Entre a meta e a medalha: psicóloga “olímpica” fala sobre sucesso e saúde mental

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Alta performance: eis o denominador comum que atletas profissionais, estudantes universitários e executivos de grandes empresas compartilham para alcançar os melhores resultados. Acontece que essa busca pode ter um preço: problemas de saúde mental.

Responsável por cuidar da cabeça dos integrantes do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), incluindo a ginasta medalhista Rebeca Andrade, a psicóloga do esporte Aline Wolff explica que a maior parte das pessoas enxerga a alta performance e o bem-estar numa dicotomia em formato de gangorra: para que um lado decole, o outro tem de necessariamente desabar.

Romper com essa imagem é o primeiro passo para trilhar o caminho que dá título ao seu livro: Alta Performance Sustentável (clique aqui para comprar).

Na obra, a especialista compartilha os princípios que devem guiar uma vida de metas cumpridas e pódios ocupados que não vira refém da ansiedade e do burnout pelo caminho.

São premissas como a definição de valores e a autoliderança, que se aplicam tanto às pistas de corrida como aos corredores das empresas, e devem se tornar ainda mais críticas com a NR-1, a Norma Regulamentadora nº 1, que institui o gerenciamento dos riscos psicossociais no trabalho a partir deste mês.

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VEJA SAÚDE: Qual foi o grande aprendizado ao trabalhar junto ao COB e a atletas como Rebeca Andrade?

Aline Wolff: A convivência com atletas de altíssimo rendimento ensina muito sobre o que realmente sustenta uma grande performance. Do lado de fora, as pessoas enxergam a medalha, o pódio, o resultado e muitas vezes colocam o atleta em um lugar sobre-humano.

Mas o que sustenta aquele momento é uma construção longa, feita de repetição, frustração, pequenas conquistas, erros, acertos e recomeços, e, principalmente, a capacidade emocional para continuar.

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Talvez o maior aprendizado tenha sido perceber que o talento leva o atleta até certo ponto, a disciplina leva um pouco além, mas o que sustenta a trajetória é uma mente saudável, que recebe atenção e cuidados.

É a base para tornar o atleta mais forte. Assim fica mais fácil lidar com a pressão, o medo de errar, a expectativa das pessoas e os ciclos naturais da carreira.

São lições que valem para a vida no geral, não?

O esporte deixa muito evidente uma coisa que vale para a vida: resultado não se constrói apenas quando estamos bem, motivados e confiantes.

Resultado se constrói, principalmente, naqueles dias em que a pessoa está cansada, insegura, frustrada e mesmo assim encontra uma maneira de seguir para buscar seu desejo. E, para continuar nesses dias, ela precisa estar emocionalmente estruturada. 

Na obra você cita o caso de Simone Biles e Michael Phelps. Acredita que o universo esportivo realmente despertou para o cuidado com a saúde mental? 

A saúde mental sempre foi importante no esporte, porque o esporte sempre foi um ambiente de muita pressão, muita cobrança e muita exposição. O que mudou foi a visibilidade e a forma como os atletas começaram a falar sobre isso.

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Os relatos da Simone Biles e do Michael Phelps tiveram um impacto muito grande porque mostraram que mesmo atletas que chegaram ao topo também sofreram, tiveram depressão, ansiedade, medo, pensamentos difíceis.

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Isso ajudou a quebrar um estigma de que atleta forte é atleta que aguenta tudo calado, e mostra que mesmo os atletas enormes também adoecem. São pessoas, não máquinas.

E pesquisas recentes ainda mostram que o cuidado com a saúde mental melhora o desempenho e a longevidade da carreira. 

Onde é mais difícil atuar como psicóloga hoje: no mundo esportivo ou no corporativo?

Eu diria que é mais difícil no mundo corporativo. No esporte, existe uma relação muito clara entre mente e resultado. O atleta sabe que, se não estiver bem emocionalmente, ele não performa. Ele perde, ele erra, ele não atinge o tempo, ele não acerta a série. A consequência é objetiva e imediata. Então existe uma abertura maior para esse trabalho.

No mundo corporativo, ainda existe muita confusão. As empresas começaram a falar de saúde mental, o que é importante, mas muitas vezes ainda a tratam como algo à parte do trabalho. Como se saúde mental fosse um benefício, uma palestra, um aplicativo, uma terapia oferecida como convênio.

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Mas saúde mental também está dentro do trabalho, da forma como ele é organizado, da forma que as lideranças cobram, do volume de trabalho, da cultura da empresa.

Enquanto isso não for olhado com seriedade, vamos continuar enxugando gelo. Saúde mental não pode ser tratada como perfumaria.

No livro, você fala de uma gangorra entre saúde mental e performance. Por que é preciso se desvencilhar dela?

A gangorra é uma imagem para explicar uma confusão que se tornou muito comum. Como se saúde mental e performance fossem coisas opostas. Como se, para performar muito, a pessoa tivesse que se sacrificar emocionalmente. E como se, para cuidar da saúde mental, ela tivesse que abrir mão de resultado, de ambição, de crescimento.

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Esse pensamento cria uma vida em ciclos. A pessoa vai muito bem, trabalha demais, entrega demais, se esgota, adoece. Aí ela para, se recupera, volta. Depois se esgota de novo. Ela vive entre picos de performance e quedas de exaustão. Isso não é alta performance, isso é uma montanha-russa emocional e profissional.

O que eu proponho no livro é uma mudança de lógica. A saúde mental não pode estar em um dos lados da gangorra. Ela precisa ser a base. Porque, quando a base está forte, a pessoa consegue alternar momentos de muita intensidade com momentos de recuperação sem quebrar, consegue sustentar uma trajetória.

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Qual seria o aspecto mais fragilizado das pessoas no ambiente corporativo hoje?

Acredito que seja a autoliderança. Hoje as pessoas têm muita informação, muitos estímulos, muitas referências, muitas possibilidades. Mas, ao mesmo tempo, têm pouca clareza sobre quem são, o que querem e por que estão fazendo o que estão fazendo.

Acha que, com a NR-1, o cuidado com o bem-estar mental no trabalho ganhará novo patamar?

A NR-1 é um movimento importante porque, pela primeira vez, a saúde mental entra de forma mais clara como responsabilidade também das organizações. Isso muda a conversa, porque deixa de ser apenas uma questão individual e passa a ser também uma questão de ambiente, de gestão e de cultura. Mas lei nenhuma muda a realidade sozinha.

O que muda a realidade é a forma como as empresas vão interpretar e aplicar isso. Se a saúde mental continuar sendo tratada como um benefício, como algo que a empresa oferece quando a pessoa já está mal, pouca coisa muda. A mudança verdadeira não é jurídica, é cultural.

Alta performance sustentável: saúde mental para vencer

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