Injetáveis na estética: o “novo” segredo dos rostos que parecem naturais

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Um vídeo provocador viralizou nas redes sociais: nele, mulheres esticavam a própria pele e retiravam bocas volumosas, bochechas infladas e narizes empinados, removendo os preenchimentos e retornando a um visual mais realista.

Mesmo tendo sido feito por inteligência artificial, o conteúdo reacendeu o debate sobre o abuso de procedimentos estéticos.

Nos comentários da postagem no Instagram — que soma mais de 30 milhões de visualizações — choveram aplausos e frases como “o ácido hialurônico nunca vai modelar melhor que a natureza” e “as mulheres não precisam de procedimentos”.

A crítica ao excesso é prudente, claro. Mas existe um ponto que costuma passar despercebido: a maioria dos rostos de celebridades e figuras públicas hoje considerados bonitos carrega, sim, algum tipo de injetável. Ou vários.

O que muda é a quantidade e a técnica com que foram aplicados.

Nesta reportagem, você vai entender:

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  • Injetáveis estéticos ainda sofrem preconceito
  • Ácido hialurônico e toxina botulínica: os favoritos do mercado
  • O que é um resultado natural na estética
  • O reposicionamento do ácido hialurônico
  • Colágeno na prática: crescem os injetáveis que estimulam a própria pele
  • Botox é bem mais que rugas
  • Além de aplicar: médicos precisam educar

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Injetáveis estéticos ainda sofrem preconceito

De fato, o trauma coletivo das harmonizações faciais transfigurantes ainda pesa. Por isso, muita gente carrega estigmas relacionados a intervenções à base de Botox, ácido hialurônico e companhia.

Prova disso vem de uma pesquisa recente, encomendada pela marca Galderma, para mapear as percepções gerais dos consumidores sobre os injetáveis da dermocosmética.

Quase 10 mil pessoas, em sete países, entre eles o Brasil, foram entrevistadas. Do total, 40% afirmaram que desencorajariam outros indivíduos a fazer essas intervenções, e 35% acreditam que elas criam padrões de beleza irreais.

O dado mais revelador, porém, ficou por último: quando os voluntários foram apresentados a imagens de pessoas tratadas com ácido hialurônico, quatro em cada cinco não sabiam dizer se as mulheres haviam se submetido a um procedimento ou não.

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“A naturalidade do resultado diz muito mais sobre quem está aplicando o produto do que sobre a ferramenta”, diz a médica Lilia Guadanhim, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

“O tratamento com injetáveis é como se fosse uma pintura. Mas o resultado alcançado por uma criança de dois anos com um pincel nas mãos é totalmente diferente daquele obtido por um artista plástico com o mesmo pincel”, compara.

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Ou seja, o problema nunca foi o ácido hialurônico ou a toxina botulínica, mas os modismos e a falta de preparo técnico de boa parte dos profissionais que atuam no mercado da estética.

Ácido hialurônico e toxina botulínica: os favoritos do mercado

Um mercado, aliás, que não para de crescer. Tecnologias para estímulo de colágeno, dermocosméticos cada vez mais sofisticados, gadgets que potencializam a absorção de ativos, peelings de todos os tipos — as inovações são inúmeras.

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Ainda assim, os procedimentos injetáveis continuam sendo os queridinhos. Não por acaso, houve um aumento expressivo no número de profissionais que podem manejá-los na última década — para além dos médicos, biomédicos, enfermeiros, farmacêuticos, fisioterapeutas e dentistas também passaram a integrar oficialmente esse grupo.

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A aplicação de toxina botulínica (do Botox) segue reinando como a intervenção não cirúrgica mais feita no mundo, chegando a 8 milhões de procedimentos anuais realizados por médicos, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS, na sigla em inglês).

O ácido hialurônico vem logo atrás, na segunda posição do ranking.

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Apesar de um passado recente maculado por exageros, a boa notícia é que a maré está virando. A versatilidade dos produtos, as novas indicações terapêuticas e a valorização crescente de resultados sutis reposicionam essas substâncias como aliadas da beleza moderna.

Lugares onde injetáveis são mais aplicados (KinoMasterskaya/Getty Images/Veja Saúde)

“O objetivo não é transformar o rosto, mas restaurar proporções e melhorar sinais do envelhecimento, preservando a identidade”, resume Daniel Coimbra, coordenador do Departamento de Cosmiatria da SBD.

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Nesse contexto, a Allergan Aesthetics, uma das maiores marcas especializadas em injetáveis, compartilhou com VEJA SAÚDE um novo estudo sobre o futuro do ácido hialurônico, de acordo com a experiência de especialistas do mundo inteiro e as percepções dos consumidores.

O trabalho expõe como a sobrecarga de informações digitais, as mudanças nos desejos estéticos e um mercado em constante expansão estão redefinindo as aspirações no consultório e na frente do espelho.

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Dados da pesquisa The Future of HA Injectables, da Allergan Aesthetics (Design: Laura Luduvig/Estúdio Tigre/Veja Saúde)

O que é resultado natural na estética

A promessa de resultados naturais se tornou o novo mantra da estética. Mas o que exatamente isso quer dizer?

Bom, não há um consenso absoluto. Ainda assim, muitos especialistas concordam que um dos principais sinais de um bom resultado é uma aparência descansada.

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“Para isso, os injetáveis são importantes em pontos estratégicos do rosto”, afirma Coimbra.

O dermatologista Renato Soriani, especialista em tecnologias cosméticas, concorda, mas prefere explicar essa lógica por uma perspectiva mais artística. Na visão dele, um bom tratamento funciona quase como um jogo de iluminação.

Suavizar as sombras da face e destacar pontos de luz, como fazia o pintor holandês Rembrandt, é a chave para um resultado elegante e harmônico”, defende.

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A pesquisa da Allergan também examinou o que está por trás de resultados satisfatórios. Dentre os experts ouvidos, ganha força a ideia de que um bom procedimento é aquele praticamente indetectável depois.

A médica canadense Julia Carroll, membro da Academia Americana de Dermatologia, resumiu bem esse raciocínio no evento de apresentação do estudo para jornalistas em Roma: “o melhor procedimento é aquele que passa despercebido para os outros, mas que faz diferença para quem se vê no espelho”.

E como alcançar esse tipo de resultado? Muitos acham que basta um senso estético apurado. Mas essa concepção é subjetiva demais, o que ajuda a explicar a enorme variação nos desfechos em consultório.

Para reduzir esse espectro, o cirurgião plástico brasileiro Maurício De Maio desenvolveu uma técnica que sistematiza a aplicação de ácido hialurônico com base na anatomia facial. Com o nome de MD Codes (códigos médicos, em tradução livre), virou uma das estratégias mais empregadas internacionalmente.

“Ele fez um mapeamento da face e a separou em pequenas regiões anatômicas, que chamamos de códigos de análise, trazendo um lado técnico estrutural muito mais preciso para o uso do ácido hialurônico”, explica Marcel Vinícius Menezes, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e um dos discípulos de De Maio.

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Por ser bem detalhado, mostrando em que camada da pele aplicar o produto e até sugerindo a quantidade a ser usada, o método já foi acusado de “padronizar” algo que precisa ser individualizado.

Mas Menezes discorda: “Ele sistematiza, não padroniza. Raramente você trata todos os códigos do paciente. É essencial ouvir a queixa, o que incomoda, e aplicar uma versão da técnica que seja adequada a cada pessoa”, destrincha o cirurgião plástico.

O reposicionamento do ácido hialurônico

Com o aperfeiçoamento das estratégias e um entendimento mais profundo das transformações provocadas pelo envelhecimento, o ácido hialurônico deixou de ser visto apenas como um “preenchedor” ou “tapa-buraco” para rugas.

Cada vez mais ele é valorizado como um reestruturador da face.

É fato que, com o passar dos anos, o rosto perde gordura e há reabsorção óssea, sendo comum o afundamento de regiões como a têmpora ou a perda de contorno da mandíbula. Nesses casos, as injeções do produto ainda são imbatíveis. E o crucial é focar na causa, não na consequência .

“Quem tem bigode chinês e olheira funda geralmente está com problemas de sustentação no terço médio do rosto. Não adianta preencher só as regiões que incomodam, é preciso devolver estrutura ao todo”, exemplifica Menezes.

Esse papel reestruturante ganhou ainda mais relevância recentemente. Com o aumento do uso de canetas emagrecedoras e a consequente perda rápida de peso, tornou-se mais flagrante o surgimento de flacidez facial — cenário em que a reposição de suporte estrutural brilha.

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Paralelamente, cresce também a tendência de usar o ácido hialurônico como hidratante injetável.

Essa opção está diretamente ligada à principal característica da molécula: sua enorme capacidade de umidificar áreas do corpo. Presente naturalmente no organismo, ele consegue reter grandes quantidades de água, ajudando a manter a pele viçosa.

Nesse sentido, a popularização do ativo se deu por dois fatores: primeiro, pelo ótimo perfil de segurança, já que a aplicação da substância sintética na pele tem baixíssimo risco de reações alérgicas. Segundo, pela sua versatilidade.

Ele pode estar presente tanto em cosméticos tópicos quanto em formulações injetáveis aplicadas em diferentes camadas cutâneas.

“Tudo depende da firmeza do gel, o que a gente chama de reticulação”, explica o dermatologista Rafael Tomaz, gerente médico da Galderma no Brasil.

“Os produtos menos reticulados, quase líquidos, são usados para hidratação, devolvendo ácido hialurônico a uma pele que já perdeu essa substância ao longo do tempo.”

Ou seja, é uma saída a quem sente a pele mais opaca, sem viço, pois, quando bem indicada, a molécula tem o mérito de ressaltar as características naturais do rosto.

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(KinoMasterskaya/Getty Images/Veja Saúde)

Colágeno na prática: crescem os injetáveis que estimulam a própria pele

Se o ácido hialurônico passou por uma espécie de rebranding, os bioestimuladores de colágeno são outra categoria de injetáveis que ganham cada vez mais espaço.

São substâncias introduzidas no rosto para provocar uma inflamação controlada, capaz de forçar a produção de colágeno pelo próprio organismo.

“Estudos mostram que eles ativam diferentes vias biológicas da pele, promovendo aumento dessa proteína, estímulo de fibras elásticas e melhora da hidratação”, sintetiza Coimbra.

Além do rosto, regiões como mãos e bumbum também estão na mira desse produto com a meta de incrementar a qualidade e a firmeza da pele.

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Como qualquer procedimento injetável, no entanto, o uso exige técnica e cautela.

Queixas relacionadas à formação de nódulos têm aparecido. Por estimularem fibroses internas, alguns cirurgiões plásticos argumentam que esses produtos poderiam dificultar a realização de um lifting cirúrgico anos depois.

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Outra crítica diz respeito ao fato de serem materiais sintéticos, o que levaria pacientes a questionar se o resultado seria realmente “natural”. Mas é preciso ter cuidado ao deparar com tais acusações.

“O nódulo é resultado de uma diluição incorreta do produto, é falta de técnica adequada”, esclarece Menezes.

Segundo o cirurgião, a alegação sobre a interferência em uma plástica futura também incorre em erro, já que os bioestimuladores devem ser aplicados de forma mais superficial, na derme, não em porções mais profundas.

“Quase todos os problemas no mercado estético não vêm dos produtos em si, mas de uma má conduta”, avalia.

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Da mesma forma, o fato de serem sintéticos não significa que sejam prejudiciais à pele. “Esses materiais são biocompatíveis e reabsorvíveis. Eles estimulam a capacidade natural de o organismo se reorganizar”, diz Coimbra.

Botox é bem mais que rugas

E a toxina botulínica? Bom, a queridinha é o injetável menos contestado (e mais amado) de todos.

E hoje já se enxerga sua aplicação não como um aparador de rugas, mas como um controlador do peso da face.

“De forma técnica, o efeito mais interessante é que ele equilibra os vetores de força do rosto. E os estudos já mostram que, no longo prazo, sua aplicação pelo menos uma vez ao ano, de maneira correta e nos pontos certos, melhora a forma como a estrutura da face vai envelhecer”, afirma Guadanhim.

Um grande exemplo disso é o uso da substância no pescoço, popularmente conhecido como “Botox Nefertiti”.

Você já deve ter reparado como, com o avançar da idade, essa região pode ficar mais fina e marcada. Isso é culpa de um grande músculo que ocupa a área, chamado platisma, que acaba perdendo seu tônus e puxando o rosto para baixo.

“O produto pode melhorar o contorno da face, aquele aspecto de buldogue e o posicionamento do canto da boca. É um tratamento completo”, elogia a dermatologista.

Novamente, o papel de quem aplica é essencial: se for injetado em dose ou local inadequados, a intervenção pode gerar dificuldade de deglutição, problemas na voz e até na respiração.

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Muito além da estética, os cientistas continuam descobrindo e validando outras aplicações terapêuticas para o Botox.

Já integram a lista de reparos da molécula casos de bruxismo, hiperidrose (suor excessivo), enxaqueca, estrabismo, rosácea, escape urinário e dor crônica após lesão por herpes-zóster.

Além disso, está em investigação um antídoto para a toxina botulínica, assim como versões com diferentes durabilidades, para adequar ou retocar o uso a gosto do paciente e do profissional.

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Inovações junto aos injetáveis ditam o futuro (Design: Laura Luduvig/Estúdio Tigre/Veja Saúde)

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Além de aplicar: médicos precisam educar

Diante de uma clara evolução no uso de injetáveis e da necessidade de aplicações precisas e corretas, cresce também a tendência de enxergar os médicos que atuam na estética, dermatologistas e cirurgiões plásticos, como educadores.

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Dados da pesquisa The Future of HA Injectables, da Allergan Aesthetics (Design: Laura Luduvig/Estúdio Tigre/Veja Saúde)

A pesquisa da Allergan destaca que é fundamental que os profissionais sérios saibam navegar pelos ruídos sobre procedimentos que se propagam pelas redes sociais e possam orientar melhor os pacientes sobre as devidas indicações.

O momento da consulta, da conversa antes de qualquer intervenção, é o mais importante”, defende Carroll. “Eu sempre mostro fotos e dou uma miniaula de anatomia para que os pacientes possam, junto comigo, tomar decisões conscientes e embasadas do que pretendem fazer com seu rosto”, diz a médica canadense.

Sim, o futuro dos injetáveis na estética passa por uma boa dose de sensibilidade humana.

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