Tirzepatida em pó: entenda por que não é equivalente ao Mounjaro original

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A popularização e o desejo pelas famosas canetas emagrecedoras, que promovem uma perda de peso nunca antes vista com medicamentos, têm alimentado um gigantesco mercado irregular.

Depois que versões falsas de moléculas como a tirzepatida passaram a ser vendidas em ampolas (diferentemente da versão original, disponível apenas em canetas autoinjetáveis), uma nova tendência começa a ganhar força em redes sociais como o TikTok: a chamada “tirzepatida em pó”.

Na prática, em vez de comprar a medicação já diluída, a pessoa adquire uma suposta fórmula em pó, que seria mais estável durante o transporte. A intenção é que o próprio paciente faça a diluição e aplique o produto em casa.

Mas isso faz sentido? A tirzepatida pode mesmo ser transformada em pó? E, se sim, esse produto é eficaz e seguro? VEJA SAÚDE investigou.

Como medicamentos viram pó?

Bom, existe uma técnica específica para isso: a liofilização. Ela nada mais é que uma desidratação a frio, em que a água é congelada e depois retirada por um processo chamado sublimação.

Traduzindo: o medicamento é preparado inicialmente em forma líquida, de solução, depois é congelado e a água é retirada sob pressão muito baixa, fazendo o gelo passar diretamente do estado sólido para o vapor.

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“Uma analogia útil é pensar no café solúvel liofilizado, que volta a se dispersar rapidamente quando entra de novo em contato com água”, ilustra o farmacêutico André Bacchi, professor de farmacologia da Universidade Federal de Rondonópolis, no Mato Grosso.

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Geralmente, substâncias que são instáveis em meio líquido por longos períodos são vendidos como pós liofilizados para reconstituição.

“Imunobiológicos, alguns hormônios, antibióticos e quimioterápicos são vendidos dessa forma e reconstituídos à beira do leito”, explica Bacchi. “A reconstituição costuma ser feita por profissional treinado, com o diluente especificado, no volume especificado, imediatamente antes do uso”, completa.

Tirzepatida pode ser comercializada em pó?

Olhando só pela plausibilidade farmacêutica, sim.

A semaglutida (princípio ativo do Ozempic e Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro e Zepbound) são peptídeos (sequências de aminoácidos).

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Estruturas desse tipo podem sofrer com a degradação e perda de eficácia quando ficam guardadas em meio líquido por muito tempo em condições de armazenamento inadequadas.

Teoricamente, a liofilização funcionaria para congelar e “desidratar” essas moléculas, mantendo sua estabilidade.

Então por que o Mounjaro original é vendido só em caneta?

A fabricante Eli Lilly, detentora da patente internacional que garante exclusividade de fabricação e comercialização de tirzepatida, optou por disponibilizar esse medicamento exclusivamente no formato de canetas aplicadoras pré-enchidas com a solução já pronta por alguns motivos:

  • Conveniência: Evita que o paciente precise manipular agulhas extras, diluentes e calcular dosagens manualmente;
  • Segurança e Precisão: Como as doses são milimétricas, a reconstituição caseira aumenta o risco de erros na dosagem ou de contaminação por bactérias e outros microrganismos;
  • Conservação: A tecnologia protege a substância, mesmo assim deve ser mantida sob refrigeração.

É seguro comprar e usar tirzepatida em pó?

Não. Não existe nenhum fabricante regulado pela Anvisa que produza e comercialize a molécula dessa forma. Por isso, os riscos são inúmeros:

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1.Como não há regulação, ninguém sabe exatamente o que há no pó

É realmente tirzepatida? A quantidade declarada corresponde à real? O produto foi fabricado assepticamente? O transporte e o armazenamento anteriores foram adequados? 

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“Ela não é testada e se afasta muito dos padrões mínimos de segurança para medicações injetáveis”, afirma o endocrinologista Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (Sbem). 

2.O risco de contaminação é alto

Existe um grande perigo de contaminação por micro-organismos ou outros corpos estranhos durante a reconstituição feita em casa. “O risco é ainda mais preocupante quando um produto é usado repetidamente após a manipulação, o que é comum em casos de fracionamento de doses vindas de um mesmo frasco”, alerta Bacchi.

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“A literatura de farmacovigilância mostra chances muito maiores de erro de preparação e de contaminação em comparação ao industrializado. Além disso, a validade e as condições de conservação de uma formulação industrial não podem ser automaticamente transferidas para outra preparação apenas porque ambas alegam conter tirzepatida”, completa o farmacêutico.

3.O erro de dosagem também é comum

“Como as pessoas normalmente fazem uma regra de três com seringas de insulina, a chance de erro de diluição e dose é gigantesca”, crava Macedo.

“Se a concentração ficar abaixo do necessário, o medicamento não terá o efeito esperado. Se ficar acima, o risco de intoxicação aumenta muito, ainda mais porque, nessas versões alternativas e não originais da tirzepatida, muitas vezes já existem concentrações elevadas do composto“, explica o endocrinologista.

Detalhe: como a meia-vida dessa molécula é longa (cerca de cinco dias), uma superdosagem demora muito para ser revertida e os efeitos adversos/tóxicos podem durar mais tempo.

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4.Reconstituição amadora pode gerar consequências graves

Na tentativa de dissolver o pó mais rapidamente, muita gente sacode o frasco, um procedimento que compromete estrutura e segurança da molécula.

A tirzepatida é um peptídeo com uma cauda de ácido graxo, e essa cauda dá à molécula uma tendência a se ‘grudar’ nas paredes do frasco e a se agregar, formando grumos microscópicos. É aí que pode surgir um grande problema: quando um peptídeo se agrega, além de poder perder sua potência, ele pode ganhar imunogenicidade, ou seja, o sistema de defesa do organismo pode reconhecer aquilo como estranho e reagir, atacar o próprio corpo, reduzindo a segurança do medicamento”, explica Bacchi.

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Por que a tirzepatida em pó está se tornando popular?

Existem algumas vias de acesso. “O que percebo para esse tipo de produto conseguir ser comercializado é que, em alguns casos, tem sido adquirido como ‘insumo para pesquisa’, para tentar driblar a regulamentação sanitária”, afirma Bacchi.

De fato, laboratórios de biologia compram frascos de tirzepatida liofilizada para estudos in vitro ou em modelos animais. Mas essa versão não pode ser aplicada em pessoas.

“As normas éticas e sanitárias, bem como as consequências para a saúde humana, podem ser muito diferentes para um mesmo princípio ativo quando ele é destinado à pesquisa ou quando é produzido como medicamento para uso humano”, esclarece o farmacêutico.

Outra via que alimenta essa situação é o mercado de farmácias de manipulação nos Estados Unidos. Algumas delas adquirem tirzepatida na forma de pó liofilizado industrial para preparar formulações líquidas destinadas aos pacientes.

Mas aí surge a velha polêmica: de onde vem esse insumo, se a Lilly detém a patente internacional e não o fornece às farmácias magistrais? E, principalmente, ele é produzido com os mesmos padrões de qualidade exigidos para um medicamento?

Ter o mesmo princípio ativo garante que é o mesmo remédio?

Não. O farmacêutico André Bacchi é claro: um medicamento não pode ser reduzido somente ao seu princípio ativo.

Ele explica que todo remédio é um produto tecnicamente elaborado que contém um princípio ativo, mas cuja qualidade depende dos demais ingredientes, do processo de fabricação sob boas práticas, do sistema de qualidade que testa cada lote, do dispositivo que entrega a dose certa e até mesmo do rótulo e da bula que informam exatamente o que se está injetando e de quem é a responsabilidade técnica.

A crise do Mounjaro falsificado

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