioram a vida dos olhos.

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Descanso de telas

Difícil escapar delas, mas siga a regra 20-20- 20: a cada 20 minutos, passe 20 segundos olhando para um objeto a pelo menos 20 pés (6 metros) de distância.

Controle de doenças

A saúde do olho não é separada da do resto do corpo. Se deixados sem tratamento, problemas crônicos como diabetes e hipertensão irão financiar a perda visual.

TABELA QUE REPRODUZIR O TEXTO ANTERIOR.
(Design: Laura Luduvig/ilustração Felipe Del Rio/Veja Saúde)

O que acaba com a visão

Quase dois terços dos casos de cegueira no mundo se devem a algum destes cinco problemas abaixo

Catarata

É a principal causa de cegueira, respondendo por 40% dos casos. Mas, com as tecnologias atuais, também é considerada totalmente reversível, por meio de cirurgia e laser.

Glaucoma

Provoca danos irreversíveis ao nervo óptico pelo aumento da pressão intraocular. Colírios e laser podem frear o quadro, mas a doença é silenciosa e nem sempre detectada

Erros refrativos

Miopia, hipermetropia, astigmatismo e presbiopia são corrigidos facilmente com óculos, lentes ou cirurgia. Mas, sem tratamento, também podem levar à cegueira.

Degeneração macular

Relacionada ao avançar da idade, ela afeta a parte central da retina. Como o nome sugere, o envelhecimento é o grande culpado, mas o cigarro é o maior fator de risco modificável.

Retinopatia diabética

Sem um controle glicêmico adequado, pacientes com diabetes podem ter danos nos vasos sanguíneos que irrigam a retina: vazamentos e bloqueios que geram perda visual.

TABELA QUE REPRODUZIR O TEXTO ANTERIOR.
(Design: Laura Luduvig/ilustração Felipe Del Rio/Veja Saúde)

Moscas volantes

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