Por que a derrota do Brasil na Copa “dói” de verdade, segundo a ciência

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Não teve jeito: após perder chances de todos os tipos, inclusive um pênalti, o Brasil sentiu o faro artilheiro de Erling Haaland e foi eliminado da Copa do Mundo de 2026 pela Noruega, neste domingo, 5, após perder por 2 a 1 em Nova Jersey.
O fim precoce de mais uma jornada pelo Hexa (o Brasil não caía tão cedo numa Copa desde 1990) também trouxe muita tristeza a torcedores de todas as idades, que já nem sabem quando verão a Seleção disputar a sério um título mundial novamente.
Com a derrota, o Brasil confirma que passará ao menos 28 anos sem erguer a taça, seu maior jejum da história.
Se você é apaixonado por futebol e ainda está lidando com a frustração da queda, saiba que a dor emocional que você está sentindo não é bobagem: ela existe mesmo e tem explicação científica.
Entenda melhor por que perder no futebol dói tanto, mesmo sem entrar em campo.
O peso do estresse e da esperança na frustração
Ficar investido emocionalmente em um jogo de futebol mexe na própria química do seu cérebro. Estudos demonstram que os níveis de serotonina (associada à felicidade) sobem quando seu time vai bem, enquanto o cortisol (hormônio do estresse) dispara ao longo de uma partida tensa ou nos momentos em que algo vai errado.
Para piorar, não é uma relação de total equivalência: o impacto das derrotas parece ser mais intenso e duradouro do que a alegria das vitórias.
Você provavelmente já sentiu isso na prática – por melhor que seja ver seu time vencer, a felicidade muitas vezes se dissipa mais rápido do que o incômodo de lembrar de um jogo que deu errado.
E, se você criou expectativas, tudo pode ser ainda mais dramático.
Os fãs de futebol britânicos gostam de utilizar una frase que se tornou famosa internacionalmente na série Ted Lasso, da Apple TV: it’s the hope that kills you, ou, em bom português, é a esperança que te mata (emocionalmente).
Esse estudo de 2020 mostrou que, quanto mais positivamente os torcedores fantasiavam sobre uma vitória, mais intensas eram as emoções negativas em caso de derrota.
Por outro lado, fantasiar sobre um resultado positivo não fazia aproveitar melhor um eventual triunfo.
Fúria, fanatismo e consequências físicas
Em 2025, um estudo utilizou ressonância magnética do cérebro para indicar que as conexões neurais formadas pelo envolvimento intenso com o futebol podem ser bem semelhantes àquelas vistas em outros tipos de comportamento fanático.
Isso se reflete em respostas emocionais explosivas que podem colocar a própria pessoa e quem está ao seu redor em risco.
Os disparos de cortisol associados a uma torcida mais intensa durante o jogo não geram apenas um estresse emocional: o hormônio também serve de gatilho para perigos físicos, como a alteração no ritmo cardíaco e na pressão arterial.
Vale lembrar que as frustrações com o futebol também podem causar lesões físicas em outras pessoas – algo que não se resume às brigas de torcida. Muitos países registram um pico de episódios de violência doméstica após jogos de futebol.
Na Inglaterra, em particular, o fenômeno é bastante estudado: pesquisas têm concluído que, até mais importantes do que o resultado do jogo, são o consumo de álcool e o horário em que ele acontece. Quanto mais cedo no dia a partida ocorre, maiores as chances de problemas do tipo, pois a maioria dos casos de violência costuma ocorrer de 8 a 10 horas após o jogo.
Como lidar com a frustração
Aqui você não vai encontrar dicas como “lembre-se que é apenas um jogo”. É uma frase que qualquer torcedor já ouviu diversas vezes e sabe que adianta muito pouco.
Pelo contrário: só irrita ainda mais, ao minimizar a paixão que você sente pelo esporte e a forma como ele está envolvido na sua cultura cotidiana e nas relações interpessoais. Afinal, para muita gente, o futebol é uma parte da própria identidade.
Mas, mesmo sendo mais do que um jogo para você, é importante se afastar um pouco e pensar com alguma racionalidade.
Foque naquilo que você consegue controlar: é impossível para qualquer torcedor influenciar sozinho o resultado de uma partida, especialmente acompanhando a milhares de quilômetros de distância pela TV – nem dá para gritar para o técnico, os jogadores ou o juiz, e sentir o “placebo” de que você está fazendo algo.
O que está sob seu controle é a forma como você se relaciona com o jogo, e como encara as frustrações causadas por ele.
Não dá para decidir ficar menos triste, mas é possível se afastar daquilo que aumenta a dor: pode ser uma boa ideia não consumir conteúdos (vídeos, textos, até memes) que lembrem da frustração.
Deixe o tempo passar e ir curando as feridas deixadas por Haaland. Na próxima Copa, talvez valha a pena não criar tantas expectativas para não sofrer de forma tão intensa.
E lembre-se: se nada funcionar, se o futebol ocupa tanto espaço na sua mente que começa a impactar negativamente seu dia a dia e suas relações, não hesite em procurar ajuda psicológica para conversar sobre isso e encontrar maneiras mais eficientes de curti-lo de forma saudável.